Wednesday, November 01, 2006

Quando os Anjos Amam

Cássio Cavalcante
A cortina de prédios servia de moldura para o bairro. O lugar era banhado pela praia de Boa Viagem que dava-lhe o nome. Por ironia, lá sempre faltava água. No quarto de um dos muitos apartamentos, dois irmãos brigavam pela posse da televisão. Eram os meninos mais desunidos que já se conheceu. Um tinha quatorze anos e dez meses, o outro quatorze. Quando menores esperavam com muita ansiedade o mês do ano em que ficariam com a mesma idade. Mas essas coisas faziam parte do passado. Para eles uma época longínqua que se perdeu no tempo.
Os irmãos não se entendiam, mas não sabiam sair de casa sem estar juntos. Na volta de um show:
- Caim, vamô ligar pra casa. O pai ou a mãe vem buscar a gente.
- Que nada, mané. A gente vai de ônibus mesmo, e dizemos que voltamos de táxi, ficamos com o dinheiro. Levo setenta por cento já que a idéia foi minha. Tá ligado, Abel?
- Nada feito, metade.
- Metade o que? Doido...
- Caim, você viu uma loirinha? Uma com pincem no umbigo, que tava com aquela Heloisa que tu ficou uma vez. Véio, tudo de bom!
Não... Vi, não...
Dias depois caminhando de volta do colégio, no percurso tão conhecido até ao condomínio onde moravam, tinham como companheira, a fome. As energias do lanche foram todas embora depois da bolinha que bateram antes de votarem para casa. Estavam mal-humorados e impacientes. Entre uma discussão e outra:
- Eu num disse veio. Tô ficando com a menina que te falei, é boa toda.
Semanas se passaram.. Ambos sob a nuvem negra da discórdia. Caim displicentemente deixou cair uma fita de game do irmão, e com mais falta de atenção ainda, pisou na mesma. Era o que faltava, a tal da gota d’água. O dono ta fita lançou um olhar vermelho diante do acontecido. Seu desejo maior era fazer o distraído engolir todos os pedaços de sua fita. Só um pensamento vinha em sua cabeça, ferir o irmão. Marcar com sangue aquele invejoso. Que sempre queria tudo o que era seu:
- Porra, Caim. Sacanagem véio, nada haver você tá ficando com ela. Tu sabia que eu tava. Que sacanagem é essa?
- Sacanagem porra nenhuma. Ela deu mole, fiquei mesmo.
- Você vai ver...
- Jaime, corre aqui. Vem ver os teus filhos. Estão rolando no chão, brigando como dois marginais.
- Porra, Helena. Tudo tem que ser eu.
- Eu nunca gostei da idéia dos nomes desses meninos, foi coisa sua.
- Aí. Parou agora mesmo, seus galinhos de briga. Eu mandei parar.
- Foi ele, tá ficando com a menina que eu vi primeiro.
- Viu primeiro mais não é dono. Se ela gostasse de você otário, não tinha ficado comigo.
- Parou. Cala a boca Caim. Lembre-se que um dia é da caça o outro do caçador. E você Abel, não briga por causa de mulher com seu irmão. Ele tem razão.
- Nada disso Jaime, não e por aí.
- Não venha se meter, Helena. Sempre é assim, me chama e depois que tô resolvendo fica se metendo.
Passaram-se os dias, e a rotina dos irmãos era mesma, briga e mais briga. Agora com motivo real, disputavam a mesma mulher. As confusões eram tantas que Zefa, a empregada que ajudou a criá-los, estava a beira da loucura:
- Agüento não, Dra Helena. É o dia todo feito dois cachorros. Estão me deixando doidinha. Quara-feira, até sobrou um chute pra mim. Eu acho que vou querer sair daqui.
- Está louca, Zefa? O que vai ser de mim sem você?
Meio dia, o sol de Boa Viagem, estava quente. Com seus raios de claridade e calor, dourava as ruas. Deixando todos que estavam sob o seu aquecimento, suados e evidentemente de cabeça quente. Na saída do colégio os ânimos dos irmãos se comparavam aos do astro rei. Quando uma menina gordinha, fartas bochechas rosadas pintada de sardas, os cabelos arrumados com maria chiquinha. Formando assim um conjunto visual que causava o repudio de todas as outras meninas tidas como as populares. Ao ver os meninos, com um sorriso repleto de esperança, maldade e rancor. Disparou:
- Vi a Esterzinha agora mesmo. No maior amasso com o Matheus, no estacionamento. Tão lá, o pobre do Siena tá já virando, e ficando com as rodas para cima. Ela tá se achando, disse que fica com ele, mais na hora que quiser um de vocês dois e só estalar os dedos.
Calados os irmãos foram no lugar indicado. Se sentindo observada, o motivo maior da disputa deles, que tinha o pescoço sendo beijado, abriu os olhos, sorriu, e os fechou novamente.
Os dois irmãos trocaram olhares. Puxaram a respiração com firmeza, e soltaram lentamente. Uma certeza única a partir daquele momento passou a povoar suas mentes. Nunca foram tão unidos em um ideal.

***

- Onde está Clarisse?
- Apagada.
- Mais já faz dois dias!
- Não queira agora que ela seja uma mulher Maravilha. Desde o sumiço de Esterzinha até o corpo ser encontrado, ela não dormiu um dia. Com a separação de vocês ela tem levado tudo muito só. A casa, dinheiro, a filha...
- Eu não sei o que fazer de minha vida, Jorge. Você que foi meu cunhado sabe de tudo. O peso, o arrependimento. Não sei se vou suportar essa carga.
- Cleber, agora é tarde...


Recife, 16 de agosto de 2006
3c1m@uol.com.br

O Dia da Caça

Cássio Cavalcante
A relva abundante de um verde forte, era a dominadora da paisagem. O contraste do marrom da cor dos cavalos, que reunidos traziam em seus lombos os donos. Senhores da aristocracia inglesa. Esperavam o toque da corneta para o inicio de mais uma caça á raposas.
Lorde Smith, não estava tranqüilo. Sentia que se encontravam misturados. O sangue azul que corria em suas veias fervia. Não admitia estar em um grupo que não fosse formado apenas por indivíduos de seu meio natural. Perguntou a seu primo quem era o sujeito de camisa amarela:
- Não sei.
- Providencie que ele nos deixe.
O soar da corneta anuncia que é chegada a hora da competição. Todos almejam o pequeno animal vermelho. Empalhado servirá de troféu para adornar os salões seculares. O forte galope dos cavalos somados aos latidos incessantes dos cães generalizava a confusão. Era um barulho ensurdecedor.
Em meio a tudo que se passava, o cavalo do Lorde se assustou. Ele tomba e a lama lhe serve de amparo. De todos os cavalheiros nenhum sequer olhou para trás, nem tão pouco pararam preocupados com o que tinha havido. Ao contrario disso ouviram-se gargalhadas. Não muito longe dali o jovem Richard observa o acontecido. No impulso corre em direção do acidente. Aproxima-se calmamente, desce da montaria e estende a mão ao caído:
- Quem é você?
- Ri... Ri...
- Como?! Fale de uma vez?
- Richard, milorde. O filho de Thómas, seu cavalariço.
- Vai então e diz a teu pai que ele está despedido.

***

Formou-se uma tarde nublada, depois da manhã ensolarada. Uma calmaria se apoderou de todo o campo. Não se ouvia os passarinhos, ou som de animal algum. Os ares vespertinos antecediam o crepúsculo que estava para chegar. O silencio era quebrado às vezes pelo canto da cigarra, comum naquelas instancias. No céu alguns pássaros iam-se voando para outras paragens. Um vento frio e rasteiro rolava as folhas secas no chão que se amontoavam. Outras caiam na águam faziam bordados circulares, que depois de certo tamanho se desfaziam por completo. No celeiro, amantes se dão.
Marcas de corpos no monte de feno. Richard amarra em volta do pescoço da amada uma fita de veludo azul, com isso deixa um camafeu enfeitando o colo tão querido. Com um dos braços enlaça aquela cintura fina e delgada. Tira de seus cabelos um pequeno pedaço de seiva seca, que teima em ficar ali como prova das caricias a pouco sentidas. Afasta os cachos dourados e lhe dá um beijo, que começa na nuca e passeia por toda as costas. Como se quisesse lhe roubar a alma nas lembranças de seu cheiro. Ele à vesti, depois lhe ajuda a atacar o espartilho:
- Sabe, foi melhor assim.
- Eu lamento tanto tudo terminar nessa forma.
- Emma, eu não agüentaria assistir seu casamento com o primo de seu pai. As vezes penso que a loucura será tudo que me restará, quando longe daqui, nunca mais a terei em meu braços.
- Porque a vida nos impõe a separação.
- Nosso caso não tem solução. Sairei hoje de sua vida para nunca mais voltar.
- Ela, coloca a mão em cima de seu ventre, e aperta a certeza de que seu amado nunca sairá de sua vida.



Cássio Cavalcante, exercício da oficina na tarde de 14 de junho de 2006.
3c1m@uol.combr

No Mercado das Aparencias

Cássio Cavalcante
Nos primórdios da cidade do Recife, chegou naquelas terras um desbravador português de nome Manuel de Areias. De imediato adquiriu um sitio as margens do Rio Capibaribe, onde logo se instalou. Localizava-se no extremo meridional da Boa Vista, onde existiu o cemitério dos Judeus. Contavam os mais antigos que o panorama visto das janelas do segundo palácio de Mauricio de Nassau, na cidade, era fascinante, ao se vislumbrar as terras continentais de Pernambuco, proporcionando uma belíssima visão, então, uma Boa Vista. A paisagem que o administrador holandês contemplava, depois de um aterro o lugar passou a se chamar caminho novo.
A propriedade do lusitano ficava vizinha de um sitio maior, com muitas arvores frutíferas. Logo se casou com uma fidalga rapariga, da rica família Muralha, também vindos de Portugal. Com esse casamento formou-se a família Muralha de Areias. Sobrenome tradicional que deixou seu nome cravado na posteridade, tendo como principal instrumento a cana-de-açucar, e a fama de manter a honra acima de tudo, mesmo que tivesse de lavá-la com sangue. Homens duros e impiedosos eram aqueles. De dote o noivo recebeu terras onde edificou o Engenho da Jibóia. Ficava perto do também Engenho que recebeu o nome de sua dona Madalena Gonsalves. Ia-se pela antiga estrada Real uma passagem no Rio Capibaribe, este caminho por muito tempo ficou conhecido como passagem da Madalena. Dizia a lenda que o nome do lugar, se deu em decorrência do fato, de que quando Manoel chegou para tomar posse, encontrou por lá uma cobra que tranqüilamente engoliria um homem. O dono teria matado a víbora, armado apenas de um facão.
A casa grande que construíra para morar foi feita e tinha tudo do bom e do melhor. Os portões fechados formavam o brasão da família, foram adquiridos na Inglaterra. Na entrada da área onde estava situado o solar imperial, tinha dois grifos de bronze, com cabeças de águia e corpos de leão. No jardim lampiões e três estatuas, sendo duas romanas e a outra egípcia, jarrões eram muitos. A fachada era de mármore de Lisboa. O pórtico de três arcadas, o frontão, o terraço superior e as janelas eram motivo de encantamento para a vista. A escadaria que dava acesso à entrada principal era de chamar atenção, aos lados dela duas estatuas de soldados. Na ampla sala de visitas, o chão de tabuas corrida de madeira de lei. Todo que se encontrava sobre aquele piso fora calculado para demonstrar a maior das ostentações, tudo do mais caro e do melhor que a época podia oferecer. A capela do engenho não tinha o seu interior revestido de azulejos ou com pinturas de santos mártires, como era o costume. Mais sim com talhas cobertas de ouro. O emprego da decoração esculpida em seus altares, altar-mor, púlpito, portas emolduradas, bem como no forro e nas duas cornijas principais do interior era produto de estilo barroco. Os Muralha de Areias enriqueciam cada vez mais de geração em geração.
A propriedade se encontrava sob o domínio do bisneto de Manoel, Inácio de Areias. De todos os senhores da família, era o que administrava com a mão de ferra mais pesada, que aquelas terras já sentiram. Além do açúcar contou com o comercio negreiro para solidificar sua fortuna. Teve um confortável casamento de conveniência como era o costume. Quando foi comunicado do seu matrimonio indagou a seu pai como seria a futura esposa. Ao saber que tinha sido educado em conventos e viajou pela Europa:
- Ela sabe ler, meu pai?
- Creio que sim, viajada como é.
- Caro pai, hei de honrar o compromisso que firmou, pois bem sei que essa união trará, benefícios incontáveis para nossa família. Mas seria melhor uma burra, que não conhecesse o mundo das letras. Para uma boa esposa nada mais é necessário que o domínio do lar em todos os seus afazeres.
- Isso não será problema Inácio, mantenha sempre as rédeas curtas, e não terás com o que se preocupar.
- Assim espero meu pai.
O casamento aconteceu como se pretendia. O jovem senhor de Engenho, formado, doutor como exigira o seu genitor, que se achando cansado se mudara para uma fazenda no interior, deixando seu único rebento no comando de tudo. O relacionamento do senhor de Engenho com sua mulher era sempre com muita cerimônia Sentia-se constrangido quando a noite ia cumprir suas obrigações de marido, e sentia sua esposa abraçar-lhe com um pouco mais de força:
“O que está acontecer? Ao final das contas, ela é minha esposa, e não as prostitutas que são minhas em trocas de algumas moedas. Mas parece às negrinhas que eu possuía, quando muito jovem, e andava na companhia do negro Jacinto que me servia de companheiro nas minhas peripécias juvenis. Deixa pra lá, deve ser devaneios meus. Pois era moça quando nos casamos, eu mesmo atesto isso, e não deve ter ciência dessas cousas.”
Lorena era uma bela e esforçada esposa, fazia tudo para agradar ao marido que sempre lhe passa a sensação de que nunca estava satisfeito com nada que ela fazia. Tinha uma beleza que chamava atenção, tributo esse que parecia incomodar o seu marido. Não descuidava de suas obrigações de dona de casa. Mas não dispensava seu passeio pelo engenho todas as tardes, sempre acompanhada de sua mucama, uma negrinha saltitante que atendia pela graça de Zefinha. Era nessas andanças que ficava a sonhar com o filho que teimava em não chegar, mesmo tomando todos os cuidados que lhe eram ensinados pelas escravas que povoavam sua casa.
O campo estava florido. As copas das muitas arvores era de um verde sem igual. O cheiro de manjericão, trazido pelo vento de uma mata próxima, deixava aquela tarde mais perfumada que as outras. Resolveram ir ao pomar. No chão, frutos bicados por gulosos pássaros, que teimavam em cair. Mesmo com escravos a fazerem varias inspeções durante o dia, colocando-os em balaios que eram levados para senzala, para serem devorados pelas negras paridas que lá descansavam. A senhora vê uma grande e suculenta pinha:
- Veja só, que delicia! Corre lá Zefa, e pega pra mim. Me deu uma vontade agora.
A mucama correra e de um pulo colhera a fruta, e a entregou a sua sinhá toda sorridente:
- Será que a Sinhazinha tá de bucho? Ai minha virge, será?
- Deixe dessas conversas, sua maluquinha, sabes que meu marido não gosta. E também não queiras me iludir. Depois não é, e fico a sofrer ainda mais.
- Vixe, é mesmo Sinhazinha, perdoa eu. Virge cruz. Perdoa.
- Nem sei. – Sorriu – Hoje acho que já me pedistes perdão mais de dez vezes. E eu boba que sou, sempre estou a te perdoar.
- Virge mãe de Deus, e foi tudo isso foi?
- Vamos deixar de tolices e voltar para casa, temos que preparar a ceia, e a tarde já esta quase por acabar.
- Vamo sinhazinha, vamo.
Quando Lorena, voltava de seu passeio vespertino pelo engenho, deparou-se com uma cena. Jacinto no tronco com as costas a sangrar, levava as ultimas chibatadas, castigo que o seu próprio senhor recomendou pessoalmente ao feitor.
O escravo que estava no castigo era um negro alto, com braços e pernas fortes. Tinha dentes perfeitos e brancos. Era o escravo que fazia mais sucessos entre todas as negras das redondezas. Também povoava os pensamentos de muitas senhoras que o viam. Como seu senhor gostava de gabar-se, tratava de uma de suas peças rara já naqueles tempos, difícil de se adquirir, portanto, cara. Fora criado dentro da casa grande, devido sua mãe ter sido a mucama predileta da senhora. Pois quando mais precisou foi Inázinha quem a salvou.
A jovem esposa, com a saia longa segura pelas mãos, corre por todo o pátio, sobe as escadas da casa grande e chega a sala, em um só fôlego. Onde encontra o seu marido:
- O que tu queres mulher, passas mal?
- Senhor meu marido sei que não gosta de que eu me intrometa em seus assuntos...
- Se tu sabes, para quê estas a tentar?
- Pois sim, quando vinha chegando a casa, vi Jacinto sagrar ao tronco. Como pode fazer uma coisa dessas?
- Cala-te para tua saúde. A casa é minha, o engenho é meu, o negro idem. Se esta lá é porque quero. Não admito mais nenhuma palavra sua sobre a questão.
- Mas o senhor meu marido, já me disse que foram amigos de infância...
- Cala-te mulher infame, já estou sem paciência com a tua audácia. Pois sim, eu ser amigo de infância desse macaco. Apenas ele e a mãe dele foram adquiridos por meu pai na época em que nasci. Sua mãe, essa imbecil que aqui mantenho por caridade, foi minha ama de leite. – Dizendo isso, passou as mãos com força em seus lábios. - Isso só aconteceu pela incompetência de minha mãe, de não ter leite para mim. Se ele vivia aqui pela casa grande, foi mais uma das sandices de minha mãe. Hoje, quando procurei o meu chicotinho de cabo de perna de bode. Não achei, deve ter sido ele...
- O senhor meu marido, viu ele pegar...
- Cala-te audaciosa como ousa me interromper.
Lorena tenta levantar-se do chão apoiada no marquezão de jacarandá, refazendo-se da bofetada:
- O senhor meu marido, não passa de um monstro covarde.
- Me chamas de monstro e defendes um negro. Bom, muito bom. Inázinha, Inázinha, onde esta essa maldita negra, nunca atende quando é chamada.
- Sinhozinho, tava na cozinha, fazendo um tacho de doce de goiaba.
- Eu lá quero saber o que tu fazes negra. Chamas aqui já o Florentino.
- Que falar com o capataz? O sinhozinho vai tirar o Jacinto do castigo, vai? Ele é um nego bom. Trabalhador, a casa precisa dele...
- Chamas Florentino agora sua idiota. O que eu fiz hoje ao meu bom Deus? O céu está a cair em minha cabeça.
Já sentada com um olho roxo, a esposa observava o marido. Não se deixara abater, de uma maneira altiva esperava a resolução do marido. Entra o capataz, sempre muito serio e de poucas palavras, com o rosto pesado pelo oficio. Com seu chapéu amassado e bem seguro com as duas mãos:
- Diga Seu Inácio.
- Leve daqui, essa mulher insignificante, e tu a deixas três dias na senzala. Lá ela aprenderá a diferença entre eu, um senhor branco e um negro, um desses macacos qualquer.
- Vamo Inázinha, nega safada, o que tu andou aprontando?
- Ela não, seu burro, Lorena.
- Senhor?!
- Não quero ouvir nada de tua parte, se não fizeres o que te mando, vai tu para o tronco e contrato outro capataz.
- Não! Não! Senhora me acompanhe.
Os três dias se passaram. A mulher voltou a sua casa, e desde então passou a viver resignada. Ocupava-se sempre dos afazeres do lar. Sempre de cabeça baixa, só falava com o marido para respondê-lo, ou servi-lo em alguma necessidade sua quando era solicitada. Todas as noite na alcova, muda e inerte, cumpria suas obrigações de esposa servil. Apenas poucas lagrimas naquelas horas percorriam o caminho pelo seu rosto ate chegarem ao seu destino, o macio travesseiro.

***

O velho Cipriano, só naquela sala imensa, esperava o filho que lhe convocara por carta. Com o pretexto de uma boa nova. Depois de terminar sua distração em observar a centenária cristaleira, e contar todos os cristais da Boemia, como era seu costume. Estava a observar o quadro do avô. Já em idade avançada, Manoel de Areias tinha o peito estufado dentro do seu gibão, calçava botas de couro até os joelhos e sob o pé direito a cabeça de uma cobra que havia esmagado. Foi aí que tudo começou. Pensava com orgulho. O silencio da sala é quebrado com a chegada do filho com passos firmes sobre o chão de tabua:
- Salve meu pai!
- Como vais tu, filho meu?
- Tive pequenos prejuízos mais nada que nos possa abalar.
- Onde está tua mulher, que ainda não me veio cumprimentar.
- Deve estar em seus afazeres, acredito que não tardará em vir lhe prestar respeito. Não há mais motivos para ter desgostos com ela. Já há algum tempo fui castigar o negro jacinto, por uma dúvida que me ocorreu. Pois não é que a audaciosa da Lorena foi se meter. Proporcionei-lhe um corretivo que ela nunca mais esquecerá. Acho que agora lhe dei conserto.
- Acho bom, estou velho Leopoldo, já sinto que não hei de durar muito. Não agüento mais vim da fazenda para cá no lombo de um cavalo. E tu bens sabes que avental é a roupa feminina por excelência, é o uniforme da mulher.
- Eu bem sei dessa verdade, meu pai. Ela tem que ter ciência da sorte grande que a vida lhe presenteou. Afinal esta casada com um Muralha de Areias. O que mais poderia querer ela para seu destino.
- Tu estás certo, não deve ser modesto. A modéstia é cousa dos medíocres.
- O senhor me parece mesmo um pouco abatido.Porque o senhor não veio de carro?
- Até vinha. Tua mãe inventou de vim também pra te rever. Mais logo cortei esse engenho dela. Pois não queria uma mulher a matracar no meu pé do ouvido por todo o caminho. Não falam cousa com cousa. Mesmo assim estava aperreado, um negro nojento me fez perder uma vaca.
- Nem me fale perdi dois escravos, fortes e caros.
- Como foi isso?
- Para me fazerem um mandado de imediato, foram cortar caminho e tentaram atravessar o rio de maré cheia. Lá se foram os dois. Aquela planície não podia se chamar de outro nome, a não ser mesmo de o lugar dos Afogados. Ali morrem muito escravos e até homens e também mulheres.
- Onde tu estavas?
- Acabei de descer de Olinda. Estava negociando no Mercado da Ribeira. Chegaram uns negros que não valiam a pena adquiri-los, mais vendi alguns que queria. Tive lucro certo. Minhas peças que lá estavam, se destacaram.
- Bom, muito bom.
- Tinha no mercado uns abolicionistas a reclamarem que os calabouços estavam demais sujos. Veja só, se negros são como cavalos, que necessitam de estábulos asseados.
- Onde vamos parar? E fique sabendo meu filho, que tem rapaz de boa família metido nisso.
- São devaneios da juventude. Que logo passarão quando sentirem o peso das moedas no bolso. O negocio negreiro e lucro certo. Jamais acabará. Não haverá em toda essa terra dita Brasil, um homem insano para acabar com a escravidão. Quanto a esses idealistas aqui, de meia pataca, deveriam ser pendurados na forca que tem lá no mercado da Ribeira.
- Sim, e qual é a boa nova que me trouxe até aqui?
- Vamos ao gabinete, lá conversaremos melhor. Inázinha, Inázinha. Onde está essa negra safada que não responde.
- Aqui, meu sinhozinho.
- Leve café e bolo Souza Leão, para mim e meu pai, no gabinete. E diga a Senhora Lorena que se apresente ao meu pai. Estamos a esperar o seu respeito.
- Já vou sinhozinho, já vou, agorinha memo.
- Insuportável essa negra. Qualquer dia desses ela vai para o tronco.
- Não faça isso não, filho. Ela não agüenta. Será prejuízo certo.
No gabinete todos os livros necessários ao intelecto humano. Que logo foram proibidos a esposa, na sua chegada á propriedade. Era um cômodo arejado e confortável, contava duas janelas para o nascente. O filho fez menção para que o pai sentasse na grande cadeira por trás da enorme mesa de cerejeira. O convidado recusou e fez questão de que Leopoldo sentasse, em uma das duas cadeiras de vime que ficava a frente da tal mesa sentou-se.
- Lorena está prenha.
- O que me dizes? Que noticia mais estupenda.
- Sabia que reagiria dessa maneira. E seria logo eu que não levaria o nome dos Muralha de Areias a frente.
- Nunca tive duvidas. Você saiu a mim filho.
- E toda aquela historia dessa negra desgraçada, de que eu não faria mais menino depois daquele acidente de cavalo na minha infância. Tudo balela...
- Não fales mais nisso, é tempo de alegria e celebração.
- Falo sim, meu pai. Pois tudo foi culpa daquele negro estúpido. O tal de Jacinto sempre me perseguia e insistia muito em estar presente em meus brinquedos de menino. Ele pulou primeiro a cerca, quando deveria me dá a vez, pois eu era o seu senhor. O meu cavalo se assustou com o dele e eu cai.
- Tu bem sabes que nunca foste um bom cavalheiro. Mas tudo foi resolvido o pai dele morreu no tronco para pagar pela insolência do filho. Se tens tanta raiva dele, porque não o vendeu, colocarás um bom dinheiro no bolso.
- Não, quero ele por perto para amarga-se com o nascimento de meu filho.
- Esses macacos meu filho, não raciocinam. Não perca seu tempo nem tão pouco os seus pensamentos com causa de mais inútil.

***

Chovia já a três dias. O temporal se firmara. As galinhas não saiam dos poleiros por toda a manhã, tão grande era a escuridão que a chuva trazia. A tarde chegou, mas o céu não deu trégua. O capataz envolto em uma capa velha, quer conselhos:
- O que queres aqui estafermo? Estás a molhar toda a minha sala, mais parece um pinto molhado.
- É à água, senhor. O açude está sangrando, e o rio sobe a toda hora. É cheia da grande.
- O que queres que eu faça. Meu filho está a nascer e tu me vens com historias de água. Para que te pago? Terei eu de ir molhar-me na chuva para satisfazê-lo? Não tenho cabeça para nada hoje.
Zefa passa aflita pela sala, com uma mão na cabeça, e com a outra carregando mais uma chaleira de água fervente. Ao soar de mais um trovão, assustada tropeça deixando cair toda água que carregava aos pés de seu senhor.
- Ai, Virge santa. Perdoa eu sinhozinho.
- Some de minhas vistas, estrupício mor. E quanto a ti, sobes o gado para um lugar alto...
- Já fiz isso senho.
- Não me interrompas quando te falar. Vai pro teu oficio e me deixas em paz.
Com passos firmes Inácio atravessa todo o largo corredor que parece não ter fim. Com um chute abre a porta do quarto.
- Sinhozinho, sai daqui, aqui não é lugar de homi nessa hora.
- Cale-se negra estúpida, vou ver meu filho nascer.
- Água Zefa, água Zefa...
- Já vai Inázinha. Ai minha virge.
- Força fia. Vai força... Vai...
- Ai virge santa tá chegando sinhazinha, ta chegando...
- O quê? Não... Um negro, não. Vadia. Não... Vadia.. Vadia...

***

Jacinta era a negra mais bela, que a cidade do Recife já conhecera até então. De feições refinadas, já contava em sua existência dezesseis primaveras. Quando passeava pelo engenho sua beleza fazia par com a das rosas do campo. Costurava, bordava e pintava. Sabia ler e fazer contas. Tinha ainda muito bom gosto em decoração. Uma casa decorada por ela, não ficava a dever a nenhuma outra casa, nem mesmo as da corte. Ela em seus passeios gostava de sentir a brisa da tarde, carregada com o cheiro de manjericão.
A moça era dona de uma educação requintada, dada por sua mãe. Viúva de grandes posses, senhora de engenho. Possuidora de grande riqueza, herdada do marido que morrera afogado no dia do nascimento de sua filha.


Cassio Cavalcante, domingo, 04 de junho de 2006
3c1m@uol.com.br

Na Janela de Um Coração

Cássio Cavalcante
O carro surge na estrada. Olhando pela janela da casinha branca, Ruth vê o veiculo. Ficando a pensar: Que segredos levará aquele carro?
Os cabelos negros como a asa da graúna, serviam de moldura para o rosto de pele tão branca. Os olhos faziam conjunto com seus cabelos. A boca era de um vermelho desbotado. Suas mãos longas terminavam em unhas pequenas.
- Mãe, tô com fome...
- Tem pão em cima da mesa e café na garrafa.
- Quero bolo...
- Não tem bolo. Coma o que tem e me deixe em paz. Estou olhando a vida passar.
A estrada estava escura com o cair da noite. As arvores em volta da casa, que eram muitas, se encontravam imóveis sob o céu negro sem lua.

Tarde de maio na oficina, dia 29/2006.
3c1m@uol.com.br

Dezembros

Cássio Cavalcante
Oi pessoal, a minha história que quero contar a vocês começa aqui. Já há algum tempo, de dezembro a dezembro, que só penso numa mulher. Até aí tudo bem, né? Estou com dezessete anos, com todos os meus hormônios em forma. Mas tem um, porém. Essa mulher é uma cantora. É, também concordo que não tem nada de mais, se ela não fosse famosa, e vivesse no eixo Rio, São Paulo e eu aqui no bairro da Boa Vista, nas terras que um dia foram bem colonizadas por Mauricio de Nassau. Todas as noites fico a masturbar-me, inspirado em fantasias com ela. Sempre deitada entre flores, e eu lhe dando prazer, e ela, lânguida em sua essência revira os olhinhos de gozo e paixão pela minha pessoa. Nunca fui chegado nesse negocio de ser fã, mais sua arte fez a minha cabeça. A musica dela me fez bem, comecei a ouvir, daí foi um pulo pra essas fantasias nada sacanas, mais sim muito românticas povoarem a minha cabeça. Ela canta esse Pop Rock nacional, e tem bom gosto. Além de compor, recria sucessos alheios, e tomo posse. Como foi o caso de Camila Camila, do grupo Nenhum de Nós, acho que do final dos anos oitenta.
Minha ultima transa foi com uma amiga do cursinho, as vezes a gente fica, menina tudo de bom. Pois não é que na hora me peguei pensando na Jade, esse é o nome da pop star, e no tal tapete de rosas. Se a Alicinha imaginasse, acho que me daria o maior esculacho e ia embora.
É agora que o melhor dessa historia começa, ela veio fazer um show aqui no Recife. E eu fui, claro. Estava sozinho, tinha a impressão que ela cantava olhando para mim, o bar estava lotado, era meio surreal, ela estar cantando a poucos metros de mim. Cantou seus sucessos, sempre muito bem aplaudida. Seus olhos grandes e melancólicos de um preto sem igual, davam um contraste harmonioso a sua pele muito branca, tudo isso emoldurado por cabelos na altura dos ombros, também pretos, sob uma luz bem feita, pareciam azulados. O nariz era pequeno e delicado que lhe caia muito bem, a boca no tamanho certo, me pareceu um tanto carnuda, pintada com um leve batom, assumia um certo ar provocante quando depois de terminar uma música, a mordia levemente com seus dentes de um branco sem igual. O jeans que usava, era do tipo segunda pele. Justo começava muito depois de seu umbigo. Usava uma micro blusa de mangas compridas, que terminavam em suas mãos muito brancas de dedos longos, Lindas! A cor das unhas não deu pra ver, mais notava-se que era alguma cor escura. Não deu para ver os sapados quais eram, só que tinha os bicos muito finos. Estava perfeita! Naquele momento, sentada em um banco, abraçada a seu violão cantando uma musica que recriara e transformara em uma balada romântica, como só ela sabe fazer. Estava na plenitude de seus 28 anos.
Como todos sabemos que alegria de pobre dura pouco. O show chegou ao fim. Tivemos direito ainda a dois BIS, então acabou...
A minha preocupada mãe não falhou e mais uma vez me patrocinou um dinheirinho com direito ao táxi da volta. Meu espírito aventureiro e a necessidade de alguma verba para o pagode daquele domingo que começava a chegar resolvi esperar um ônibus. Tava só na parada, um fox prata parou. O vidro desceu, uma mão me chamou, seguida da pergunta feita por uma voz rouca e sensual:
- Carona?
Vamos lá. Quem acha que era ela, ou que não acha, façam suas apostas. Acertou quem acreditou que também sou filho de Deus, errou que apostou as fichas imaginando que eu estava fantasiando legal. Recomeço a nossa conversa já dentro do carro. Como já sabemos o carro não é muito grande o ar estava acredito que na potencia máxima, isso somada ao meu nevorsismo me dava uns calafrios na barriga, ela notando e se divertindo com isso engrenou uma conversa:
- Notei que gostou do show.
- Foi?!
Ela mordeu suavemente novamente os lábios e disse:
- Foi sim. Sempre quando canto, principalmente em uma cidade que nunca estive, procuro um na platéia pra ser o meu porto seguro, hoje foi você. – Terminou de falar com um sorriso, ao meu ver sacana. Em seguida jogou os sedosos cabelos para traz, exalando um cheiro de um perfume forte e doce.
- Foi?!
- Mas você não vai ficar monossílabo a noite toda, vai?
- Não...
- Vamos as vias de fato. Onde tem um motelzinho gostozinho pra gente se conhecer melhor. – disse isso sorrindo como o meu estado de total esgotamento nervoso a divertisse cada vez mais. – Então, Vamos?
- Vamos?!
Ela parou o carro de repente, não parecia com raiva, mais talvez um pouco decepcionada e decidida:
- Vamos ou não vamos?
- Claro que vamos. No próximo sinal você entre a esquerda. Aqui perto tem uns lugares legais pra gente ficar.
Ela pareceu que tinha ganhado algum jogo, um certo ar vitorioso, o seu sorriso a denunciava. Chegamos e como em um passe de mágica não estava mais nem com frio nem tão pouco nervoso, estava afinzão. Afinal a sorte não bate em nossa porta duas vezes, né?
Ela foi no banheiro, e voltou com uma toalha cobrindo o seu corpo, deitou na cama de uma maneira despojada, a deixando iressistível. Brincava com o painel ligando e desligando as muitas luzes, criando uma seqüência psicodélica. Eu a observava e a venerava enquanto tirava a roupa. Fui para a cama só de cueca, quando o meu joelho tocou o colchão macio forrada com o lençol de cetim, veio, só lembrei do tapete de flores em que eu a possuía em minhas fantasias. Deitei em cima dela e a comecei a beijar. Estava tudo dez. Até ela de repente me empurrar, e de uma maneira feroz arrancar a minha cueca. Tive que me concentrar pra manter a guarda. Não espera, fiquei um pouco confuso. Ela não me chupava, me sugava. Tinha que manter a concentração, se não conseguiria usufruir tão grande raro prazer que me chegava. Tentava a todo custo não explodir todo o meu prazer, e terminar aquilo precocemente. Ela parou sem me olhar, sentou-se em mim, ia e voltava me arrancando gemidos bestiais. Sem saber o que fazer coloquei as mãos em seus seios. Ela rapidamente, tirou prendendo meus braços a cama com as suas mãos. Com uma força que nunca imaginei que tivesse. Não agüentando mais a inundei com todo o meu prazer. Ela revirando os olhos chegou a me assustar.
Quando se consumou tudo, ela deitada ao meu lado fumava, aspirava a fumaça para cima e a observava, nos seus olhos um brilho de prazer que talvez nunca mais eu note outra vez em alguém. Não dizia nada só observava a fumaça. Até que me olhou, se sentindo bem a dona da situação me disse baixinho, entre uma tragada e outra:
- É meu caro, bem vindo ao meu mundo...
Ainda tivemos mais uma vez naquele quarto de motel, mas sempre ela no comando, eu que não sou babaca, não ousei contestá-la. Não posso dizer que não gostei. Mas esperava algo diferente. A grande decepção ainda estava por vim. Quando já nos preparávamos para ir embora ela de pé via alguma coisa dentro de sua bolsa. Então peidou. Chocados? Também fiquei. Um longo e sonoro peido foi o que fechou aquela noite para mim.
No carro, ambos estavam mudos, o que era quebrado somente quando eu a ensinava como chegar onde morava. Estávamos parados em frente ao meu prédio ela com um sorriso sem graça me disse:
- Foi bom, a gente se vê qualquer dia.
- É quem sabe, a gente se vê mesmo.
Já no meu quarto, sem ter idéia e nem querendo saber onde ela estava, me perdia em meus pensamentos:
- Hum! E eu que de dezembro a dezembro, como dizia o meu vô, pensava nela... Nunca imaginei que seria assim. Eu contando ninguém acreditaria... Que saudade do meu avô. Tenho que dormir logo, o café até que dona Irene, minha mãe, despensa. Mais no almoço, se eu estiver em casa, tenho que estar na mesa. Tem nada não. Ela merece é gente fina. Eu e minha vida.

as 21:23 horas da noite de 21 de abril de 2006.

Chamou Eu Venho

Cássio Cavalcante
Não adiante chorar, me chamou eu venho. Agora é tarde para se arrepender.Tinha que ter pensado antes nas conseqüências de seu ato. Calma, veneno no refresco faz logo efeito. Ainda tenho muitos para atender hoje.


24 de março (sábado), Fliporto 2006
3c1m@uol.com.br

Cilada do Destino

Cássio Cavalcante
Augusto era bem nascido, bem relacionado e estava bem financeiramente. Depois do trabalho nunca ia para casa. Sempre passava no clube, ou em algum bar da moda. Entre amigos, gostava muito de fazer discursos:
- Pra mim, esses tais de cheira cola tinham era de morrer. Fazia-se um grande buraco, colocava todos dentro e queimava-os com óleo diesel. São incorrigíveis. Um verdadeiro câncer social.
- Para com isso, eu heim!
- Para com isso o que? Vou te dizer uma verdade Leonardo, manter essas coisas e criar cobra pra nos matar. São os futuros ladrões que vão entrar nas nossas casas e nos saquear. Se já não entraram.
- Muitos tem a idade do teu filho.
- Você tá louco? Comparar meu filhão com essa sub-raça. Já me basta à orientadora do colégio que eu pago uma fortuna, me disse que meu filho estava se tornando um problema. Só porque o garoto brigou, deu uns morros no colega que tava mexendo com ele. Foi descoberto matando aula. Quem nunca fez isso? Eu mesmo fiz muito, e hoje não sou nenhuma ameaça para a sociedade. Até maconha eu fumei, coisa de adolescente, depois passa.
- Você é quem sabe...
- Se eu pegar um sacana desses cheira cola na minha frente meto bala, e não nem olho pra trás.
- Teu filho já andou com esse negócio de droga?
- Sim, mas já passou. Coisa da idade mesmo, já passou.
- Deixa eu ir, minha sogra vai jantar hoje lá em casa, se eu me atrasar a mulher me mata.
- Já vou também. Da um beijinho na sogrinha.
- Daquela eu quero é distância, só aturo por que gosto muito da Silvia...
Era uma noite quente, típica noite recifense. Dentro do carro, o clima era bem mais ameno. Augusto escutava um cd de jazz. O congestionamento era menor devido ao horário, os carros ainda passavam lentos pela avenida mal iluminada. O sinal fecha e todos param impacientemente. Ele escuta um barulho. Assusta-se ao ver um vulto bater no vidro da janela do carro pedindo sua carteira. Faz um sinal que vai pegar. Baixa o vidro e da três tiros a queima roupa. O elemento cai em seguida a se debater. Em pouco tempo não passa de mais um corpo em uma avenida de uma grande cidade. A confusão se forma, todos saem dos carros. Uma senhora chora com a mão na boca. Um homem gordo, muito suado começa a gritar:
- Muito bem. Esses merdas têm que morrer mesmo.
Augusto olha a arma que ainda fumaça, guarda debaixo do banco, e sai. Os olhares que o cercam são os mais diversos. Ele vê o corpo de bruços:
- Todos devem fazer assim como eu. Ainda queriam me tirar o meu direito de cidadão de me defender. Menos um para colocar nossas famílias em perigo.
Chuta a arma do elemento para longe, vira o corpo. Olha com desdém, logo volta o olhar dessa vez mais atencioso. Seu semblante vai se transtornando, A curiosidade e admiração é comum a todos que o observam.
Uma voz na multidão pergunta:
- O que foi tá arrependido?
- ...
- Amarelô, foi?
- ...
- Tá com remorso?
- Meu deus! Meu Deus! Meu Deus...
- O que foi homem?
- Matei meu filho. Matei meu filho. Meu Deus. Matei meu filho...




09 de novembro de 2005
3c1m@uol.com.br

A Gente Se Vê

Cássio Cavalcante
Sempre detestei esses negócios de velório, enterro e missa de sétimo dia. Não sei por que estou aqui. Acho que deve ter sido a insistência de algum amigo para não vim só. Sei que não estarei presente quando esses eventos se derem por minha causa. Nos dois primeiros estarei apenas com o corpo e no ultimo, na lembrança de alguns já que nem todos os presentes estão sendo sinceros.
Detesto este cheiro de parafina e o aroma adocicado das flores, acho que não vou agüentar ficar aqui por muito tempo. Sei que o normal é não gostar de estar nesses acontecimentos, mas eu tenho uma verdadeira fobia. Não tenho coragem de ir vê o pobre coitado.
Sou o tipo de cara que se pode dizer que está de bem com a vida. Tenho vinte e nove anos. Namoro Lorena, uma mulher linda, inteligente e decidida. Mas só caso quando fizer trinta anos. Quero aproveitar minha situação de solteiro até o ultimo minuto. Sou um jovem advogado, mesma profissão de meu pai. Como ficou feliz quando lhe disse que tinha escolhido ser advogado como ele. Tenho um irmão mais velho, o Paulo, que foi fazer doutorado em historia na Europa e ficou por lá, vem aqui quando a saudade aperta. Minha irmã mais nova, Claudia, é casada com um sujeito que só pensa em dinheiro. E olha que já tem muito, acho que ele vai acabar corno, que é para aprender a viver. Minha mãe, Dona Aída, esta sim é uma maravilha de pessoa. Do tempo que ser dona de casa era a mais sublime das missões. Sempre acho que estou magro e faz as comidas que mais gosto. Muitos amigos perguntam por que não moro só. Não vejo necessidade, tenho tudo de que preciso. Quanto a minha liberdade, esta é total. Não me perguntam a que horas cheguei ou vou chegar. Também nunca dei motivos para ser o contrario. Como se diz, sempre fui um bom moço.
Caramba! Quanta gente. Acho que o cidadão era querido. Está um entra e sai que nunca vi igual. Hoje um dos sócios do escritório ficou estressado com a demora de um empregado. Quando ele chegou levou a maior bronca, foi humilhado mesmo. Para que tudo isso? Depois o meu sócio tem um infarto. De que adiantou? Outra vez foi no super mercado uma senhora destratou a menina que estava no caixa, só não a chamou de santa. A moça nada fez. Depois quando essa mesma senhora que a desrespeitou for assaltada por um desempregado vai se achar a mais injustiçada das criaturas. Não é que eu queira ser o bonzinho, mas tem muita coisa errada neste mundo. A grande pergunta é: Onde tudo isso vai parar?
Uma coisa que aprendi com minha pouca experiência em que ganhei com a existência, foi que se deve fugir dos excessos. Essas carolas que vivem dentro da igreja são as que mais pecam. Os que mais cobram são os que mais erram e por ai vai.
Do que terá sido a causa da morte do cidadão? Estou me sentindo tão mal neste clima funesto que não estou nem mesmo reconhecendo ninguém por aqui. Acho que vou perguntar para este sujeito que vem aí de terno preto. Terno preto aqui no Recife é o fim:
- É lamentável o que aconteceu a ele, o senhor sabe o que foi? De que ele morreu?
-
Acho que este deve ser um parente próximo, ou um amigo. Deve estar desolado, ele nem me respondeu. Sabe de uma coisa? Já estou saindo. Não vejo ninguém conhecido mesmo, sendo assim, fica ate mais fácil eu me mandar.

***

Sempre no final do dia eu passo aqui nesta locadora para locar um filme. Essas televisões a cabo não estão com nada. Pelo menos a minha é assim, não sei as outras. No final do expediente uma geladinha com uns amigos, colocar a conversar em dia. Nesses tempos de CPI temos muitas opiniões para falar e ouvir. Antes de ir pra casa é bom passar na namorada, para dar aquele beijo e dependendo das conveniências ate alguma coisa a mais. Ai chegamos no final da jornada diária, depois de um banho, deitado vendo um bom filme. Pode acreditar não tem coisa melhor:
- Ouvi dizer que este filme A Lenda do Tesouro Perdido é uma aventura de tirar o fôlego. Esse Nicolas Cage só faz filme bom.
-
Eu heim! Que mal educado, não custava nada responder o meu comentário. Ele tem cara daqueles que só vê filme erótico.
Sempre gostei de cinema. Mas nunca tive coragem de me aventurar no campo das artes. Pois se a consagração não acontecer, o que em mil um consegue, geralmente se vive muito mal. Neste mundo, não só no Brasil, é muito difícil ser artista. Seja qual for à área. Aqui devido a nossa cultura ainda é muito mais, mas não é só aqui, pode acreditar.Uma vez ainda tentei com o meu velho:
- Pai o que você acha se eu fizer cinema?
- Com o meu dinheiro você faz qualquer coisa a sua escolha. Desde que seja uma profissão de verdade. Mais tarde com o seu, você faz o que quiser.
A minha vocação não era tão grande a ponto de me fazer continuar a conversa. Ele tinha mesmo razão, não me arrependo de ter me tornado um advogado, gosto de ser. Não vou locar nada, não vejo graça em nenhum filme. Hoje vou pular todas as etapas e ficar na ultima, depois de um bom banho cair na cama. Estou meio chateado, deve ser por causa do programa forçado que fiz hoje.

***

A casa está silenciosa! É tão cedo, geralmente minha mãe gosta de assistir a novela aqui na sala. Meu pai sempre a acompanha, mas não vê a novela, fica lendo o jornal. Assim mesmo ela não dispensa a sua companhia. Mais tarde passo lá no quarto deles, não há de ser nada grave. Às vezes eles ficam no quarto, não é sempre, vendo televisão.
A minha cama não está feita! Isso nunca acontece. Não estou vendo os meus cd´s, nem o porta retrato com minha foto e de Lorena... Aqui no banheiro não tem toalhas, assim também já é demais. Olha, vou ter que ver o que esta acontecendo. A gente se vê...




15 de agosto de 2005
cassiocavalcante21@uol.com.br

Pérolas Esparsas

Cássio Cavalcante
Segundo domingo de maio de 2005

Era o dia das mães. O dia que Laura gostava mais, gostava mais ate do que do dia de seu aniversario. Se existia uma coisa que ela gostava era de ser mãe, ser dona de casa. Para ela essas funções era mais importante do que a sua própria vida. O seu eu não a importava muito, mas casa, o bom andamento do lar, isso sim era de importância maior. Estava no closet, arruma gavetas seu passa tempo predileto, mas não era muito simpática com aquele cômodo. Lembrava com saudades mesmo era de seu guarda-roupa de quatro portas. E que portas, senhoras portas. Tinha saudades de tudo que lhe lembrava a sua casa no bairro da Torre. Além de seu guarda-roupa, a casa tinha o quintal, e que quintal, as vezes ficava morta de cansada por ter que varrê-lo, mas o cansaço era prazeroso. Se tinha coisa que ela gostava era segurar o cabo de um vassoura com firmeza e varrer, mas varrer bem varrido. No apartamento, não se tinha muito o que fazer. Toda a família mudou-se para Boa Viagem, a casa foi assaltada duas vezes, não se podia mesmo continuar a morar ali. Mas mesmo dando a sua opinião de que não deveriam sair de lá, tinha certeza, nada adiantaria. Olhava em sua volta e via as nove portas do armário. Duas das portas eram dela e sete para Aderbal, o marido. Ele como bom advogado que era tinha que se vestir bem, como mandava o figurino. Tinha verdadeiras coleções de ternos, gravatas e tudo mais que necessitava para compor a sua elegância. Mas não se vestia bem só profissionalmente, tinha verdadeira mania por camisas pólo, bermudas. O Homem era chegado em roupas, gostava de se vestir bem em todas as situações que a vida lhe solicitava. Toda esta vestimenta era cuidada por ela, nunca ele chegou a querer usar uma roupa que esta estivesse faltando um botão ou coisa parecida, sempre encontrava tudo em ordem. Se acontecesse dele encontrar algo errado em suas roupas, com certeza seria pior para ela do que para ele. Ela teria falhado, e isso não admitiria de se mesma. Uma verdadeira dona de casa nunca falhava em suas funções. O que fazia parte deste cuidado eram as naftalinas, mesmo sobre os protesto de deboches do marido. Conhecera este artifício com a mãe, quando criança gostava muito de observá-la. E foi nessas observações que fazia de sua mãe que aprendeu muito do que sabia hoje. Mas nunca esquecia das palavras de sua genitora, quando uma vez sua mãe lhe flagrou cheirando as bolinhas brancas: “cuidado meu anjo, isso é veneno meu doce, você pode morrer e mamãe choraria muito.” Desde então passara a ter verdadeira obsessão por naftalinas. Enfim, suspirava enquanto pensava em sua vida. Mas tinha uma certeza. Toda aquela submissão não era resignação, mais sim revoltante.
Chegou a hora de se vestir, não teria que pensar muito, ia vestir o vestido bege de gola marrom. Era mesmo o seu predileto entre os poucos que possuía. Não ia tomar banho, nunca fora chegada a esta atividade, o uso de sua boa água de colônia, faria melhor efeito que um banho. Era o único luxo que possuía na vida, o gosto pelas aguas de colônias, tinha muitas de todos os tamanhos e marcas, era o único mimo que o marido a fazia. Nisto era um marido perfeito, nunca chegava de uma de suas viagens à trabalho, para não lhe trazer no mínimo dois vidros. Depois de vestida com a roupa que escolhera passou novamente água de colônia, mesmo já tendo feito isso antes de se vestir. Passou na cozinha para fazer uma ultima inspeção no almoço. Sabia e gostava muito de cozinhar. Não admitia uma dona de casa só fazer o trivial, tinha que ser boa em todos os quitutes. Uma mulher não saber cozinhar, nem pensar, era um crime, uma aberração. Era muito disciplinada em todo que fazia, quando fazia o almoço só abria a geladeira uma única vez, tirava tudo o que iria precisar. Uma geladeira aberta desnecessariamente em uma cozinha era um pecado, gastava muita luz. Depois de tudo certificado para o almoço especial daquele domingo, sentou-se na sala para esperar os filhos.
Logo chegaram Sérgio e Jorge, ambos beijaram a cabeça da mãe, Jorge perguntou:
- Onde está o velho?
- Não chame seu pai assim. Sei que está brincando mais ele já lhe disse que não gosta, e não quero saber de brigas no dia de hoje. Ele foi andar um pouco no calçadão. Aderbal ainda trabalha e tem que se exercitar, para manter a linha, já que não é mais uma criança.
- Isso pode ter certeza, criança ele deixou de ser já faz um tempão. – Disse Jorge em tom de brincadeira.
- Pare de provocar Jorge, você sabe que ela não gosta que brinque assim com o pai, e muito menos ele. – Protestou o irmão. – E quando ele chegar não o provoque, se não fizer isso por ele, faça por ela.
- Não me venha você também com sermões, não me venha defendê-lo. Já esqueceu tudo o que ele nos fez passar? – Jorge disse isso abrindo a boca e se espreguiçando, perguntou a mãe, soltando um beijo para ela. – O que temos pra comer hoje?
- Muita coisa boa, mas só vou servi depois que seu pai chegar e tomar o banho dele. Espere, garanto que não vai se arrepender.
- Fazer o que? – Protestou o brincalhão.
Cristina a segunda irmã chega, e com ar cansado e nervoso pede a benção da mãe. Laura depois de abençoá-la pergunta pelo o genro. A filha irritada com a pergunta dispara:
- Não quis vim. Disse que não deixaria a mãe dele por nada no dia dela. Eu sim, que não deixaria a minha por nada neste mundo. Ele é que vai perde o seu cozido fabuloso, que só você sabe fazer. Duvido a dele fazer igual.
- Minha filha, abra o olho, você está errada. Siga o seu marido, onde ele for, eu entenderia. Vai acabar o perdendo.
- A senhora sabe que eu não agüento nada de homem. Está para nascer o homem que vai mandar em mim.
- Você está errada menina, não fale assim. E pelo amor de Deus quando seu pai chegar não fale nessas coisas, não quero briga no meu dia.
- Mas a gente está sentindo tanto maninha, a falta do Flávio, logo ele que é tão agradável. Brincou Jorge, mesmo na mira do olhar reprovativo do irmão.
- Por falar em ausência onde está Silvia? Perguntou o filho que ela mais gostava. Ela gostava muito de sua seriedade que ao contrario do outro não ficava brincando com tudo e com todos a toda hora. Ela respondeu cheia de gentilezas ao seu predileto:
- Ela não está meu filho, foi à casa de uma amiga terminar um trabalho da faculdade. Sua irmã termina este ano os estudos, e esses trabalhos são de muita importância. Mas quem sabe ela não termina a tempo e chega para o almoço?
- Ela tinha era que está aqui, e não ta fazendo trabalho nenhum. – Protestou a outra filha.
- Quem é esta amiga, que ela foi fazer o tal trabalho.
- Jorge não comesse com suas brincadeiras sem graça com sua irmã.
- Já sei, pela resposta da senhora, a amiga só pode ser aquela Paula. Aquilo é um Paulão isso sim. É uma sapatão não sei como a senhora e o velho deixa a Silvia ter amizade com aquela sapatão...
- Pare. Eu acabei de dizer que não quero saber dessas brincadeiras com sua irmã...
- Brincadeira? Eu não estou brincando...
- Você desde pequeno nunca ligou pra nada, sempre foi o que mais me magoou. Sérgio meu filho, mande este seu irmão desnaturado parar.
- Pare Jorge. Isso tudo não leva a nada, olha só como você deixou a nossa mãe. Nós dois temos que cuidar dela e não deixá-la nervosa.
Em meio a toda a discussão, a porta se abre e um silêncio repentino toma conta da sala. Foi Aderbal que chegou. Sem muita conversa disse:
- Estou suado vou tomar banho, depois falo com todos.
Ele não teve resposta todos calaram-se, mas mesmo que houvesse alguma, ele não escutaria, pois não parou enquanto falou, e em segundos já não estava mais na sala.
O almoço acontecia sem nenhum comentário, todos comiam em silêncio, era o costume naquela casa. O pai nunca permitiu muita conversa na mesa, ou melhor, era proibído se falar enquanto se comia alí. Mas aquele gelo e silêncio foram quebrados:
- Oh pai onde esta à Silvia?
- Deve ta fazendo coisa melhor que você, seu Jorge.
- Será? Eu estou almoçando com minha mãe no dia dela...
- Cale a boca, eu sei todos os filhos que tenho. Você sabe o homem que eu sou. Você nem se compara a minha caçula. Onde ela estiver sempre estará melhor do que você...
- Bem... Se melhor do que eu for deixar não almoçar com a mãe em um dia como este. Deixar de fazer isso para está fazendo trabalhozinho com uma sapa...
- Cale-se seu patife, eu sou seu pai e não admito esta falta de respeito na minha mesa...
Não terminou de dizer o que queria, uma crise de torce lhe atacou, fazia um barulho estranho não se sabia se estava tossindo ou mesmo engasgado. Caiu sobre a mesa e ficou inerte:
- Meu Deus! O que houve com o pai de vocês meninos? – Mas com todo o seu desespero ao gritar, as lágrimas nos seus olhos tinham um brilho diferente. Visto somente nos olhos de quem já sentiu ou esta prestes a sentir a liberdade em sua mais pura essência...

***
- Aderbal, você se atrasou um pouco.
- Eu?
- Sim, combinamos de ir ao teatro...
- Teatro?
- Sim, o balé...
- Eu não disse que ia pra balé, coisa nenhuma, dona Laura.
- Eu disse...
- Mas, eu não disse nada. Você falou, e eu fiquei calado. Balé...
- Eu queria tanto ir...
- Ir porra nenhuma, balé é coisa de viado.
- Queria tanto conhecer o teatro Santa Isabel por dentro. Dizem que é tão lindo.
- Olha, eu to cansado. Já não quero nem mais jantar, para não agüentar este seu lenga-lenga no meu ouvido. Eu já comi alguma coisa quando sai do escritório, me deixa em paz que vou dormir. Estou cansado, merda, passei o dia trabalhando.
- Eu queria tanto ir. Ah meu Deus...

***

- Mãe, você está bem?
- Sim Sérgio, estou bem. O que vamos fazer?
- Estou confuso o que me diz Jorge?
- Eu?
- Sim, você.
- Comemoro?
- Pelo amor de deus meu filho não é hora para isso.
- O homem era um déspota, mãe. Por que justo eu, o Jorge renegado, vou chorar?...

***
- Que porra é esta que sua mãe me contou que você comprou uma casa no Campo Grande.
- Pega leve pai, eu agora sou um proprietário.
- Proprietário porra nenhuma. Você está doido, compra uma casa em um lugar ruim daqueles.
- A casa é boa, você precisa conhecer, para poder falar.
- Eu quero conhecer porra nenhuma.
- Você é quem vai perder, em não conhecer o meu palácio.
- Sempre com brincadeiras, com deboches. Você é o meu filho mais odioso. Cresce, leve a vida a sério.
- Para mim, velho, crescer é estar longe de você cada vez mais, nem que para isso tenho que comprar uma casa onde quer que seja.
- Eu não te agüento mais, é o filho que mais me faz vergonha.
- É o seguinte, papai, o que não tem remédio, remediado está...

***
- Acorda Jorge.
- Calma Maninha. Que me ver morrer também do coração?
- Ele está morto? Talvez eu não tenha sido a filha que ele esperava que eu fosse.
- Você vai se culpar agora, Isabel? – Protestou Jorge.
- Mais eu desde menina nunca tentei gostar dele...

***

- Que história é esta que sua mãe me contou?
- Não se trata de historia papai, tenho dezoito anos e me parece normal e justo um namorado.
- Saiba de uma coisa dona Isabel. Na minha casa mando eu. Não é por que a senhora está com essa idade que vai fazer o que quer. Me deve obediência sim, e não me enfrente.
- Mas papai...
- Mas papai nada, não quero homem aqui dentro da minha casa lhe beijando e fazendo mais não sei o que.
- Não sou nenhuma desmiolada, e o senhor sabe disso. Estamos em 1976.
- Não interessa o ano em que estamos, assunto acabado.

***

- Minha filha você não me diz nada? E você Sérgio, socorra sua mãe.
- Mais logo eu mãe. Eu não sou seu único filho. Sempre cobrou tudo de mim. E o Jorge sempre na vida boa. Eu estou confuso, não sei o que fazer...

***

- Sua mãe já me contou.
- Pai estou numa pior.
- O que? Você é corno Sérgio, e me diz que esta numa pior?
- Você quer que eu diga o que?
- Foi corno porque mereceu, casou com a mulher errada. E também não deve ter sido o homem que ela esperava. Tanto é, que ela foi procurar outro.
- Por que o senhor e tão cruel?
- Cruel é um cacete. Eu sou é homem. Sua mãe nunca me corneou. Por que eu sou macho e ela me respeita. Você está chorando?
- Não.
- Este seu choro só atesta o que você é, um fraco, o queridinho da mamãe. Agora vai, resolver a tua vida. Seja o macho que seu pai sempre foi.

***

A sala que foi arrumada com capricho, tantas vezes inspecionada. Parecia triste, e não em um dia de festa. Por mais que a luz nela penetrasse, algo sombrio estacionou ali, naquele ambiente. Uns olhavam para os outros, mas ninguém foi capaz de uma atitude. Não sabiam o que fazer, como agirem. O macabro silêncio foi quebrado, voltou o barulho de torce forte, e o mesmo som de alguém se engasgando. Aderbal com os olhos vermelhos, tornou de seu desmaio profundo. Todos ficaram ainda mais atordoados, embaraçados, envergonhados. O dia foi longo e cansativo, os que ali não moravam mais, retornaram ás suas casas, as suas vidas.
No quarto já totalmente recuperado, ainda pigarreava e torcia um pouco, mas já estava firme e forte. Mal humorado, comentou:
- Não sei o que houve comigo, mais que torce brava. Oh Laura vai até a cozinha e me traz um copo com água. Estou com á garganta seca.
- Só água mesmo? Não quer um leitinho morno?
- Eu lhe pedi água. Não falei hora nenhuma em porra de leite. Será possível, Laura.
- Certo, já estou indo...
- Vê se não demora muito, já disse que estou com a garganta seca.

Passado algum tempo:

Na cozinha a porta da geladeira estava aberta, não, para melhor contar, a porta estava escancarada. No chão, espalhadas por todos os lados bolinhas brancas de naftalina. Como pérolas esparsas, livres...

16 de maio de 2005
3mailto:3c1m@uol.com.br

Antes que Am@nheça

Cássio Cavalcante

Amanhecia na capital pernambucana, em um apartamento de três quartos em Boa Viagem, amanhecia como em todos a sua volta. Madalena e Paulo, começaram em um quarto e sala no bairro da Boa Vista, dez anos juntos e muito trabalho, conseguiram, o que para eles era o merecido lugar ao sol. Mas os dez anos não lhe deram só a residência, junto vieram Breno e o caçula Paulinho. A ampla sala em ele era um perfeito modelo de como a classe média vive nesta cidade.
Depois de tomar o seu café, Paulo volta. Procura um lugar para colocar a mão no aparador repleto de portas retratos, todos eles com pedaços da vida daquela família:
- Madalena, a gente podia tomar mais vezes o café aqui na sala, a cozinha é muito apertada.
- Infelizmente meu querido não dá, pois não tenho tempo de tirar tudo da mesa, hoje tomamos aqui, por que ganhei um dia de folga lá no trabalho.
- Oh! Meu amor, que coisa boa para você.
- É. Estava precisando mesmo.
- Uma pena que não vai dá pra eu vim jantar hoje em casa. Depois do trabalho tem um futebolzinho, o pessoal todo vai. Eu não posso ficar fora desta.
- Mas toda sexta agora tem este tal de futebol. Logo hoje que eu imaginei me cuidar para ir ao cinema com você.
- O cinema fica pra outro dia meu amor. Você não vai querer que seu garanhão fique com barriga. Vai?
- Deixa para outro dia então, depois eu tenho umas coisas mesmo pra colocar em ordem aqui em casa.
- Ah! Já ia me esquecendo meu amor. Aquela minhas camisas de linho, faz uns três meses que falta um botão em cada. Aproveita e conserta. Elas estão no lado esquerdo do armário, são as primeiras.
- Está bom. Se der tempo eu vejo isso sim.
Terminando suas recomendações o marido se aproxima da mulher. Beija a sua boca, com um beijo que não chegou a ser consumado, pois apenas encostou seus lábios nos dela. Madalena apressa os filhos:
- Vamos logo Breno, o transporte está já chegando, e o motorista é aquela chato, que não espera um minuto. Você me escutou?
- Escutei sim. Poxa mãe, que mico este negócio de chamar o pai para se cinema. Você não tem idade mais pra essas coisas não.
- Minha mãe não e velha não. – Gritou o caçula, e continuou. – Velho e feio e você, seu chato.
- Meu querido obrigado por defender a mamãe. Eu nunca ouvi dizer que tenha idade para ir ao cinema. Acaba logo e desce com seu irmão. - Agradeceu a mãe e avisando em seguida para o outro filho. - E você Breno vê se cuida de seu irmão.
O dia se passará como um sopro, da folga daquela mulher, ela nada aproveitou. Trabalhou todo o dia. Colocar a casa em ordem e pior que fazer uma faxina. Estava só desde as quatro da tarde, pois quando a empregada soube que a patroa ia ficar em casa naquela tarde, logo inventou uma boa desculpa para sair mais cedo.
Já passava das dez da noite, e a sala a meia luz criara um ambiente que tornava aquela mulher mais solitária. Nada que ela procurasse para fazer seria capaz de preencher o vazio que sentia. Era como se nada ou ninguém fosse capaz de libertá-la daquela melancolia que invadia o seu ser. Olha em volta e vê seu filhinho que dorme no sofá. Com muito cuidado e carinho tenta acorda-lo, e logo consegue. Meio sonolento Paulinho se abraça a mãe que o leva em seus braços, ela que pensou apenas em ajudá-lo a caminhar ate o quarto. Muito sonolento ele diz:
- Mamãe...
- Fale miudeza.
- Não me chama assim que eu não gosto.
- Tudo bem, meu amor mamãe não vai mais te chamar assim.
- Toda vida tu diz isso, e toda vida chama de novo.
Chegando no quarto ela deita o filho, olha para o outro que já está deitado. Volta novamente o olhar para o que acabou de deitar, para escutá-lo:
- Mamãe...
- Fala, miudeza.
- Viu? Chamou-me de novo. Mas o que quero te dizer e que o Breno não desligou o computador. Mesmo eu tendo mandado.
- Não desliguei. – Gritou o outro, e desdenhou. – E nem vou.
- Está bom, eu desligo. Mas não quero saber de brigas, quero os dois dormindo agora. – Dizendo isso Madalena desligou a luz, olhou para seus filhos. A luz que entrava pela janela iluminava as crianças, com isso a mãe conseguia vê-los bem. Uma pergunta logo lhe surgiu. Seria suficiente seus dois filhos saudáveis para satisfazê-la, e ela se sentir realizada?
Na sala, sentada na mesa do computador passa os dedos em todas as teclas, começando pelas do lado esquerdo indo ate as do lado oposto. Não sabia o porque, mas sempre fazia isso nos teclados que apareciam à sua frente. Antes de desligar o micro resolveu de repente, acessar a tela inicial de seu provedor. Fazia a seta se deslocar na tela desorientadamente, de acordo com a direção que suas mãos faziam o mause deslizar. De súbito resolveu clicar com a pequena seta em cima do ícone bate-papo. Na tela seguinte clicou em cima de “por idade”. Depois em “de 30 a 40 anos”. Uma quantidade de salas lhe apareceu, sem pensar muito escolheu a 32. Na próxima etapa ela obedeceu a ordem que a mandava digitar no campo abaixo o que ela via escrito na imagem ao lado. Ela olhou e viu as letras RZQX , o numero 4 e por ultimo a letra E. Não demorou para digitar as letras e o numero que viu. O passo seguinte foi escolher e digitar um apelido. Não pensou muito mais uma vez, e digitou FADA*AZUL. E logo pensou: “Meu Deus! Que nome mais infantil. Mas será este mesmo.” Pela sala de bate papo entrou no mundo virtual da internet:

(11:10:35) FADA*AZUL entra na sala...
Load_Combo("re", "rangel 28 bh bi>casado-33-sp>passivo obedece>@udi>Cowboy:)>BOY@.BH>RICK>Garoto solitário>sexo c/cam RS>preto>H48>fael.msn>Fernando>pau duro>Daniel/Cam>ADVOGADO intSP>35gordinpas int sp>CAM(punheta)>FRANMAR>cacetudo/CAM>gostosinho>Thelma>50%>FADA*AZUL>novo>gwre>EUA>Dudu Rio>Leandro . sp>Herodes II>JAIME>paulo.atv.copa>teen-cam", 1);StatusList(1, "");
Load_Combo("re", "DOM_QUIXOTE-]----->SUJEITINH@>Mell>carolla>Calado.", 1);StatusList(1, "");


(11:10:36) Linda Oriental™ fala para Todos:
if(top.midiSTS) document.write('')


(11:10:37) **Pan*tera** sai da sala...
Load_Combo("re", "LU@>Cássia>DOM_QUIXOTE-]----->BREGÃO O TAL !>Linda Oriental™>Bravinh@", 1);StatusList(1, "");


(11:10:40) BREGÃO O TAL ! entra na sala...
Load_Combo("re", "LU@>m.antonio>Cássia>**Pan*tera**>DOM_QUIXOTE-]----->BREGÃO O TAL !>Linda Oriental™>Bravinh@", 1);StatusList(1, "");


(11:10:42) **Pan*tera** entra na sala...
Load_Combo("re", "LU@>**Pan*tera**>DOM_QUIXOTE-]----->Callado.", 1);StatusList(1, "");


(11:10:45) **Pan*tera** fala para LU@:
Oi, amiga.

(11:10:50) LU@ fala para **Pan*tera**:

(11:10:58) DOM_QUIXOTE-]----- fala para LU@:
if(top.midiSTS) document.write('')

Olá, menina.
(11:12:03) LU@ fala para **Pan*tera**:

(11:12:07) DOM_QUIXOTE-]----- fala para **Pan*tera**:

top.playSound('a');
(11:10:12) DOM_QUIXOTE-]----- fala para **Pan*tera**:

(11:12:30) **Pan*tera** (reservadamente) fala para DOM_QUIXOTE-]-----:
top.playSound('a');

(11:15:05) Callado. sai da sala...
Load_Combo("re", "LU@>**Pan*tera**>DOM_QUIXOTE-]-----", 1);StatusList(1, "");


(11:20:01) Dama Da Montanha entra na sala...
Load_Combo("re", "LU@>**Pan*tera**>DOM_QUIXOTE-]----->Dama Da Montanha>Bravinh@>ROS@ DOS VENTOS*®>Calado.", 1);StatusList(1, "");


(11:21:12) Dama Da Montanha fala para Todos:
Boa noite!

(11:22:01) Dama Da Montanha fala para Todos:
distribuindo beijos..rs

(11:23:03) Mar do Caribe entra na sala...
Load_Combo("re", "LU@>**Pan*tera**>DOM_QUIXOTE-]----->Dama Da Montanha>Bravinh@>ROS@ DOS VENTOS*®>Mar do Caribe>Calado.", 1);StatusList(1, "");


(11:24:01) Mar do Caribe fala para Todos:
boa noiteeeeeeeeeeeee!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

(11:26:02) Mar do Caribe fala para Todos:
q bom q tem amigos na salaaaaaaa!!!!!!

(11:27:01) Mar do Caribe fala para DOM_QUIXOTE-]-----:
blz rapaz..
top.playSound('a');

(11:28:01) DOM_QUIXOTE-]----- fala para Mar do Caribe:
tudo amigo

(11:28:08) Mar do Caribe fala para LU@:
toc toc..

(11:29:03) LU@ fala para Mar do Caribe:
AQUI EU

(11:29:05) LU@ fala para Todos:
PRECISO SAIR

(11:30:03) LU@ fala para Todos:
BJS

(11:31:05) Kinho entra na sala...
Load_Combo("re", "**Pan*tera**>DOM_QUIXOTE-]----->Dama Da Montanha>Bravinh@>ROS@ DOS VENTOS*®>Kinho>Mar do Caribe>Calado.", 1);StatusList(1, "");


(11:31:10) Kinho fala para DOM_QUIXOTE-]-----:
top.playSound('a');

(11:31:15) Kinho fala para **Pan*tera**:

(11:32:01) **Pan*tera** fala para Kinho: oi

(11:32:06) SUJEITINH@ entra na sala...
Load_Combo("re", "**Pan*tera**>DOM_QUIXOTE-]----->SUJEITINH@>Dama Da Montanha>Bravinh@>ROS@ DOS VENTOS*®>Kinho>Calado.", 1);StatusList(1, "");


(11:32:09) SUJEITINH@ grita com Todos:
Boa noiteeeeeeeeeeeeeee

(11:32:15) SUJEITINH@ grita com **Pan*tera**:
Miiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii

(11:32:17) SUJEITINH@ grita com DOM_QUIXOTE-]-----:
Fala menino
(11:32:20) **Pan*tera** fala para DOM_QUIXOTE-]-----:
top.playSound('a');

(11:33:07) DOM_QUIXOTE-]----- fala para SUJEITINH@:

(11:33:15) DOM_QUIXOTE-]----- fala para SUJEITINH@:
vc faz parte do trio maravilha

(11:33:20) SUJEITINH@ grita com DOM_QUIXOTE-]-----:
adoro esse trio viu?
top.playSound('a');



(11:33:40) DOM_QUIXOTE-]----- fala para Kinho:
kd as cachaças?

(11:33:50) Kinho fala para DOM_QUIXOTE-]-----:
todo dia tomo um gole, para não perder a prática
top.playSound('a');


(11:34:03) DOM_QUIXOTE-]----- fala para Kinho:
To aqui escrevendo um conto

(11:34:10) Kinho fala para DOM_QUIXOTE-]-----:
que conto demorado hein huahuahua
top.playSound('a');


(11:34:17) DOM_QUIXOTE-]----- fala para Kinho:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

(11:34:50) Kinho fala para DOM_QUIXOTE-]-----:
e no mais, tudo certinho? ta quente ai na tua cidade? aqui em ctba tá um mormaço
top.playSound('a');


(11:34:55) DOM_QUIXOTE-]----- fala para Kinho:
aqui no recife ta um forno

(11:35:06) Dama Da Montanha fala para DOM_QUIXOTE-]-----: amigo, estou saindo, ficarei esperando seu conto.. beijos
top.playSound('a');

(11:35:09) Flori [H] entra na sala...
Load_Combo("re", "DOM_QUIXOTE-]----->SUJEITINH@>Mell>Flori [H]>carolla>Calado.", 1);StatusList(1, "");


(11:35:10) Mell entra na sala...

(11:35:15) INDIANA.JONES entra na sala...
Load_Combo("re", "LU@>INDIANA.JONES", 1);StatusList(1, "");


(11:35:18) INDIANA.JONES fala para LU@:
OI MENINA, TUDO BONZINHO?

(11:35:20) INDIANA.JONES fala para LU@:
tava com saudades de vc

(11:36:01) LU@ fala para INDIANA.JONES:
top.playSound('a');

(11:37:05) LU@ fala para INDIANA.JONES: oie
top.playSound('a');


(11:37:10) INDIANA.JONES fala para **Pan*tera**:
oi menina, tava com saudades de vc
(11:38:03) **Pan*tera** fala para INDIANA.JONES:

(11:38:51) **Pan*tera** fala para INDIANA.JONES:
como vai suas conquistas rssr*
top.playSound('a');



(11:39:07) INDIANA.JONES fala para **Pan*tera**:
cada vez aumento mais minha coleção

(11:39:10) **Pan*tera** fala para INDIANA.JONES:
cuidado pra não se ferir com tudo isso...
top.playSound('a');


(11:39:15) Cássia fala para **Pan*tera**:

(11:39:20) **Pan*tera** fala para INDIANA.JONES:
psiu..kd as midis pra dançarmos?
top.playSound('a');


(11:39:25) Cássia fala para Todos:
tá tocando alguma coisa?

(11:39:31) **Pan*tera** fala para Cássia:
num abriu

(11:39:33) INDIANA.JONES fala para Cássia:
aqui tb n

(11:40:01) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Oh! A menina esta perdida por aqui?

(11:40:20) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Não, só observando. E gostando da alegria que estou vendo.

(11:40:57) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Mas aqui sempre é assim, a turma aqui é legal. Você tecla de onde?

(11:41:04) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Recife, e você?

(11:41:10) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
São Paulo, Morumbi. Conhece?

(11:41:15) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Fui algumas vezes ai. Sempre a trabalho e não deu para conhecer muito.

(11:41:20) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Mas de um próxima vez, saiba que terá alguém para lhe mostrar as coisas boas daqui.

(11:41:22) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Não começa a dizer essas coisas que acabo acreditando.

(11:41:31) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Pode acreditar menina.

(11:42:03) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Você é sempre tão gentil assim?

(11:42:07) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
E como se eu soubesse que fosse realmente se dar bem com você. Não sei te explicar.

(11:42:10) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Como é o teu nome?

(11:42:15) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Acho melhor não. Me chama de Indi, mesmo.

(11:42:20) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Vai me diz, o meu é Marlene.

(11:42:23) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Ta Bom o meu é Ricardo. Mas não me chama assim aqui. Certo?

(11:42:40) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Combinado Ricardo...

(11:42:45) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Como?

(11:42:50) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Ops, me desculpa, Indi. Mas me diz uma coisa, de onde tirou este apelido? Parece tão aventureiro.

(11:43:01) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Olha, foi assim. Quando fui entrar pela primeira vez não sabia que nome escolher. Não me vinha nada. Olhei para o teclado, e tenho uma estatueta do personagem ao lado. Acho que a ganhei, deve ter sido em alguma promoção na época do lançamento do filme. Como estava sem nenhuma idéia, olhando a estatueta, foi o que surgiu. Indiana Jones, (risos).

(11:43:43) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Nunca pensei. Que coisa! E como você é?

(11:43:50) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Sou meio ruim de me descrever, mas vou tentar. Tenho 1,85m, 87k, cabelos aloirados, olhos azuis, os braços fortes. Tenho a boca grande, mas em harmonia com o resto do rosto. Uma leve cicatriz abaixo dos olho esquerdo. 38 anos. E você?

(11:43:55) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Bem eu... Trinta e cinco anos. Cabelos pretos na altura dos ombros. Um rosto ainda jovem e seios fartos, (risos). A barriga à muito custo ainda esguia. Pernas grossas. Agora fiquei sem jeito.

(11:45:07) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Tudo bem menina. Prometo não dizer a ninguém por aqui como você é. Mas me deu água na boca. Viu?

(12:10:21) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Mas você me pareceu bem másculo, o homem exatamente como estou querendo hoje, (risos encabulados).

(12:15:33) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Não seja por isso, aqui estou.

A sensação que ela tinha, era de que aquele homem desconhecido, se tratava de um amigo muito antigo e querido. A cada palavra que lia, lhe dava mais confiança naquele que a poucas horas antes nem conhecia. A solidão em que jazia antes, sumira por completo. A timidez que no inicio parecia enrijecer seus dedos, agora da lugar a uma mulher livre, segura e desembaraçada. A segurança que aparecera de repente fazia com que um sorriso lhe Chegasse aos lábios de vez em quanto. Era tudo que ela não esperava para aquela noite. E o mais importante de tudo é que estava feliz, e como estava. Parecia estar hipnotizada diante dos galanteios daquele ser que para ela era como se fosse abstrato. Com tudo isso logo uma intimidade, que nunca em sã consciência ela daria a um homem que não fosse o seu marido. As palavras que começaram a surgir desde então, que de imediato lhe pareceram atrevidas, se transformaram em ardentes, e estava gostando de escuta-las e ate as respondendo:

(03:10:15) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Sabe em que eu estou pensando agora?

(03:12:13) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Não, o que?

(03:13:17) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Que a gente esta em um cantinho só nosso. Pode ser ate mesmo um quarto de Motel, climatizado, bem gostoso.

(03:15:07) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Nem me fale, me deu ate vontade...

(11:16:13) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Você deitada, eu te beijando te acariciando...

(03:17:10) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Eu gostando muito,de sentir tuas caricias...

(03:18:21) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Te beijando, mas não é um beijo simples não. É aqueles de novela, mordendo teus lábios, sentindo todo o teu desejo pela tua boca. Matando-te de tesão...

(03:19:51) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Está matando mesmo, pode ter certeza.

(03:20:12) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Agora beijando os teus seios, mordendo os mamilos, bem devagarzinho...

(03:21:13) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Estou entregue a você.

(03:22:01) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
continuando te beijando, tirando tua calcinha. Pronto. Agora você está livre, nua para mim...

(03:23:17) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Estou um pouco envergonhada...

(03:24:01) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Não fica, entre a gente não tem isso de vergonha.

(03:32:15) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Sim, continua.

(03:40:17) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Estou nu, deitado sobre você, sentindo o teu cheiro, a tua vontade. Percorrendo todo o teu corpo com minhas mãos tomando posse, te sentindo cada vez mais minha. Sem agüentar mais de vontade de entrar em você.

(03:42:20) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Estou entregue a você, também te desejando muito...

(03:45:21) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Te beijando, sentindo o teu coração com o meu peito. Começando a te possuir, te ter...

(03:50:01) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Não para, não para...

(03:57:13) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Te abraçando forte, e te sentindo cada vez mais, agora somos um só. No vai e vem que te enche de prazer...

(04:10:21) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Está muito bom...

(04:11:37) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Você é muito gostosa, estou gostando muito te sentir, de estar dentro de você.

(04:12:29) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Também...

(04:13:31) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Estou quase... estou preste a te inundar com meu tesão.

(04:14:16) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Você é especial...

(04:15:21) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Ahhhhhhhhhhhhh!!!...

(04:20:13) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Você gostou? Achou bom?

(04:21:16) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Gostei sim, e porque foi minha primeira vez assim, e não tenho muita experiência.

(04:23:14) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Nada, você foi ótima, deixa o resto comigo...

(04:30:13) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Certo, (risos acolhedores)

(04:37:21) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Você esta vendo que horas já são?

(04:38:13) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Estou sim, (risos), e que quando a gente ta gostando não vê o tempo passar.

(04:38:21) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Mas tenho que ir antes que amanheça, (risos)

(04:40:17) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Você volta amanhã?

(04:41:13) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Sim, gostei muito de você.

(04:42:09) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Te espero então.

(04:42:15) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Fui...

(04:43:05) FADA*AZUL sai da sala...
Load_Combo("re", "rangel 28 bh bi>casado-33-sp>passivo obedece>@udi>Cowboy:)>BOY@.BH>RICK>Garoto solitário>sexo c/cam RS>preto>H48>fael.msn>Fernando>pau duro>Daniel/Cam>ADVOGADO intSP>35gordinpas int sp>CAM(punheta)>FRANMAR>cacetudo/CAM>gostosinho>Thelma>50%>FADA*AZUL>novo>gwre>EUA>Dudu Rio>Leandro . sp>Herodes II>JAIME>paulo.atv.copa>teen-cam", 1);StatusList(1, "");
Load_Combo("re", "DOM_QUIXOTE-]----->SUJEITINH@>Mell>carolla>Calado.", 1);StatusList(1, "");


Quando desligou enfim o micro, já estava perto de amanhecer, ela calçou os pés nos chinelos, que antes descansavam em cima deles, vagarosamente. Como se não quisesse ir deitar, para aquele momento inusitado e mágico, que acabara de acontecer em sua vida, não fosse embora, junto com os primeiros raios de sol que começavam a despontar no horizonte. Olhou ainda uma ultima vez para todos os móveis como se fosse inspecioná-los. Entrou em seu quarto, tudo lhe parecia mais real e agradável. Os simples lençóis branco que cobriam sua cama nunca lhe pareceram tão deliciosos. E a ausência de Paulo, antes tão sofrida, naquela noite não lhe perturbou, sequer por alguns segundos. Dormiu o sono dos realizados, como já a alguns anos não conseguia mais fazer.
No shopping Paço Alfândega, um prédio que tem os seus arcos antigos a conviver com harmonia com o traço reto da modernidade, um desse acertos da arquitetura. Madalena, sai do elevador e caminha em direção de uma das muitas mesas da praça de alimentação. Sua impaciência chegava a ser visível, detestava esperar, e ainda mais quando fazia isso sozinha. Com seus trinta e cinco anos, era uma mulher bonita. Com seu volumosos cabelos pretos, seus seios fartos, e uma cintura q muita menina de dezoito anos sonha. Era sem duvida uma mulher atraente capaz de arrancar muitos olhares e suspiros de homens que inevitavelmente a observavam. Ela senta-se e como se não bastasse a demora de sua amiga, passa também a se irritar com os olhares do garçom ao longe, querendo insinuar a pergunta se ela deseja olhar o cardápio. Enfim a sua amiga chega:
- Que demora Laura, atrasada meia hora. Isso não se faz, você sabe que detesto esperar.
- Não demorei nada, você que é muito chata. Estava em Boa Viagem no outro lado, passar naquelas pontes no horário de almoço, é um caos e você bem sabe disso. O meu cliente, atrasou-me. E ainda foi me cantar na saída.
- Valia a pena pelo menos?
- Nada... Velho e careca, deve ser na base do viagra. Mas você que era a dona certinha, me perguntar se uma cantada vale a pena. O que houve? Noto mudanças...
- Nada de muito novo, Laura
- Mas Madalena isto aqui ficou muito bom, pensar que este prédio é da época do Brasil colônia. Ficou muito interessante. Aqui era um convento, sabia? Depois foi muitas coisas ate cair no abandono geral.
- Também gosto muito daqui, acho que este shopping e a prova que o antigo pode sim combinar com o moderno.
- Mais isto aqui tudo foi resultado de muito dinheiro. O dinheiro pode tudo, transforma tudo. E ate mesmo prolonga a vida. Também traz felicidade sim. – Depois de sua afirmação, a atrasada amiga deu uma sonora gargalhada.
- Sou forçada a concordar com você, mas vida o dinheiro não compra.
- Vai ser pobre e ter um câncer, enquanto tu vai amanhecer numa fila, o rico vai de avião para os maiores especialistas do mundo. Eu disse que prolongava e não que impedia a morte.
O rapaz toma coragem e se aproxima da mesa que estão as amiga, oferece um cardápio para cada uma. Madalena ainda demonstrando certa impaciência praticamente arranca das mãos do garçom o seu. Escolhe muito rápido e o devolve sem nem lhe olhar. Sua amiga também escolhe e voltam a conversar:
- Como está o chato de seu marido?
- O Paulo esta bem, só com o maldito futebol nas sextas a noite.
Olha menina, essa coisa de futebol, me cheira a mulher. Toma cuidado, viu?
- Acho que não.
- Eu depois de duas separações não quero mais homem na minha casa, na minha cama ate que as vezes não faz mal. Mas dividir banheiro nunca mais. Esta vendo aquele ali, moreninho, de camisa verde?
- Credo! Laura...
- Não venha me dizer que parece meu neto, no Maximo um filho.
- Sim, e você vai se envolver com uma criança.
- Mas logo você, com o nome que tem, vai me atirar a primeira pedra?
- Você sabe, não se trata disso.
- Os homens fazem isso a séculos, agora é a nossa vez menina. – E mais uma vez depois de sua ultima afirmação mais uma longa e sonora gargalhada.
- Pare de ri, e me escute. Te chamei aqui para te contar uma novidade.
- Eu sabia, notei alguma coisa no ar.
- Estou namorando. – Falou timidamente, como se agora que chegara a hora de fazer confidencias a amiga, lhe faltasse coragem?
- Jura? Quem?
- Indiona Jones...
- Quem?
- É meu namorado virtual... Um dia como quem não quer nada, entrei nesse negocio de bate papo. Para minha surpresa de repente estava transando com ele...
- Jura? Me conta esta historia direitinho, quero todos os detalhes.
- Como já te contei tudo aconteceu muito por acaso. Acho que faz pouco mais de um mês, mas teclamos todos as noites, ate de madrugada.
- Só estou acreditando porque você é quem esta me contando.
- Mas isso tudo esta me deixando muito cansada, vou dormir tarde e acordo muito cedo.
- E vocês transam todos os dias?
- Nem sempre, só às vezes.
- Como tudo isso começou?
- Entrei em uma sala, que a idade dos freqüentadores e na faixa de trinta a quarenta. Lá eles escutam musicas e conversam.
- Escutam o que? Musicas?
- É, musicas. Tem ate um nomezinho que eles chamam, que agora eu me esqueci.
- Sei, continua.
- Tem ate um site. Os mais veteranos, todos têm uma pasta onde guardam suas musicas prediletas. Está me entendendo?
- Estou. Que coisa interessante.
- O mais legal são os nomes, tem a Pantera, a lua o Dom Quixote.
- Este Dom Quixote deve ser um sonhador.
- Sei não, eu não falo muito com ele, mas ele me parece legal.
- Tem mais algum?
- Tem sim. O Lobo do Mar, a Mell e o Flori, Calado, Zandor, Nina, Sujeitinha, Nicole, Bravinha, Poder, Kinho, Dinho.
- Esses dois últimos são irmãos?
- Não, acho que não. Deixa eu te falar dos outros.
- Ainda tem mais?
- Tem o Vira lata, a Dama da montanha, a Estrela, O mar do Caribe. Agora se tiver mais alguém eu não lembro. Midis.
- Quem?
- Midis é o nome que chamamos musica lá. É assim que chamamos.
- Sei... E o teu nome, tu entra como Madalena mesmo?
Nada. Ta maluca? Eu na primeira vez entrei como fada azul, foi o primeiro nome que veio a minha cabeça. Sei que parece muito infantil, sonhador. Mas gostei e acabou ficando este mesmo.
- Que coisa! Estou besta com tudo isso. O teu marido, pelo menos desconfia de alguma coisa?
- Não. Ele nem se preocupa, com que eu estou fazendo na frente do computador...
O tempo passou, e o horário de almoço ia-se junto com todos que deixavam aquela praça de alimentação. O shopping antes lotado, já dava sinais da calmaria que lhe era comum no restante do dia. Um celular toca:
- Não é o meu Madalena. Será o seu?
- Ah! Dever ser. Estou com o celular do marido, o meu perdi lá em casa. Deve ser por isso que não reconheci logo o toque.
- Atende logo então.
- É uma mensagem...
- Veja logo o que diz. – Disse a amiga muito curiosa quase pulando da cadeira.
Madalena leu em voz alta:
“Bebe urso, infelizmente amanha, nossa sexta-feira não vai poder acontecer. Motivo de força maior. Pode ficar com a mocreia. Depois me liga.”
- Só pode ser engano, Laura.
- É nada, e logo na sexta... O bebê urso ta é lhe corneando.
- Será que o Paulo ta fazendo isso comigo?
- Amiga, não posso ficar com você. Queria muito, mas pra variar estou atrasada. Tenho que estar com o velho careca antes das três horas e já são duas e meia. Nem que eu tenha que empurrar um viagra na goela daquele careca, ele agora a tarde fecha o negocio comigo.
- Certo...
- Te cuida e juízo. Depois liga e me conta tudo, beijo. – Dizendo isso apressadamente foi se levantando, e repetiu andando e acenando. – Beijo.
As ultimas mesas eram limpas, e suas cadeira arrumadas. Só a mesa de Madalena, continuava como durante o almoço. Sentada ela não sabia o que fazer. Só pensava em seu aventureiro Indiana Jones. Enquanto descia as escadas rolantes observava o painel no piso central daquele shopping, ente os mosaicos se viam anjos voando, bodes, estrelas e ate mesmo uma vaca voando, ela pensou: “este painel sem duvida e inspirado no folclore pernambucano, que loucura tudo isso. Mas parece o momento atual de minha vida, onde será que estou me metendo?” A tarde estava nublada, mas ainda bem clara. Embora tendo um excelente edifício garagem, ligado ao shopping por um viaduto, nunca o usava. Gostava de estacionar a beira do rio, enquanto abria a porta do carro via o rio, a ponte, sua cidade refletida nas águas do Capibaribe. Ela gostava muito de sua cidade, gostava de pertencer a Recife. Mesmo sabendo de toda a violência que acontecia ela só estacionava ali. Mas sua cabeça no momento estava em São Paulo, pensava: “Onde ele estará? No transito, em casa, no trabalho. Onde e com quem?”
Os dias se passavam da maneira mais lenta e cruel para Madalena. As semanas pareciam anos. Esperava todos os inícios dos finais de semana, como quem espera um bem dos mais preciosos. Mas estava mas bem humorada, tinha mais paciência com as crianças. Uma grande indiferença ao marido, era o que sentia naquele momento. Enfim, sexta-feira. Chegara cansada mais uma força que ela não sabia de onde vinha, fez com que atendesse satisfatoriamente as crianças. Notara a ausência de Paulo, mas não a sentiu. Tinha acabado de sair do banheiro, tomará um banho especial, como quem se prepara para um grande encontro. Ela não se continha de tanta vontade de sentar-se em frente ao computador. Ainda estava com o roupão cor de rosa que ganhara no dias das mães, e tinha os cabelos ainda molhados, escondidos por uma toalha também da mesma cor. O telefone toca. Uma leve insatisfação aparece em seu rosto, mas não foi capaz de tirar o bom humor que estava sentindo naquela noite. Atendeu ao telefone e disse:
- Alô.
- Madá, sou eu Laura. Tudo bom?
- Tudo. O que você quer?
- Nada, só jogar conversa fora. Nunca mais nos falamos.
- Mas agora não posso.
- Porque?
- Nada em especia,.apenas não posso.
- É alguma coisa com os meninos?
- Não, eles estão ótimos. Amanhã eu te ligo, está bom assim?
- Não, quero conversar agora.
- É que estou estourando de dor de cabeça...
- E desde quando vontade de entrar na internet se chama dor de cabeça?
- Como?
- Nada, me liga mesmo amanhã.
- Ligo sim. Um beijo.
- Outro...
Enfim conseguiu desligar o telefone, se livrar da conversa fiada da amiga. Quando se sentou de frente ao computador, o telefone novamente chamou. Levantou-se e sentou no sofá que ficava perto da mesa em que estava, pegou o telefone:
- Alô.
- Sabe quem está falando?
- Não.
- É o Rui, não conhece mais minha voz, faz tanto tempo assim que não nos falamos?
- Rui! Como você vai rapaz?
- Estou bem, e o Paulo?
- Está ótimo também, e a Sandra, vocês?
- Olha, nunca estivemos tão bem. Estou ligando para chamá-los para o aniversário do Thiago, no próximo domingo. Vocês não podem deixar de trazer os meninos.
- Já faz um tempão que não nos falamos. Eu, Paulo e os meninos vamos mesmo.
- Certo. Estou esperando. Diz ao Paulo que a cerveja vai estar geladinha, no ponto.
- Digo. Um abraço.
- Outro, estou esperando vocês. Tchau.
Ela desligou, balançou a cabeça lentamente, foi até a cozinha, fazia calor. Depois de beber água escutou a porta da sala se fechar:
- Paulo?
- Sou eu querida. – disse isso já na porta da cozinha, e aproximando-se mais deu-lhe um beijo na cabeça. Ela retribuiu passando as mãos ternamente nos seus ombros, e falou:
- O futebol já acabou? Você sempre chega mais tarde.
- Hoje não teve não, você não sabe o que aconteceu?
- O que foi?
- O Rui.
- Ah!...
- O Rui separou da Sandra. Você ia dizer o que mesmo?
- Nada, me conta essa historia.
- Ele está mau, viu?
- É...
- Ligou pra mim e para Jaime, quer falar com a gente. Não posso deixar de ir. Só não te levo porque e chato. Três homens, sabe como é. Sempre sai um palavrão. Mas vejo se me livro logo disso, e volto mais cedo pra gente brincar um pouquinho, ta?
- Nada, seu amigo precisa, você não pode faltar numa hora desta. Dá um abraço nele por mim.
- Vou tomar um banho. Tem alguma coisa pra jantar?
- Arroz e salada, posso passar um bife.
- Ótimo.
- Sozinha na cozinha preparava o jantar e balança mais uma vez a cabeça lentamente, o sorriso pequeno que aparecia no seu rosto, demonstrava mais uma tristeza do que qualquer tipo de satisfação. De volta a porta Paulo com uma toalha na cintura, pediu:
- Meu amor, dá pra sair também uma cebolinha torrada na manteiga, daquele jeito que só você sabe fazer?
- Claro.
- Sabe quem está de volta na cidade?
- Não, quem?
- Aquele teu ex, que era bem rico. E você o deixou por que a irmã dele te humilhou, ou coisa parecida.
- O Guilherme?
- Sim, ele mesmo. A tua grande paixão, que só o papai aqui te fez esquecer.
- Eu não sei o que seria de mim, sem você para esquecê-lo. – Ela disse isso sorrindo.
- Eu vi no jornal. Esse pessoal de dinheiro vive no jornal.
- Eles são noticia, ou fazem a noticia. Agora vai logo tomar banho senão quando eu terminar aqui vai ficar tudo frio, e eu não vou esquentar nada.
Depois que terminou tudo na cozinha Madalena sentada no sofá folheava uma revista displicentemente. Ate que o marido apareceu a sua frente. A sala ficou perfumada com a sua presença:
- Você esta muito perfumado.
- Você não quer que o seu garanhão ande por ai sem cheiro.
- Vai logo embora, não deixa o teu amigo esperando muito não, ele deve esta muito chateado.
- Você tem razão querida, deixa-me ir então.
Enfim conseguiu se livrar dos telefonemas, do marido e de tudo o mais. Respirou fundo, ligou o computador. Estava entrando em seu mundo virtual, que para ela naquele momento de sua vida era o mais importante do que qualquer coisa do mundo real:

(12:10:21) FADA*AZUL entra na sala...
Load_Combo("re", "rangel 28 bh bi>casado-33-sp>passivo obedece>@udi>Cowboy:)>BOY@.BH>RICK>Garoto solitário>sexo c/cam RS>preto>H48>fael.msn>Fernando>pau duro>Daniel/Cam>ADVOGADO intSP>35gordinpas int sp>CAM(punheta)>FRANMAR>cacetudo/CAM>gostosinho>Thelma>50%>FADA*AZUL>novo>gwre>EUA>Dudu Rio>Leandro . sp>Herodes II>JAIME>paulo.atv.copa>teen-cam", 1);StatusList(1, "");
Load_Combo("re", "DOM_QUIXOTE-]----->SUJEITINH@>Mell>carolla>Calado.", 1);StatusList(1, "");


(12:11:27) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Olá menina, estava aqui te esperando.

(12:12:32) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Como Você está? Não estava me contendo de tanta ansiedade pra entrar aqui, e estar contigo. (risos).

(12:13:33) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Eu estou bem. Mas sempre pensando em você.

(12:14:35) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Eu também. Está ate ficando perigoso, um dia ia batendo o carro pensando em você.

(12:15:38) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Mas sabia que outro dia me aconteceu a mesma coisa?

(12:16:40) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Se aqui no recife o transito está o caos que está. Eu imagino aí.

(12:17:41) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Aqui está muito ruim mesmo. Mas não vamos falar de nada ruim, só de coisas boas.

(12:18:42) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Concordando aqui.

Ela conversava como uma adolescente que não via seu namorado a bastante tempo, seus dedos não paravam sempre teclando, e a cada mensagem que lia, um sorriso feliz lhe surgia nos lábios. Estava feliz, muito feliz:

(12:19:21) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Olha menina. Tem uma coisa que preciso te falar. Tenho que te contar algo. Se não te falar logo, nem sei. Tenho ficado muito ruim. Tenho que te falar mesmo.

(12:20:23) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Ai meu Deus! O que é? Já estou com medo.

(12:21:27) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Não e nada muito serio. É que não estou em São Paulo como te falei quando nos conhecemos. Estou mais perto de você do que imagina. Estou aqui mesmo no Recife, em Boa viagem.

(12:25:30) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Não acredito!

(12:27:31) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Está muito chateada comigo?

(12:28:38) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Nada. Estou é muito feliz. Está foi a melhor noticia que me deu. Tenho que te confessar que também não falei toda a verdade para você, Ricardo. Não me chamo Marlene, e sim Madalena.

(12:29:40) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Mas é um nome bonito também. (risos)

(12:32:42) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Nossa! Não estou acreditando é muito bom, para ser verdade.

(12:33:43) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Tem outra coisa que quero muito te contar.

(12:50:03) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Não, hoje não. Não sei se agüento outra surpresa. Só quero saber quando a gente pode se conhecer. Quero te ver, quero te tocar, (risos).

(12:50:06) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Só vou puder na próxima sexta.

(12:52:07) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Para mim esta ótimo.

(12:53:10) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Mas quero que saiba uma coisa...

(12:54:15) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Diga.

(12:55:18) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Você me gosta sem saber quem eu sou, sem nunca ter me visto, certo?

(12:56:19) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Certo.

(12:57:20) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Quero que saiba que lhe gosto da mesma maneira, esta bem?

(12:58:23) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Sim, está.

(12:59:26) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Você sabe onde é o bar Companhia? Na rua Tenente João Cícero. Fica quase em frente ao hotel Tívoli.

(01:10:25) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Sei, sei sim. Esse bar fica vizinho a padaria Boa Viagem. Certo?

(01:11:27) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Isso mesmo. (risos)

(01:12:29) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
As vinte horas para você, esta bom?

(01:13:30) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Acho que está. Está sim.

(01:14:10) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Combinado então.

(01:15:15) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
E quanto aquele outro assunto que quero te falar?

(01:16:13) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Já disse que hoje mais não. Você vai me contar esta outra coisa pessoalmente.

(01:17:05) INDIANA.JONES (reservadamente) fala para FADA*AZUL:
Mas...

(01:17:39) FADA*AZUL (reservadamente) fala para INDIANA.JONES:
Não.

A conversa continua ainda por muito tempo. Horas ardentes, horas ternas. Mas já estava quase amanhecendo, tinha que sair. E mais uma vez nunca uma semana demorou tanto a passar para aquela mulher apaixonada, do que aquela ultima. As vezes se pegava contado ate os segundos, olhando para o relógio enquanto o sinal de transito não abria.
O encontro fora marcado para as oito, mas ela chegara uma hora e meia com antecedência. O bar Companhia, nas sextas tem suas mesas muito concorridas. Madalena ocupou a ultima mesa disponível. Ao sentar-se deixou a sua bolsa sobre suas pernas, segundos depois a colocou na cadeira ao lado. O ambiente estava repleto, barulhento:
- Vai um cremoso, madame?
- Cremoso?
- Sim madame,um chopp.
- Chopp? Cremoso? Acho que vou provar, me traga um, então.
A bebida chegou, bem gelada e com bastante colarinho. Antes de prova-la voltou sua bolsa para a cadeira ao lodo, pois minutos antes a tinha voltado pra o seu colo. Gostou, uma bebida suave e saborosa. Não podia deixar de olhar para cada homem que entrava sozinho, depois passou a observar também os que chegavam acompanhados. Com todas as mesas lotadas já era grande o numero de pessoas que esperavam por uma vaga. De repente ela teve a nítida expressão que todos a olhavam com uma certa censura, pois ocupava uma mesa sozinha e os três lugares vazios a sua volta passou a incomodá-la. Se todos os freqüentadores não estivessem a impor uma certa desaprovação, era assim que ela os estava sentindo. Uma nostalgia repentina nasceu em seu ser. Lembrou os anos oitenta, e seu grande amor que ficou para traz em um passado já esquecido. Não sabia o que estava fazendo ali, nem tão pouco no que tudo isso acabaria. Olhou a sua volta e observou tudo que acontecia e a todos os presentes. Sua atenção parou no telão em que exibia a cantora Grace Jones contando a musica La Vie Em Rose. A cantora com sua voz estranha dava a música uma sonoridade agradável. Estava explicado, a música que tocava era a sua predileta e de seu amor do passado. Ela logo se puniu. Não aceitava mais pensar em uma coisa que acreditava que já estava encerrada, por que foi a muito custo que conseguiu esta proeza. Contou as bolachas de papelão que serviam de pequena bandeja para os copo. E já tinha bebido seis. Era um verdadeiro recorde já que a muito tempo não passava de no máximo dois copos. Passado um certo tempo voltou a contar as bolachas, e estas já eram sete.
Madalena estava sendo observada, por uma elegante mulher, vestida em um taileur preto, que salientava ainda mais as curvas de seu belo corpo. Os cabelos bem penteados ajudavam ainda mais a ser uma mulher que não passaria desapercebida onde estivesse. Como que criasse uma coragem repentina, a estranha caminha em passos contidos cheios de hesitação, ate a mesa ocupada apenas por Madalena:
- Ola. Parece que levamos um bolo. Posso sentar?
- Claro.
- Também estou esperando alguém. Mas ali em pé e sozinha fica mais difícil, não é?
- Claro. Acho que foi Deus que te mandou aqui, pois se ficasse a esperar mais alguns minutos sozinha, acho que iria enlouquecer.
- Nossa, pelo visto espera alguém importante.
- Não sei se será tão importante assim, mas que vai mudar minha vida, isso pode acreditar que sim.
- As duas logo pareciam velhas amigas, a que antes estava sozinha e tensa na mesa, agora conseguia relaxar, e dar alguns sorrisos. E disse:
- Parece que já falo com você à tempos.
- Mas é assim mesmo, quando nos identificamos com alguém, temos logo esta sensação. Enquanto observava você, sozinha, alguma coisa me dizia que íamos nos dar bem. Talvez tenha sido isso que motivou eu vim ate aqui pedir para sentar contigo.
- Que legal. – Disse ela depois que a nova amiga calou-se, em seguida voltou novamente sua bolsa para suas pernas. Um homem louro aparentando uns trintas anos entrou. Ela com toda a força que tinha apertou sua bolsa. Mas para sua decepção o homem passou pela sua mesa e sentou-se com amigos ao lado.Foi como uma ultima esperança que se foi, resolveu ir para casa, mesmo não suportando a idéia:
- Acho que já vou, quem eu espero não vem mesmo.
- Eu também, não vou ficar aqui sozinha. Você esta com carro?
- Não, quando vim era cedo, moro aqui perto e vim andando.
- Eu moro perto também, logo aqui no edifício Château Royal.
- O Château Royal que fica na rua Faustino Porto?
- Isso mesmo.
- Que coisa! Moro no edifício Acauã, vizinho.
- Então aceita uma carona, pelo menos não vamos sozinhas.
As duas chegaram, e a nova amiga de Madalena lhe perguntou se não queria subir um pouco, já que eram vizinhas e não sabiam. A convidada pensando na velha rotina que a esperava, aceitou de imediato.
As amigas entraram no apartamento. A sala pequena com poucos móveis, mas bem distribuídos. Entravam em harmonia com os quadros nas paredes em lugares estratégicos. Esta combinação dava um certo ar intimista ao ambiente. Em um canto uma mesa se encaixava e nela um computador, o que logo chamou a atenção da visita. Sentou na cadeira com rodinhas e disse:
- Um computador, foi como tudo começou, sabia? – Dizendo isso mais uma vez passa os dedos nas teclas do teclado do lado esquerdo para o direito. Mas terminando de fazê-lo ficou pálida e muito confusa. Sua mão bateu em uma estatueta que estava vizinha ao teclado. A amiga se aproximou e ainda de pé segurou sua mão, e perguntou:
- O que você tem? Esta branca...
Sentada na frente do computar ela tentou se explicar, mas as palavras não saiam de sua boca. Estava atordoada.
Como se novamente se alimentasse de uma grande coragem, a amiga que continuava de pé ao seu lado, apertou-lhe a mão e disse:
- Isso mesmo, é uma estatueta do Indiana Jones.
Nunca nenhuma palavra dita a ela, a deixaram mais confusa, e sentiu-se confortável por estar sentada, pois não sentia as sua pernas. E mais uma vez se nutrindo de coragem, a amiga continuou:
- Eu sou o Indiana Jones. Lembra que quando marcamos o entro eu queria te falar mais alguma coisa e você não deixou?
- Como você sabe de tudo isso? Ta brincando comigo...
- Não estou brincando, e essa coisa de sermos vizinhas me surpreendeu tanto quanto a você.
- Esta maluca? – E no acesso de fúria levantou-se. Puxando bruscamente a mão que ainda era segurada pela amiga. Suando muito com as duas mãos sobre a cabeça, estava quase tendo um esgotamento nervoso. Uma náusea violenta fazia todo o seu organismo incomoda-la. Não agüentando mais aquela situação vomitou em cima do teclado. O que a fez se sentir mais envergonhada ainda. Passando a mão na boca, respirando fundo, conseguiu falar:
- Pelo amor de Deus, esquece toda esta historia, e faz de conta que você nunca me viu. Faz isso pelo amor do que você acha mais sagrado neste mundo. – Depois de se recompor, segurou sua bolsa tão maltrata naquela noite. E seguiu ate a porta. Antes de sair, virou-se, e já mais calma, pediu:
- Faz o que ti pedi, não torna nada mais difícil para mim do que já esta sendo.
- Pode deixar, assim será. Mas se precisar de uma amiga estarei aqui sempre te esperando. - Respondeu a dona da casa imóvel, com uma calma, que diante de todo que havia acontecido parecia ser impossível. Não dando resposta, nem olhando pra traz Madalena saiu e fechou a porta delicadamente. Dentro da sala a bela mulher que parecia serena diante do caos, atirou-se no sofá, e enfim se entregou ao choro compulsivamente. Seus soluços eram escutados no outro lado da parede, onde a outra no hall, chamava o elevador, apertando o botão de uma maneira aflita. Lembrou-se que se encontrava no primeiro andar, e desceu as escadas correndo, parando só quando chegou na guarita. O que despertou o olhar atordoado do vigia que se encontrava dormindo.
Chegando em casa guiada somente pelo instinto, após tirar a chave da fechadura e abrindo em seguida aporta, se depara imediatamente com o marido:
- Isso são horas, está quase amanhecendo. Posso saber onde a senhora estava?
- Não... – Madalena notou na sua maneira de falar que foi a resposta mais fria que dera em toda a sua vida.
- Ah! Vai me dizer sim, e vai ser agora.
- Não vou lhe dizer nada bebe urso...
- O que? – O dia começa a amanhecer, mas a sala ainda escura era iluminada pela a luz de um abajur, de frente para a luz Paulo era o mais iluminado dos dois, e esta mesma luz mostrava todo o seu descontrole que mostrava seu rosto transtornada. - De que você esta falando, deve estar inventando coisas pra se desculpar pela hora que ta chegando em casa. Não sei que palhaçada é esta que esta falando.
- Olha, não adianta negar eu já sei de tudo.
- Você quer sabe mesmo de tudo? Tenho uma puta sim, porque não te agüento mais. Você não sabe satisfazer um homem, não sabe trepar. Tenho vontade de dormir em cima de você.
- Você tem razão Paulo, eu concordo. Mas não sei trepar porque fui burra, me guardei para um calhorda como você. Nunca tive chance de aprender, como também nunca tive um bom professor. Você para um garanhão sem barriga sabe muito pouco destas coisas, ou melhor, não sabe nada.
- A senhora esta muito sabidinha para o meu gosto.
- Mais uma vez tenho que concordar com você. Mas te digo que nunca e tarde para aprender. E não vai ser você que vai me atrapalhar, porque você vai sair deste apartamento e da minha vida antes que amanheça.
- Você vai se arrepender, depois vai me pedir pra voltar, mas não volto, viu?
Não adianta quem não é capaz de entender um olhar, jamais entenderá uma explicação.
- É mais, eu fui o seu primeiro.
- A vantagem meu filho, não é ser o primeiro e sim o ultimo.
- Mas todas as Madalenas da vida que eu conheço que perderam o seu primeiro, ainda hoje estão a procurar o tal ultimo.
- Se tem uma coisa que aprendi este tempo todo que vivi com você, desde que nos casamos rapaz, foi que a pior solidão, e a solidão a dois.
Ao contrario do que podia esperar de si mesma, Madalena estava leve e tranqüila, quando o marido saiu e fechou a porta atrás de si. Começaria ali para ela uma nova vida, uma vida real sem sonhos, mas que ela seria a escritora de sua nova historia. Vai até o quarto, os meninos dormem bem. Não sente vontade de estar ali, e vai andar um pouco na praia.
Amanheceu, Madalena sentia uma imensa paz, observava o espetáculo simples mas tão agradável de se ver. A manha na praia de Boa Viagem estava sem igual. A areia dourada pelos primeiro raios de sol entrava em contraste com a espuma branca das ondas que morriam na areia. Ela não era a única a observar, desde que sentou no banco de cimento do calçadão. Um homem a olhava. Ele não fazia questão de esconder isso, e foi cada vez mais se aproximando dela.
“Só me falta agora ser assaltada por um homem de sunga, o que irá mais me acontecer?” Perguntou a si mesma quando notou a aproximação do estranho. Mas parecia também alheia a tudo a sua volta, não tinha a menor intenção de levantar-se: “Seja o que Deus quiser.” – Sentenciou-se em seus pensamentos:
- Oi menina! Não me conhece mais?
- Não. – Respondeu calmamente sem prestar atenção em seu interlocutor:
- Sou eu, Guilherme.
- Guilherme! Que Guilherme?
- Aquele que você enganou, dizendo que o amava...
- Menino, é você? Como esta bem! O tempo lhe foi generoso.
- Não tanto como com você, Madalena.
- Mas me conta rapaz, o que tem feito da vida?
- Não foi bem eu que fez com ela, é ela que tem feito comigo. – Dizendo isso ele sorriu e continuou. – Casei, estou divorciado. Morei um tempo fora do Brasil, e agora estou de volta a terrinha. E você?
- Quanto a mim, nem queira saber. Nos últimos tempos toda a minha vida correu em um curto espaço de tempo, o que ficou parado durante anos. É uma longa historia quem sabe, eu te conto um dia destes. Claro, se tiver paciência de escutar uma velha amiga.
- Velha amiga? – Depois de sua admiração, continuou. - Madalena tenho que lhe fazer a pergunta que não quer calar. Porque tudo aquilo, Eu nunca entendi por que você se comportou naquela maneira.
- Já faz muito tempo, menino. Eu era muito menina, você vai ter que me perdoar.
- Só lhe perdôo se você jantar hoje comigo.
- Então estou perdoada, a que horas você me pega?
- Aceitou? Não acredito! Onde você Mora?
- Ah! É logo ali. Fica entre a avenida Conselheiro Aguiar e a avenida Domingos Ferreira. É um prédio...



madrugada de 05 de abril de 2005
3c1m@uol.com.br

A Bela da Tarde

Cássio Cavalcante
O mar azul com sua espuma branca, banha as areias mas logo se retira de cena, para em segundos retornar. Domingo, tarde na praia de Boa Viagem. Devido a cortina de concreto formada pelos arranha-céus o sol logo se vai das areias daquela praia. Mas nem por isso ela perde seu encanto. No calçadão alguns banhistas retardatários, no play-ground crianças brincam. Para os que fazem sua saudável caminhada diária. Podem-se ver esses de todas as idades. Há ainda aqueles que bebem a doce água de coco vendida nos vários quiosques daquela orla:
- Porra , Ricardo se queria beber uma água de coco, era só mandar o teu empregado vim pegar e a gente bebia na varanda mesmo, ter que descer ate aqui...
- Calma Flavio, o Zezé está velho e cansado. Já está com a gente faz um tempão. As empregadas falham, e ele sempre fiel. Vamos dar um sossego a ele no domingo.
- Tem visto o Geraldo? – Perguntou Flávio ao amigo.
- Nem me fale daquele sujeito, o trabalho para qual o contratei, devia ser entregue, na quinta. Sexta-feira no final do expediente, não deu nem noticia. Fiquei com ódio, atrasou bastante minha vida lá no escritório. Tenho sempre a política de não fazer trabalho nenhum com conhecido. Nunca dá certo. Para atrasar é amigo, mas para cobrar é profissional.
- Foi assim? Bom eu saber, não indico ele para mais mingúem.
- O pior é que no final do dia, estava de cabeça quente com os problemas, a Marta, deixou entrar na minha sala uma gostosinha, vestida num terninho metida á executiva, para me vender sistema de computação. Toda dona da situação, você precisava vê. Mostrei-lhe a porta para sair.
- E ela era bonitinha, pelo menos?
- Nem sei, não olhei... Quando sai, a Marta ainda respondia alguma coisa pra ela. Dei uma bronca na Martinha, aquela secretária está fincando muito folgada. Não tinha que perder tempo com a tal sujeitinha.
Enquanto os amigos conversavam, passa ao lado uma moça. Não era uma menina qualquer, era linda. Alta, seus cabelos pretos na altura do quadril estavam soltos e esvoaçantes, o que lhe dava um certo ar de tigresa. Sua pele branca ressaltava os seus olhos azuis sem igual. Usava uma dessas roupas colada ao corpo. A cor era preta com listas laterais, no short e na camiseta, o que servia para delinear ainda mais suas curvas:
- Olha só, que mulher linda!
- To vendo, Ricardo. Será uma miragem?
- Se é ou não, quem vai descobrir sou eu. – Dizendo isso o empolgado, foi na direção daquela mulher, que era o que mais lhe interessava naquele momento.
“Babaca. Se acha o tal. Como se eu não fosse páreo para ele.” – Pensou Flávio, depois de beber mais uma vez sua água de coco.
Mas todas as investidas de Ricardo foram em vão. Teve como resposta além do silencio, um sorriso, um vago sorrido. Que o fez desistir, mas apenas naquele momento. Assim, a desejada se foi como aquele domingo.
Uma semana se passou. Ricardo durante todos aqueles dias lembrou da moça bonita de Boa Viagem. A moça no meio da tarde de um domingo azul, seus olhos azuis como a tarde. A tarde de um domingo azul.
Era novamente domingo, no seu carro Ricardo passava devagar pela avenida beira mar. Pensou em parar e tomar uma água de coco no mesmo lugar: Quem sabe ela pode passar. Mas estava atrasado mais de dez minutos. De súbito teve a visão da dona de seus pensamentos. Foi arrancado de sua surpresa em segundos por um barulho, e um solavanco que o fez bater a cabeça no para brisa. Parou, e muito atordoado saiu do carro, o que fez também o motorista do outro carro:
- Como é teu nome? - Perguntou Ricardo ainda confuso.
“Tá maluco? Parou seu carro de repente.” Gritou o outro motorista.
- Tereza.
“Quem vai pagar o meu carro?”
- Quero te ter. Não, quero dizer, te conhecer...
“O meu carro é zero, recebi ele ontem.”
- Você está ferido. - Preocupou-se ela.
“Eu não vou ficar no prejuízo.”
- Está sangrando... – Disse passando a mão delicadamente na cabeça do ferido.
“Eu não tive culpa. Foi você que parou de repente.”
- Está doendo?
“Isto na testa dele não é nada, o meu carro está pior.”
- Não está doendo. Quero sair daqui. Vamos?
“Não vai sair daqui coisa nenhuma. Vamos esperar a perícia.”
- Cala a boca. Aqui está o meu cartão, tem meu telefone. Eu pago o reparo no teu carro. Agora me deixa em paz, quero sair daqui.
Enquanto o casal ia-se, o raivoso motorista anotava com a mão trêmula a placa do carro deles no verso do cartão que recebeu.
Minutos depois estavam em uma farmácia. Tereza estava terminando os primeiros socorros no acidentado:
- Pronto. Não foi nada. Deixa eu limpar só mais um pouco.
- Eu sei que não foi nada. – Respondeu já sem paciência.
- Agora um band-aid, e estará terminado.
- Olha... Vamos para algum lugar, aconteceu tudo muito de repente, ainda estou meio perdido.
- Certo. Mas você tem é que descansar um pouco. Não está podendo fazer outra coisa não.
- Posso, não tenha dúvida...
Na suíte de um motel, a música La Belle de Jour, ecoava naquele quarto quase como um sussurro. O ambiente climatizado, era o oposto do calor que fazia fora dali. A meia luz contornava aqueles corpos que se davam.
Depois do sexo consumado, se admiravam com olhares ainda sedutores:
- Afinal, quem é você?
- Eu. Sou a Tereza da Praia.
- Falo sério. O que você faz da vida, neste mundo tão competitivo?
- A minha vida não tem muito charme. Não pinto quadros, não escrevo livros e nem sei cantar. Trabalho com vendas.
- Eu te compraria tudo.
- Não, não compraria.
- Como você sabe, que eu não te compraria nada?
Ela nada respondeu. Apenas sorriu.
Mas os dias que seguiram não foram dos mais felizes para Ricardo. As tentativas de falar com a sua desejada, eram sempre frustradas pela mesma gravação: “celular fora de área de cobertura ou temporariamente desligado.” Até que:
- Alô.
- Tereza? É Ricardo, faz dias que te ligo, e não consigo falar com você.
- Eu tinha perdido o meu celular.
- Quando é que a gente se vê?
- Ando tão ocupada.
- Como é?
- Domingo está bom para você, Ricardo?
- Mas hoje ainda é quinta.
- Domingo a gente se encontra lá no Alfaiate, em Boa Viagem...
- Eu sei onde é o Alfaiate.
- Até domingo no final da tarde.
- Combinado, então.
Mais uma tarde de domingo que terminava:
- Faz tempo que está me esperando, menino?
- Não, cheguei à pouco tempo. “Já faz quase uma hora que estou aqui”. – pensou indignado.
A conversa tinha tomado um rumo que ele não estava gostando muito. Falavam sobre trabalho, trânsito, música. Coisas sem muita importância, diferente do que tinha pensado. Esperou que seria um reencontro. Aquilo foi deixando-o sem paciência. O seu celular tocou. Depois de atender, ele diz:
- Era o cara que bateu no meu carro, lembra? Marquei com ele para amanhã. É bom resolver logo isso.
- Deixa que eu me entenda com ele, é meu irmão.
- Como?
- Ele é meu irmão, foi tudo combinado.
- Irmão? Combinado?
- Você pensa que me conheceu na praia, certo?
- Certo.
- Você me conheceu antes. A Marta, que foi sua secretaria, e a despediu há alguns dias, lembra?
- Lembro.
- Pois é, a Martha é minha amiga, dividimos o mesmo apartamento. Foi Ela que deu um jeito para eu entrar no seu escritório para vender um sistema. Eu fui a vendedora que você praticamente expulsou.
- Era você?
- Sim, era eu. Quando você saiu e eu ainda estava lá, a minha amiga estava contando onde era seu apartamento, e que costumava tomar água de coco sempre em frente ao seu prédio...
Terminando sua explicação ela levantou e foi embora. Deixando-o ali, sozinho naquela mesa, mais confuso do que no domingo anterior, quando bateu o carro. Ele desesperado ainda tentou convence-la a ficar. Disse o que lhe veio:
- Eu tenho poucas certezas na minha vida. Mas uma delas e a certeza de que para eu estar bem, tenho que estar com você.
- Você não é tão grande para ser o humilde que está querendo parecer. Fique com os seus. Fui...
A brincadeira feita com o rapaz não lhe fez nada bem. Se sentiu traído, enganado, um imbecil. Só tinha uma certeza depois de tudo que aconteceu, nunca mais queria ver aquela mulher. Mas tinha que dividir esta convicção com a falta atroz que ela lhe fazia. Decidido a esquecer, resolvi viajar.
No aeroporto, os dois amigos se encontram:
- Aí, o garanhão papou a bela da tarde? - Quis saber Flavio.
- Não, foi ela quem me papou...
- Como assim?
- Ela fez tudo aquilo para me deixar como estou agora.
- E como você esta agora, Ricardo?
- Derrotado, meu amigo. Derrotado...



Baseado livremente na música La Belle de Jour, de Alceu Valença.


madrugada do penúltimo dia de 2004
3c1m@uol.com.br

O Arrogante

Cássio Cavalcante

Chuvia muito naquela tarde na capital pernambucana. As ruas do bairro de Boa Viagem naqueles anos de 1970, estavam se alagando a cada mais um minuto de chuva. Um Galax branco, carro dos mais abastados daquela época, mais parecia um navio devido ao seu tamanho. Ao passar fazia verdadeiras ondas que banhavam as calçadas e os pedestres que nelas transitavam:
- A senhora viu no rádio madame, o boato de que a represa do Tapacurá ia transbordar. Foi aquele corre, corre.
- Em primeiro lugar Seu. Alfredo, eu não vejo noticias no rádio, e sim as escuto. Em segundo, na entrevista para sua contratação não lhe foi dito que se contratado seus patrões dispensariam qualquer tipo de comentário de sua parte se os mesmos não lhe fosse solicitados?
- Sim madame, exatamente.
- Então como me vem agora com ousadias, me fazendo comentários de noticias de rádio sem ter sido interpelado.
- Sem ser o que madame? Intre...
- Cale-se está me deixando nervosa.
- Pois não madame. Pois não.
A criança que estava ao lado da mãe se deliciava não se sabia ao certo se era pelo banho que as pessoas que estavam na rua tomavam sem querer, ou se era pela cara de decepção do ingênuo motorista, que quis apenas agradar a sua patroa. O menino olhava para o homem que diria o carro e sorria de uma maneira muito cruel, jamais esperada em uma criança de oito anos:
- Mamãe...
- O que foi meu tesouro?
- Mande Alfredo fazer uma onda bem grande, que molhe todos que estão na parada de uma só vez.
- Vamos, satisfaça meu Paulinho e depois nos leve logo para casa. Claro, nos poupando de seus comentários desnecessários pelo amor do bom Deus.
A criança sorria quase de uma forma convulsiva, ao ver a fúria das pessoas que ficaram encharcadas. Enquanto a mãe olhava ternamente para seu filho. Não tomando conhecimento, do drama dos que foram molhados para uma mera satisfação de seu filho...
- Paulo. Está olhando o que nessa chuva infernal?
- Não é nada Ricardo, só tava lembrando de uma coisa quando eu era menino.
- Já sei, pelo sorriso cínico, só pode ser alguma coisa com uma empregadinha gostosa. Certo?
- Não importa. Me fale como foi em Madri Ricardo. Você terá mais algum cinema.
- Não. Mas estão satisfeitos com os resultados, com o do Shopping Guararapes. Você viu como o shopping renasceu?
- Estive lá com Amanda, tivemos até dificuldade para estacionar, deveriam colocar manobristas como no outro shopping.
- Eles quando se trata de investimentos no terceiro mundo, agora chamado de em desenvolvimento, são muito cautelosos, são pilhas de estudos antes de soltar um dólar por estes lados. Mas por falar em Amanda, passei por ela, estava conversando com sua secretária. Você tem feito bem a ela, sua noiva esta cada dia que passa melhor.
- Ela deve estar interrogando, a pobre Marlene não tem sossego. Amanda pede um relatório de minhas ligações. Só se interessando pelas femininas.
- Mas vamos deixar os espanhóis por lá, e me diga como estão as coisas aqui na sua financeira.
- Os tempos difíceis para mim são bem vindos. Com a falta de dinheiro que enfrentamos, todos recorrem a pedir dinheiro. Uma pequena parte consegui pagar. O restante, que é a maior parte, acaba perdendo para mim, o pouco que lhes restou.
- Você sempre foi muito esperto...
- Eu não, nós. Somos nós que construímos esse mundo, é justo que seja nosso o direito de usufrui-lo. É essa roda viva que cria e alimenta os sonhos da sub raça que se molha na chuva lá fora. É com o trabalho e as esperanças deles de se tornarem um de nós, que ficamos mais ricos e mais donos da situação. – O rosto do jovem empresário, defendendo suas idéias se tornou ríspido como o de um grande déspota. – Certo?
- Eu estou louco, em dizer que não. – Os amigos sorriram longamente.
- Quanto riso no reencontro de velhos amigos. Paulo ligou uma Carol três vezes. Quem é essa? Eu não conheço. – Quis saber a atraente mulher no curto espaço de tempo que levou entre entrar naquela sala e beijar os lábios de seu noivo.
- Você não conhece, nem eu. Deve ser alguma coisa que não chegou a mim.
- Você chega, eu saio. Tenho muito que resolver. Sempre fico atrapalhado quando volto de viagem. Depois marcamos alguma coisa para vocês conhecerem minha nova namorada.
- Você está muito cheirosa.
- Gostou... Foi o perfume que Carminha, me trouxe de Londres. Não entendo Carminha, veio em fevereiro para o carnaval em Olinda, e não voltou ainda. Está namorando um negro. Não é bem por ser negro que não gostei dele. Ele é garçom. Você acredita? Garçom. Uma menina que pertence a família que tem a terceira fortuna de Pernambuco. Que se divirta, tudo bem. Mas perder tempo namorando... Aí, já é de mais.
Tem gosto para tudo meu amor. No meu caso, tenho bom gosto.
Seu mentiroso... Vamos ao cinema do Ricardo. Entre as estréias, um filme do Almodova excelente.
- Hoje não. Vamos amanhã. Não sei a que horas vou sair daqui. – A chuva continuava a cair. Lavando todas as vidraças azuis da grande torre comercial, localizada no mesmo bairro em que alguns anos atrás um galax branco, cortava as ruas com um homem simples a dirigi-lo, que apenas quis ser gentil com sua patroa.
A rua da concórdia durante o dia é um corredor da cidade do Recife, muito movimentado. Embora com grande parte de suas portas fechadas, devido a péssima onda que acolá o comercio. Não só nas noites quentes e abafadas de verão, mas em toas as estações. Acontece ali um outro tipo de comércio. A prostituição. Mas ao contrario de outros pontos de prostituição na cidade, naquela rua durante os expedientes das prostitutas não é uma constante a passagem de carros. Seus clientes geralmente são pedestres, pobres, geralmente embriagados de cachaça. As vezes essa rotina é quebrada com a passagem de um carro de luxo, que geralmente pára. E solicitava os serviços de alguma mulher que ali se encontra:
- Vai querer o que bacana?
- Você.
- Serviço completo? É caro.
- Dinheiro não é problema. Onde você mora?
- Isso não interessa.
- Diga, faz parte do meu prazer.
- Longe, depois do Alto da Borborema.
- Ótimo. Entre. – Em seguida abriu a porta do carro.
No conforto do interior do veiculo, o frio chegava a incomodar a gananciosa mulher. Calafrios lhe percorriam o corpo, não era acostumada aquele tipo de frio. A música suave, as luzes do painel e até mesmo o cheiro do couro dos bancos a deixaram atordoada. O bem estar e todas aquelas sutilezas lhe eram estranho, longe de seu mundo, era como se estivem no céu. Tudo que ela vira e sentira dentro do carro, vinha de imediato se chocar com o aroma de seu perfume barato. Para ele, não encontraria nas melhores perfumarias de toda a Europa, um perfume que causasse um deleite tão profundo em seu ser.

13 de novembro de 2004
3c1m@uol.com.br

Tuesday, October 31, 2006

$$$ Meu Primeiro Milhão $$$

Cássio Cavalcante
A historia que vou começar a contar, começou em um lugar muito distante do que estou agora. Para ser mais preciso, no bairro da caixa d,água no subúrbio de Salvador. O ponto de partida para tudo foi a morte de meus país. Morreram afogados na Praia de Itapuã. Era um dia no meio da semana com a praia deserta, só tiveram como testemunha de seus tristes fins, o farol. Isso mesmo, a mesma praia da música de Vinicius de Morais. Quando aconteceu estava eu com 14 anos. Ao saber só me passou a idéia de me matar, e devo admitir que desde então essa idéia vem sempre como solução do menor ao maior problema. Posso dizer que acho que superei tudo isso, mas que ficou marcas profundas em minha alma, e que nunca me livrei dessas marcas, posso garantir. Não chega a ser uma fobia, mas passei a não gostar e ter uma grande antipatia por grande quantidades de água. Como mar, lagos e rios.
Filho único e sem avós maternos e paternos, tive que ir para o Recife, morar com o irmão de meu pai. Gregor Maranhão, meu tio era um importante político naquela cidade. A lembrança da minha chegada, até hoje ainda é muito nítida para mim:
- Carlos essas são sua primas Grete e Greta – Disse meu tio, querendo ser gentil. As duas meninas embora com nomes de gêmeas, não eram gêmeas. A primeira tinha 13 anos, e a segunda 10. Ambas me receberam com carinho, mas greta a mais gordinha, sempre me olhava com cara feia, quando estávamos a sós.
- Esta é sua tia Leonor. – Continuou meu tio procurando sempre se mostrar o mais caloroso possível. Leonor, uma mulher corpulenta mais de muito educação. Arriscaria a dizer que era a pessoa que conheci mais preparada para receber. E nada mais bem vindo sendo ela a esposa de um político.
Passamos naquela residência ainda uns poucos anos. Logo depois nos mudamos para uma cobertura na avenida Beira Mar de Boa Viagem. Não tive muitos problemas, meu tio me saiu um verdadeiro pai. Talvez isso tenha acontecido por eu ser filho de seu único irmão, ele não tinha um filho. Acho que o tal destino, se ele existe, me encravou nessa lacuna da vida de meu tio. No passar do tempo não tive grandes dificuldades, talvez por uma defesa me sentisse superior a todos. Devo afirmar que isso me ajudou. Me destaquei nos estudos, nos esportes, eu era o que se podia chamar de popular. Logo estava me formando, escolhi direito, talvez por saber que era isso que me tio queria para mim. Mas na hora da colação, lembrei das palavras de meu pai:
- Advogado foi a única profissão criada pelo Diabo.
Depois de voltar do exterior, onde eu fui fazer um doutorado, presente de meu tio, ele e eu tivemos a conversa que mudaria minha vida para sempre:
- Chegou a hora Carlos.
- Hora de que?
- Você será candidato a deputado nas próximas eleições. E tenha certeza, será a primeira de muitas que irá ganhar.
- O senhor falando assim, tenho certeza. Mas o dinheiro para isso? Ontem mesmo o senhor queixava-se de dinheiro. – O chamava de senhor por que foi umas das poucas exigências que ele me fez. – Este negocio de eleição sempre me falou que custa caro.
- Já está tudo arrumado. O ministro Clovis Aranha e o deputado Cláudio Pimentel vão bancar tudo. A coisa já é garantida.
Sendo assim o resultado foi o que se esperava. Acredito que Tio Gregor com certeza era o mais feliz de todos, quando gritava:
- 14860 votos. O segundo, o segundo! Eu sabia que seria batata. Batata...
Sua esposa, sempre contida e serena, repetia sem parar:
- Parabéns meu filho, parabéns meu filho...
Como por encanto logo me transformei em um político de grande respaldo, não sei como, logo me livrei da sombra de meu tio. Eu era Carlos Maranhão. O presidente da Assembléia, o político mais influente daquela casa. Acho que perdia só para o Governador, mas numa segunda tentativa seria capaz, com a artimanha certa, passar até por cima dele.
Em um belo dia entre uma e outra assinatura olhava para o teto, quando a secretária me avisou da próxima reunião. Era com um executivo, de uma dessas multinacionais. A porta se abriu, e o homem me saudou com um caloroso sorriso:
- Hello, Mr. Maranhão. – Mr. Hudson, era uma figura agradável, bem vestido, os cabelos bem penteados e um sorriso com dentes muitos brancos, que logo me lembraram um comercial de creme dental. Hudson era um desses executivos internacionais que fatiam o terceiro mundo, e o entrega ao dito primeiro, para esse devora-las. Nossa entrevista, claro, foi em inglês. Sentia as vezes que ele queria me testar, mas não o levei a mal. Eu gosto de falar outros idiomas fluentemente.
Passando as primeiras palavras de meras formalidades, ele logo me passou um relatório que me deixou intrigado. Era sobre Porção. No relatório podia-se ler que a cidade ficava no interior, no Vale do Ipojuca. Com uma área de 212,1 Km , uma população de 9.579 habitantes. Em destaque lia-se que na cidade estava a nascente do Rio Capibaribe. Depois de ler perguntei:
- Em que posso ajuda-lo?
- Nossa empresa deseja instalar uma de nossas fábricas, nesta cidade. – Disse ele apontando de uma maneira cordial para o relatório que ainda se encontrava em minhas mãos.
- Ótimo. Melhor impossível. – disse eu sorrindo. – Mas porque me procuraram?
- O Sr. É o deputado mais influente de seu estado. Precisamos de seu apóio, nossa fábrica de detergentes, tem como resultado final, resíduos com altas taxas de poluentes dos mais nocivos...
- Você está louco... O Capibaribe já esta agonizando, mas ainda é um dos maiores símbolos desta terra. Faça a fábrica em seu país. – Procurei demonstrar ao máximo uma indignação, que para ser sincero, sofri um pouco por não senti-la. Ele sorriu de uma maneira paciente, e não tardou em continuar:
- Nossa empresa atua em vários seguimentos internacionais. Pertence ao nosso grupo a empresa que transformou o rio que corta a Coréia do Sul. Que era um dos mais poluídos do mundo, e hoje famílias inteiras pescam nele. Em suas águas cristalinas. Nosso grupo não receberá o seu apóio de uma forma ingrata. Trago aqui, em caráter de última oferta, um milhão. Falo em dólar, não em reais. Ficarei na cidade ainda por três dias, no último tornarei a procura-lo afim de obter sua resposta. – Depois que me entregou seu cartão, apertou-me a mão como se tivesse me proposto o mais dignos de todos os negócios. Demonstrei o máximo de decepção que me foi possível. Chegando em casa, tratei de ligar logo ao meu tio, e marcar uma reunião para aquela mesma noite em meu apartamento, pois já há algum tempo não morava mais em sua casa. Logo meu tio estava comigo:
- O que houve? No telefone me pareceu agoniado.
- Hoje recebi uma... – Depois de escutar todo o meu relato, em todo os seus detalhes. Não tardou, com seu jeito paternal, em me aconselhar:
- Bata o martelo. Feche com eles e trate de todos os detalhes. Não pense duas vezes. Não pense nessas tolices de nascente. Pense no trabalho que isso vai gerar, na moradia, nos estudos dos filhos dos funcionários. Você deve saber que esses empreendimentos vem acompanhados de tudo isso. Isso é reeleição na certa. Tenha certeza, tenha certeza. – Me afirmou já com o rosto vermelho, o que acontecia sempre que se empolgava. – Sem falar de seu bolso, que é importante. Muito importante.
Não formei nenhuma opinião sobre os conselhos de meu tio. Era como se eu estivesse só, naquele momento. Por mais que ele vibrasse com toda aquela negociata. Naquela noite não dormi bem. Acho mesmo que nem cheguei a dormi. Não sei porque toda aquela questão tinha me deixado tão indeciso. Afinal seria sim ou não. Estava perturbado, e a velha idéia de suicídio, mais uma vez me veio como a solução de tudo.
Passados os três dias, Mr. Hudson...
Devo informar de onde conto toda essa historia. Estou no Dilido Hotel, inaugurado em dezembro de 2003. Depois de inúmeros atrasos e milhões de dólares gastos em obras. O prédio é uma jóia arquitetônica dos anos 50. Achei a sua aparência de um transatlântico, um pouco cafona, sua piscina não vale o caríssimo preço de sua diária. O melhor mesmo é seu bar a beira de South Beach, uma das praias de Miami. Aqui é o lugar do momento, os shows sensuais que acontecem à beira da piscina são sem iguais. As festas são disputadíssimas, com modelos com o corpo todo pintado, e outras com asas que chegam a três metros de larguras. Famosos e ricos por toda a parte. Esta praia fica naquele trecho famoso pelos predinhos Art Déco em tons pasteis que ficam os melhores hotéis, bares, restaurantes e boates de toda a Miami. Aqui tem celebridades por todos os lados. Já passaram por mim, Britney Spears, Matt Damon e Jennifer Lopez. Esta última dizem que até mora aqui. Miami por uma década saiu do circuito das grandes cidades mundiais. Mas agora voltou, e vive um de seus grandes momentos. As mulheres, maravilhosas. A hora certa de chegar as boates é por volta das onze. Nas mais famosas, Mynt e Privé. Nem todos podem entrar, a grande maioria são barrados. Para entrar dão preferência a famosos ou habitués. Privé as sextas, Mynt aos sábados, Nikki Beath e Pearl aos domingos.
Quanto à Mr. Hudson... Não resisti e o apoiei em seu projeto. Serei eu, o inimigo do povo? Não, se não fosse eu seria outro. Acreditem que o milhão que ganhei, foi o primeiro de muitos outros que o seguiram. Portanto...

primeiros dias de novembro de 2004
3c1m@uol.com.br

Brasília Formosa o Tempo Não Pára

Cássio Cavalcante
12:15h

- Aí meu irmão, agora a gente tem praia, gostei do pedaço.
- É. Eu também gostei. Aqui tá legal, pra o que era tá bom. O que você tem feito carteirinha?
- Tô numa boa, Daniel. O negócio agora é parceria com os homens. Você agora tá de responsa, trabalhando no shopping. E as minas.
- Faço faxina. Hoje é minha folga.Ontem tava na maior limpeza, veio um mauricinho e cuspiu no chão, só pra eu limpar de novo.
- Aí, moleque. Esses pra mim, eu meto bala, só vai assim. Tu tem que entrar na minha veio. Dona Zefa tua mãe, tá boazinha Daniel?
- Naquele aperto.
- Teu pai sumiu mesmo. A Dona Zefa teve de dá conta de tudo, não foi?
- A ultima noticia do velho foi em 89, ele tava em Macapá. Um irmão dele falou.
- É seu Dan, o veio foi longe, e pode ta vivo ou morto, ta sabendo?
- Tô.

13:15h

- Carteirinha, não vai dá pra eu pagar nenhuma dessas bramas. Tô na maior merda.
- Fica frio Daniel. Tu tá comigo, não tá sozinho. Hoje vou descolar, é jogo rápido vem comigo. Tu vai se dar bem, e sair dessa merda.
- Não dá pra mim não. Tô fora.
- Jogo rápido... Vai por mim. Eu tenho cobertura. Tu vai só pra esse, se tu se de bem, aí é tu quem sabe. Confia no Teu amigão, a gente se conhece não é de hoje.
- Sei não, sei não.
- Se tu tiver afim, me encontra no bar da pracinha aqui mesmo na Brasília. Te espero até nove.
- Não sei, não sei. O sol ta quente, vou lá.
- Tô só na espera.

14:15h

- Meu Deus. Meu Deus... Será que eu entro nessa, e se de merda. Mas essa lisera, eu não agüento mais. Meu Deus. Meu Deus...

15:15h

- Não vou pra casa agora. Vou pensar na proposta do Carteirinha...

16:15h

- Tô quase indo, tô quase indo. O carteirinha é bandido. O cara que cuspiu no chão pra eu limpar de novo. Era bom se fosse ele... Meu deus. Tô quase indo. Meu Deus...

17:15h

- Oi, mãe. Tem o que pra comer?
- Tem uns pedacinhos de galinha, com macaxeira. Macaxeira boa; bem molinha.
- A senhora tá boa?
- Tô meu fio. Ta preocupado com a mãe? Tá?
- Eu não agüento mais, tudo isso.
- Calma fio. O pouco com Deus é muito.
- Deus, Deus, Deus...

18:15h

- Droga, mãe. Televisão quebrada, o rádio também.
- Tá agoniado fio? Tá?

19:15h

- É. Eu vou...

20:15h

- Olha aí o cara, chegou cedo. Tava esperando as nove. Senti firmeza.
- Sei não. Sei não.
Fica frio seu Dam. Bebe uma brama já por conta. Que já, já. Tu vai tá pagando brama é pra todo mundo.
- Tô na maior duvida.
- Fica frio seu Dam. Olha eu aqui. Só na moral.

21:15h

- Que hora a gente vai?
- Fica frio...

22:15h

- Agora eu vou dá um tapinha no bagulho. Sabe como é. Tem que ficar na maior calma, mais também ligado. Vai querer?
- Não.Não.

23:15h

- Esse é teu, também por conta.
- Que revolver. Deve ser caro pra caramba. Mas não quero não.
- Tem de querer. Se o cara dá o bote, é tu ou ele.
- É. Tá bom.

00:15h

- Esse sinal aqui tá bom. Vai ser assim, eu vou no lado do motorista, e tu no do passageiro. Deixa que eu falo. Tu só fica de cara feia, apontando o revolver.
- Certo.

01:15h
- É esse aí. Agora vamo.
- Certo.
- Aí, passa a carteira e os celular. O dela também. Vai porra.
- Posso ficar com os documentos e...
- Cala a boca porra. Aqui quem diz sou eu. Vamo. Também os colar e os anel.

02:15h

- Aí, teve sorte. Quinhentinho na carteira do babaca. Vou te dar a metade, só pra encentivar. Vou passar os celular e as jóia, e depois te dou mais algum. A gente se vê moleque, depois na praça.
- Tudo isso! É o meu salário! A gente não passou nem meia hora.
- Isso é só o começo. Mas tu fica esperto, boca calada, não fala nem pra veia.
- Tá doido. Deus me livre que ela saiba.

03:15h

- Este carro é uma droga, Gaspar.
- Já viu a gente da policia com carro bom. Depois querem que a gente pegue o ladrão. Estas corroças é tudo igual, Almeida.
- Mas a gente tem que pegar, pra pegar o que é nosso também.
- A vítima tava com raiva, ele quer o cara hoje ainda.
- Tem idéia de quem foi?
- Nessa área e pela discrição. Só pode ser o Carteirinha.

04:15h

- Olha ele ali.
- Parado ai. Mão na cabeça e perna aberta.
- Tá pegando o cara errado. Eu não fiz nada.
- Assim mesmo vamos dá uma voltinha carteirinha.

05:15h

- Ai, não... Ai, não... Ai, ai...

06:15h

- Ai. Ai. Eu falo. Eu falo. Tá tudo com um mané novo. Ficou tudo com ele. O nome dele é Daniel. A gente combinou de se encontrar agora de manhã na praça, lá na Brasília, pra ele me da o meu.

07:15h

- Vamo lá agora. O homem já ligou de novo, Gaspar.
- Não. Primeiro vamos tomar um café. Ele que espere.

08:15h

- Quem é Daniel aqui?
- Ali. Ta fugindo. Mete bala Gaspar...

09:15h

- O que aconteceu aqui?
- A policia matou mais um.
- Quem era?
- Daniel, filho de Zefinha.
- Mas um menino Tão bom. Nilo, traz ai um jornal pra cobrir a cara dele.

10:15h

- Meu Deus. Meu Deus. Eu quero meu filho Nena. Eu quero meu filho.
- Calma comade Zefa. Calma.
- Meu filho. Eu nunca mais vou ver meu filho. Eu quero meu filho...

11:15h

- Soubesse que mataram o filho de Zefinha, Preta?
- Soube. Aquele menino nunca me enganou. Me disseram que já fazia um tempão que tava roubando, visse Dona Estrela.
- A policia quando pega, mata. Vô cuidar, Preta.


12:15h

- Aí meu irmão, agora a gente tem praia, gostei do pedaço.
- Tem cada cachorra boa, eu também to gostando.
- Aí, Zezinho. Teu pai morreu de que?
- De cana. Cirrose.
- O teu velho era chegado numa caninha. E aí?
- Tô saindo do colégio, nunca gostei mesmo. E agora que o veio empacoto, lá em casa a coisa ta preta.
- A gente tem que fazer e como eu. Tirar dinheiro desses merdas riquinhos. Olha eu aqui. Na maior moral. Tô cheio de dinheiro pra gastar com as cachorras. Se tu quiser eu te dou uma mão.
- Eu quero Carteirinha. Eu quero...


Dinheiro na mão é vendaval, é vendaval
Na vida de um sonhador, de um sonhador
Quanta gente aí se engana e cai da cama com toda
Ilusão que sonhou
E a grandeza se desfez quando a solidão é mais alguém
Já falou

Mas é preciso viver e viver é brincadeira não
Quando o jeito é se virar
Cada um trata de si irmão desconhece irmão

E aí dinheiro na mão é vendaval, dinheiro na mão é
Solidão
Que solidão

E aí dinheiro na mão é vendaval, dinheiro na mão é
Solidão

PECADO CAPITAL de Paulinho da Viola.



outubro de 2004
3c1m@uol.com.br

Aquele Beijo...

Cássio Cavalcante

Vinha do bairro da Boa Vista, estava na casa de amigos que iguais a ele, gostavam de varar as madrugadas em saraus cantando as modas daqueles tempos, ou mesmo vendo quem recitava a mais bela poesia. Acreditava está bêbado. Passando pela Ponte Velha, olhou para o rio, os reflexos dos sobrados da rua da Aurora, mal iluminados pelos lampiões, pareciam uma pintura sombria:
“O silencio reina, não escuta-se um galope de cavalo perdido.”
Aquela madrugada não estava muito fria, mas de vez em quando uma brisa soprava, tornando a sua jornada que seria longa até a rua da Praia mais agradável. Passando em frente a grande estação, espantou-se quando viu uma formosa cabocla, com uma rosa vermelha nos cabelos:
“O que uma mulher faz aqui uma hora desta? Naturalmente ela não há de querer que eu vá corteja-la. Só pode ser mulher dama.”
- O que tão bela figura faz aqui? O que procura?
- Bela... Já fui. Hoje...
- Foi, não é mais, porque?
- Isso só quem pode dizer depois é o senhor.
- Sou Mauricio Coelho ao seu dispor, qual é a sua graça?
- Pode me chamar pelo nome que preferir.
O casal seguiu até a rua Santa Rita velha. Chegando naquela rua de velhos sobrados pararam:
- Este pertence a uma senhora de má reputação, que em troca de uma generosa gorjeta, casais entre as quatro paredes de sua alcova, se entregavam aos prazeres mundanos. Minha conhecida de outros tempos.
“Hum! Trata-se de uma pequena decidida e com contatos preciosos.”
Depois do acontecido, um dos melhores de sua vida, o rapaz virou-se e contemplou a mulher. Para sua surpresa não encontrou o menor vestígio. A cama só estava desfeita no seu lado, do outro encontrou apenas uma rosa vermelha. Era como se tivesse dormido sozinho. Ao sair do antigo sobrado não encontrou ninguém, menos mal, assim não pagaria nada.
Na pensão da Rua da Praia, que tinha como maioria de seus hospedes estudantes da faculdade de Direito do Recife, todos tomam o café da manhã. Numa das mesas um jovem não parava de tossir:
- Pois foi isso que aconteceu amigo Geraldo.
- Os sarais estão te deixando maluco, é isso que penso.
- Antes meus saraus que o Rendez-vous que tu freqüentas, ainda vão te deixar tísico.
- Que nada, isso não me pega. – Recomeçou uma nova crise de tosse.
Por pura curiosidade, ao cair da tarde o jovem voltou à rua que esteve com a tal mulher. Uma surpresa, o sobrado que pensava ter estado na ultima madrugada não passava de um prédio velho em ruínas. Com as portas lacradas por tabuas. Em uma placa mal pintada, ali pendurada podia-se ler: VENDE-SE.
- Interessado? - Perguntou o vizinho, em uma cadeira de balanço na calçada.
- Não...
- Já faz alguns anos que se encontra neste estado. O ultimo que dormiu aí, já faz algum tempo, acordou no meio da noite com os olhos cheios de areia.Dizem que o desgraçado está correndo até hoje.
O jovem estudante sorriu e saiu em passos largos:
“Vejam só, devia estar muito embriagado para imaginar tamanho disparate.”
O tempo se passou, e com ele as lembranças daquele estranho acontecimento. Chegando na pensão Mauricio recebeu a má noticia. O amigo que realmente estava tísico, fazia um bom tempo, estava internado no sanatório. Havia falecido logo cedo, naquela manhã. A tarde no velório no Cemitério de Santo Amaro, muitos jovens, os pais do falecido, tristes, não saiam de perto do caixão.
Durante o sepultamento, um pássaro preto fez um vôo rasante na cabeça do estudante, em seguida pousando num tumulo perto dali. Aquilo chamou sua atenção, embora não soubesse de que pássaro se tratava, pois não entendia nada do assunto. Aproximou-se de onde a ave estava, e para seu espanto na lápide pintada em louça estava a foto da mulher com a flor no cabelo que conhecera em frente a estação. Avistou um velho com as roupas surradas pela lida, e com um cabo de enxada bem seguro em uma das mãos:
- Por favor... O senhor aí, pode vim até aqui? Este túmulo e de seu tempo?
- Então... Foi o maior confusão no tempo que eu ainda estava por aqui. Lindalva foi a maior meretriz de seu tempo. Foi morta pelo seu cafetão quando queria sair da vida.
“Lápides com retratos pintados em peça de louça, são um privilegio dos mais ricos e importantes.”
- Ela fez ricos e pobres muito feliz, não faltou quem lhe patrocinasse um bom funeral, com tudo que ela teve direito. É meu jovem, quem tem boas amizades tem tudo. Fique sabendo.
- O senhor parece que leu meu pensamento! Faz tempo que está por aqui?
- Eu? Já faz tempo que me fui.
- Onde se encontra agora?
- Ah... Isso eu posso dizer não senhor.
“Meu Deus. Me distanciei de todos, e nem me dei conta que o tempo passou. Já escureceu e estou aqui a falar sozinho...”


11.03.2004
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O Sorriso de Ligia

Cássio Cavalcante
Na varanda de um prédio de luxo, na beira-mar de Boa Viagem. Amigos nem todos abastados, se confraternizam em seu carnaval. Na avenida o Bloco da Parceria uma massa humana e colorida. A multidão de foliões sob o sol escaldante se entrega de corpo e alma ao reinado de Momo, como uma onda, seguem os trios. Roberto em seu ambiente, com cadeiras confortáveis, um cardápio regional ao seu dispor e para seus convidados. Ainda cansado do Baile Municipal, no dia anterior aquele Domingo. Ele olha para multidão abaixo e pensa:
Onde encontram tanta felicidade? Muitos não tem onde morar, nem o que comer! Vivem em um sub-mundo que o sistema criou e os aprisionou. Não sabem como será o amanhã, mas mesmo assim fazem o passo do frevo demonstrando uma alegria sem igual. Como conseguem!
- Doutor está chegando mais um carnaval, parece não está muito animado. Está com uma cara feia.
- Não é nada, e só mal humor da ressaca. Estou perplexo da felicidade desse povo. Uma alegria sem igual.
- São dois mundos separados e definidos, no asfalto um, aqui o outro. E te digo mais, é mais fácil um de nós descer para o mundo deles, do que um deles chegar ao nosso.
- Mas que idéia Pedro! Porque foi embora tão cedo ontem?
- Você quer dizer hoje, saí depois do show de Elba. Ontem me dei bem.
- O show de Elba foi bom, mas ela podia ter cantado mais.
- Vou beber alguma coisa, estou com a garganta seca.
Ele torna a prestar atenção no bloco. O rapaz é surpreendido com uma bela visão. Para ele uma morena se destaca na multidão. Fazendo do corpo um espetáculo à parte, dona de um belo par de pernas, que são apenas o começo do arrebatador conjunto que é a sua figura. Os seus olhos negros fazem par com o sorriso. O que o deixa desorientado.
Um gordinho de bermuda amarela e camisa estampada bate no ombro do anfitrião e dispara:
- Nosso carnaval não tem igual. Não tem carnaval no Rio de Janeiro ou na Bahia que se compare a Pernambuco. O nosso tem para todos os gostos, bailes, blocos, carnaval de rua. Olinda é um verdadeiro salão de baile a céu aberto. E o Recife Antigo agora já está firmado, sendo um dos melhores carnavais.
Notando que não estava sendo escutado, o falante se distanciou sorrindo como se tivesse escutado uma boa piada. Mas Roberto, ficou desesperado pois em meio ao grande bloco, perdera o sorriso que tanto o impressionara. Mas o sorriso agora estava no rosto que a pouco estava aflito, tornara a achar o que perdera. O bloco passou, deixando para traz uma avenida vazia e imunda. Hora daqueles que fazem de catar latas de alumínio a sua sobrevivência. No outro mundo hora da feijoada, nos primórdios era comida de escravo, agora a iguaria é servida nas mais finas mesas. Ninguém encontrava Roberto, todos perguntavam: Onde está Roberto? O procurado, se encontrava entregando-se as prazeres da carne, com a morena que pertencia ao outro mundo.
No Hospital o jovem médico fazia plantão, mas seus pensamentos só o levavam a lembrança do domingo passado. No dia seguinte faria sete dias que ele esteve com aquela mulher tão misteriosa, mas que o deixara muito perturbado e ansioso por um novo encontro. Nenhuma ligação, nenhum contato. E nem mesmo ele sabia o nome da dona de seus pensamentos:
- Quando a vejo de novo?
- Acho que não vai dar.
- Por que?
- Nossa realidade é diferente.
- Diferente nada. Nossa realidade é o que acabou de acontecer. Quero seu telefone.
- Não tenho.
- Nem para contato... E o seu endereço?
- Me deixe no terminal de Boa Viagem, e eu ficarei bem.
- Fique pelo menos com o meu telefone.
- É, pode ser.
Nesse momento levantou-se bruscamente, o que a deixou envergonhada, mesmo também estando como ele por baixo dos lençóis. Pegou sua carteira e tirou um cartão. Riscou as letra d e r que antecediam seu nome e a entregou.
- Doutor... Doutor...
- Pode falar.
- A paciente do 301 insiste que não lhe deram seu analgésico. Quer lhe falar com urgência – a enfermeira sorriu – imediatamente.
- Vamos até lá, talvez eu resolva.
A pequena mulher com sua roupa branca, foi na frente. O médico a seguiu logo depois.
A grande sala, que no sábado passado estava cheia e com muita alegria. Estava sombria, sem nenhum movimento. Cansado o médico passou, e foi direto para seu quarto. Mesmo muito cansado não conseguiu dormir logo. A fixação pouco a pouco estava tomando por completo os seus sentidos. Tão logo adormeceu, sonhou com o objeto de sua obsessão. No sonho entre sussurros e gemidos, ele inundava aquela inexplicável mulher com toda a sua paixão. Depois permaneciam abraçados, formando quase que um só corpo. O silencio do quarto foi perturbado pelo telefone que não parava de tocar:
- Alô...
- Roberto? É o Pedro.
- Pode falar...
- São nove horas, as dez o galo vai cantar. Todos já estão indo para o camarote.
- Onde é mesmo o camarote?
- Na praça Sérgio Loreto. Acorda.
- Certo. Daqui a pouco nos encontramos.
- A Paula vai.
- Que Paula?
- A Paulinha, a dentista, ela está na sua, é só chegar.
- Ah... Sei quem é.
- Acorda brother, acorda. O galo vai cantar.
No camarote, os amigos se encontram. Roberto olha para a multidão em sua volta, seria impossível encontra-la ali, só um milagre. Viu passar um casal fantasiado de bombeiro. O que chamou mais a sua atenção foi o Bin Laden segurando um pequeno avião inflável, acompanhado do presidente George Bush que trazia Saddan Hussein preso em uma coleira. Só uma visão surreal como aquela, o fez sorri, na sua angustiante busca. Carlos com sempre chega e vai logo falando:
- O carnaval é a única festa que une o rico e o pobre nessa concórdia que Momo proporciona.
- Quem?
- O Rei Momo
- Ah... O Rei...
Junto com os trios do Galo da madrugada o tempo também passou:
- A Paulinha já foi, saiu chateada.
- Acho que eu também vou Pedro, já está na minha hora.
- Você deve saber o que faz. Amanhã tem Papangu, e você vai.
- Certo. Amanhã a gente se encontra em Bezerros.
O belo dia de sol que fez em Bezerros, tornou ainda mais reluzentes as máscaras nos postes de todo o centro da pequena cidade, e também os mascarados que correm em todas as direções:
- Aí, isso aqui a cada ano fica melhor.
- É Pedro, isso aqui me lembra os nossos tempos de Olinda, quando a gente alugava sempre aquela mesma casa. A farra era boa, lembra?
- Claro, tempos bons, e melhores virão.
- Olha lá Roberto. Lá vem o chato do Carlos.
- Deixa ele.
- Vocês sabem como tudo isso começou?
- Eu não. E você Roberto, sabe?
- Não, mas diga Carlos, você que te todos nos é o único que sabe essas coisas.
- No inicio as turmas de mascarados invadiam as casas de conhecidos, familiares e amigos, eram recebidos e lhe ofereciam angu de milho. Logo ficaram conhecidos como papa-angus, surgindo assim os Papangus.
- A conversa está boa, mas já vou indo.
- Não são nem quatro da tarde. Já reservei duas mesas no Arsenal, aquele bar na esquina da rua Bom Jesus. Amanhã o QG e no Recife Antigo.
- Certo Pedro, amanhã a gente se fala lá. E quanto a você , professor da historia do carnaval, também vá até lá.
- Irei, mas não sei muito da história do carnaval do Recife Antigo!
Vendo que Felipe já ia. Paula se aproxima:
- Você me dá uma carona? Vim com a Sonia, mas ela sumiu.
- Claro. Então Vamos.
Chegando ao apartamento da dentista, aconteceu o inevitável. O médico não foi muito honesto com ela. Foi apenas o seu corpo que ela possuiu, pois na sua cabeça, só havia um sorriso que não saia das suas lembranças.
No Recife Antigo:
- Você sabe do Jairo?
- Brother, ele disse que ainda não chegou a hora de trocar Olinda por isso aqui.
- Estou querendo falar com ele.
- Mas me conta, o que aconteceu ontem?
- Aconteceu o que ela queria.
- E você não?
- Eu também tenho que querer, se não fica ruim de acontecer.
- Ela não deve ter gostado muito do que você fez, ainda não apareceu por aqui hoje.
O amigo sorri. Mas nesse momento surge Paula, que chega ate Roberto e o beija:
- Do que vocês dois estavam falando?
- Dos blocos. Respondeu o curioso.
Surgem dois, saindo da rua Bom Jesus e seguindo para a praça do Arsenal. O primeiro foi o Bloco das Flores:
- Esse aí foi fundado em 1920. – Gritou Carlos.
O segundo foi o Bloco da Saudade, que cantava junto com a multidão que o cercava e o seguia:

E se aqui estamos, cantando esta canção
Viemos defender a nossa tradição
E dizer bem alto que a injustiça dói
Nos somos madeira de lei que cupim não rói.

Nas mesas alguns levantavam e seguiam os blocos. Os que ficavam dançavam de acordo com a cadencia das melodias cantadas. E ainda tinha os que se beijavam apaixonadamente.
O celular de Paula toca:
- Vou ter que ir, depois que inventaram esse plantão lá na clinica, só sobra pra mim. E você rapaz, vê se liga, estou esperando.
- Vou ligar.
Quarta-feira de cinzas. Roberto chega em casa depois de mais um plantão, vai para o escritório. Sempre se sente bem sentando naquele lugar que foi de seu pai. Na televisão o Jornal Nacional dá as ultimas notícias de um carnaval que já passou. Mas ele não presta atenção, a fixação que lhe acompanhou por todo o carnaval, já o está irritando.
Cordulina, uma mulher de meia idade, mais ainda forte e robusta, fazia pouco tempo que servia aquela família. Uma tia avó de Roberto havia falecido, e ela havia ficado sem patroa e sem emprego. As dificuldades de empregados nos dias de hoje a levaram para aquele apartamento. Vendo a luz que saia da porta entreaberta, ela bate na porta:
- Pode entrar.
- O doutor quer alguma coisa?
- Sim, um café bem forte.
- O doutor se importa se a minha filha lhe servi. Ela veio me vê, e tá me ajudando.
- Faça como achar melhor.
- Aproveito e vou vê se a mãe do doutor quer alguma coisa.
A empregada se retira, e ele liga para o amigo Psiquiatra:
- Jairo?
- Grande Roberto, abandonou Olinda de vez?
- Sabe como o Pedro é, acaba levando todo mundo para onde ele quer. Mas me conte como foi.
- Tenho que dá uma brecada no ano que vem, a loucura foi tão grande que não me lembro de quase nada.
- Eu não ando nada bem, passei o carnaval todo pensando em uma mulher que não sei nem o nome. Estou sentindo que isso já esta me fazendo mal. É um fato que está tirando a minha concentração e já está atrapalhando minha vida.
- Passa no meu consultório amanhã no final do expediente e a gente conversa.
Batem na porta:
- Um momento, Jairo. Pode entrar.
A porta se abre e Roberto não acredita no que vê. A razão de suas angustias, que lhe tiraram a empolgação de todo o carnaval. Estava em pé à sua frente segurando uma bandeja:
- Oi. Lembra de mim? Eu sou a Ligia, filha da Cordulina.
Perplexo Roberto, não sabia o que dizer.
- Alô... Roberto, alô...

Quarta-feira de Cinzas de 2004.
Cassiocavalcante21@uol.com.br

O Desejo de Camila

Cássio Cavalcante

Deitada na cama Camila relaxa, mais um dia que passou. O fio de voz de Nara Leão cantando a musica Insensatez, torna o ambiente daquele quarto ainda mais tranqüilo e acolhedor. Todo essa paz é interrompida por uma súbita sede. Ela passa pelo corredor, chegando até a sala. A escuridão não é completa, existe a meia luz de um abajur. Na parede, ela nota um quadro meio torto, aproxima-se para corrigir o erro que achou. Nesse momento lembra a conversa que teve com uma amiga pela manhã:
- Você é muito certinha.
- Não sou certinha, gosto de tudo no seu devido lugar.
- Mas é chato tudo arrumado.
- Não é chato, é prático, facilita a vida.
- E quando você sai daquela casa?
- Você sabe que não gosto de apartamentos.
- Mas apartamentos não são práticos?
- A visão que eu tenho de um prédio de apartamento, é de várias pessoas desconhecidas morando em uma mesma casa, separadas apenas por paredes. Me sinto muito bem e segura em minha casa, nunca me aconteceu nada de mal em todos esses anos.
Depois de certifica-se que o quadro está em harmonia com os outros, segue para cozinha, um pouco iluminada pelos vestígios de luz que chegam da sala, ela abre a geladeira. Parece vê um vulto, olha novamente para certificar-se, e se depara com um homem.
- Quem é você? O que quer aqui? Vá embora.
O intruso leva o dedo a boca, fazendo um sinal para ela calar. Na escuridão, a luz da geladeira aberta reflete na camisola transparente, deixando a mostra sutilmente as curvas do belo corpo daquela mulher. Que estranhamente não se encontra com medo diante daquela situação. Uma estranha troca de olhares acontece entre a dona da casa e o invasor. Foi como se selassem um pacto de desejo mútuo e cumplicidade. Deitados no chão não se despiram, fizeram amor ali mesmo. O homem que sentira uma atração imediata pelo que lhe pareceu ser a mais perfeita e tão próxima mulher que já encontrara. Sem palavras fez dela umas das fêmeas mais realizadas. Tudo foi muito rápido, mas para ambos cada segundo que se passou foram pedaços de uma eternidade sem igual. Será uma forte lembrança de suas vidas que jamais esquecerão.
De repente ele levanta-se oscilando entre a realização e a vergonha. Toda a sua vida passou em sua cabeça, como um filme rápido. Todas as mulheres que já teve em sua vida de marginal. Não sabia por que tinha agido daquele jeito com aquela. Não era seu costume tratar tão bem uma mulher. Então saiu rápido daquela casa como entrou, e sumiu na escuridão. A razão dos conflitos que perturbaram a cabeça daquele ser excluído que sumiu no escuro, encontrava-se ainda deitada no chão de sua cozinha sem acreditar no que lhe havia acontecido.
Mais um dia se passou. A mulher que teve sua casa invadida, nada fez nesse sentido. Encontrava-se deitada em sua confortável cama, coberta de lembranças, que não sabia se queria esquecer, ou guarda-las em sua mente como um bem precioso. No outro lado da cidade o desejo de Camila, em uma rua escura abordava um pedestre batendo com o seu revólver no ombro:
- Aí veio, passar a carteira e o celular.
- Que, que, que é isso rapaz?


04.02.2004
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Os Cabelos de Sofia

Cássio Cavalcante

Caio, estava dentro de seu carro, aguardava o sinal abrir. Olhava sempre os carros em sua volta. Em um, uma mulher passava batom, em outro um jovem escutava uma música que parecia animada, em um carro mais na frente um homem acendia um cigarro. Caio, era o que se podia chamar de realizado, tinha muitos amigos, muitas mulheres, um bom carro. Mas a impaciência e o vazio, sentimentos esses que se tornaram seus velhos conhecidos, e não o deixavam nunca. Mas nem sempre foi assim, ele não teve no início uma vida das melhores. Filho de pais separados, deveria ter dois ou três anos quando aconteceu a separação de seus pais, e desde então não passou a ter mais contato com seu pai. Vindo de colégios públicos, mas sempre sendo o primeiro em suas turmas, foi fácil conseguir o seu “lugar ao sol”. Passando por uma universidade com perseverança, depois um concurso e mais um primeiro lugar, e um excelente emprego.
Sinal verde, Caio dá a partida, mas se assusta com um barulho e para em seguida. Não acredita, na frente de seu carro uma mulher caída. Perplexo, sai do carro imediatamente. Ao se aproximar da mulher ainda caída, ele admira os cabelos de sua vítima. Uns cabelos de um louro que somado aos reflexos de um sol escaldante, resultavam nos mais belos cabelos de uma mulher que ele já havia visto em toda a sua vida. Aqueles cabelos molduravam o rosto belo e atraente da jovem Sofia. Que por sorte, não sofreu nada mais grave, somente algumas escoriações. Caio sentiu-se invadido pelo frio que inunda o nosso interior, que mais parece água gelada a molhar o nosso íntimo. Aquele que só sentimos quando a atração pela outra pessoa é das mais fortes e arrebatadoras. Ele pergunta entre a adoração e a preocupação:
- Você está bem?
Sofia responde meio atordoada:
- Acho que sim.
Ele então sorrio, o mais tranqüilo dos sorrisos.
Cinco anos se passaram, Caio encontra-se no mesmo sinal fechado. Ele agora não olha mais os carros em sua volta. Dentro de seu carro ele contempla Sofia, que sentada a seu lado, é sua mulher. No banco detrás duas crianças brincam, seus filhos. Caio não procura mais, agora ele tem. O sinal abriu, Caio se vai não mais acompanhado pela impaciência e o vazio, mas sim pelos cabelos de Sofia.


29/01/2004
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