Aquele Beijo...
Cássio Cavalcante
Vinha do bairro da Boa Vista, estava na casa de amigos que iguais a ele, gostavam de varar as madrugadas em saraus cantando as modas daqueles tempos, ou mesmo vendo quem recitava a mais bela poesia. Acreditava está bêbado. Passando pela Ponte Velha, olhou para o rio, os reflexos dos sobrados da rua da Aurora, mal iluminados pelos lampiões, pareciam uma pintura sombria:
“O silencio reina, não escuta-se um galope de cavalo perdido.”
Aquela madrugada não estava muito fria, mas de vez em quando uma brisa soprava, tornando a sua jornada que seria longa até a rua da Praia mais agradável. Passando em frente a grande estação, espantou-se quando viu uma formosa cabocla, com uma rosa vermelha nos cabelos:
“O que uma mulher faz aqui uma hora desta? Naturalmente ela não há de querer que eu vá corteja-la. Só pode ser mulher dama.”
- O que tão bela figura faz aqui? O que procura?
- Bela... Já fui. Hoje...
- Foi, não é mais, porque?
- Isso só quem pode dizer depois é o senhor.
- Sou Mauricio Coelho ao seu dispor, qual é a sua graça?
- Pode me chamar pelo nome que preferir.
O casal seguiu até a rua Santa Rita velha. Chegando naquela rua de velhos sobrados pararam:
- Este pertence a uma senhora de má reputação, que em troca de uma generosa gorjeta, casais entre as quatro paredes de sua alcova, se entregavam aos prazeres mundanos. Minha conhecida de outros tempos.
“Hum! Trata-se de uma pequena decidida e com contatos preciosos.”
Depois do acontecido, um dos melhores de sua vida, o rapaz virou-se e contemplou a mulher. Para sua surpresa não encontrou o menor vestígio. A cama só estava desfeita no seu lado, do outro encontrou apenas uma rosa vermelha. Era como se tivesse dormido sozinho. Ao sair do antigo sobrado não encontrou ninguém, menos mal, assim não pagaria nada.
Na pensão da Rua da Praia, que tinha como maioria de seus hospedes estudantes da faculdade de Direito do Recife, todos tomam o café da manhã. Numa das mesas um jovem não parava de tossir:
- Pois foi isso que aconteceu amigo Geraldo.
- Os sarais estão te deixando maluco, é isso que penso.
- Antes meus saraus que o Rendez-vous que tu freqüentas, ainda vão te deixar tísico.
- Que nada, isso não me pega. – Recomeçou uma nova crise de tosse.
Por pura curiosidade, ao cair da tarde o jovem voltou à rua que esteve com a tal mulher. Uma surpresa, o sobrado que pensava ter estado na ultima madrugada não passava de um prédio velho em ruínas. Com as portas lacradas por tabuas. Em uma placa mal pintada, ali pendurada podia-se ler: VENDE-SE.
- Interessado? - Perguntou o vizinho, em uma cadeira de balanço na calçada.
- Não...
- Já faz alguns anos que se encontra neste estado. O ultimo que dormiu aí, já faz algum tempo, acordou no meio da noite com os olhos cheios de areia.Dizem que o desgraçado está correndo até hoje.
O jovem estudante sorriu e saiu em passos largos:
“Vejam só, devia estar muito embriagado para imaginar tamanho disparate.”
O tempo se passou, e com ele as lembranças daquele estranho acontecimento. Chegando na pensão Mauricio recebeu a má noticia. O amigo que realmente estava tísico, fazia um bom tempo, estava internado no sanatório. Havia falecido logo cedo, naquela manhã. A tarde no velório no Cemitério de Santo Amaro, muitos jovens, os pais do falecido, tristes, não saiam de perto do caixão.
Durante o sepultamento, um pássaro preto fez um vôo rasante na cabeça do estudante, em seguida pousando num tumulo perto dali. Aquilo chamou sua atenção, embora não soubesse de que pássaro se tratava, pois não entendia nada do assunto. Aproximou-se de onde a ave estava, e para seu espanto na lápide pintada em louça estava a foto da mulher com a flor no cabelo que conhecera em frente a estação. Avistou um velho com as roupas surradas pela lida, e com um cabo de enxada bem seguro em uma das mãos:
- Por favor... O senhor aí, pode vim até aqui? Este túmulo e de seu tempo?
- Então... Foi o maior confusão no tempo que eu ainda estava por aqui. Lindalva foi a maior meretriz de seu tempo. Foi morta pelo seu cafetão quando queria sair da vida.
“Lápides com retratos pintados em peça de louça, são um privilegio dos mais ricos e importantes.”
- Ela fez ricos e pobres muito feliz, não faltou quem lhe patrocinasse um bom funeral, com tudo que ela teve direito. É meu jovem, quem tem boas amizades tem tudo. Fique sabendo.
- O senhor parece que leu meu pensamento! Faz tempo que está por aqui?
- Eu? Já faz tempo que me fui.
- Onde se encontra agora?
- Ah... Isso eu posso dizer não senhor.
“Meu Deus. Me distanciei de todos, e nem me dei conta que o tempo passou. Já escureceu e estou aqui a falar sozinho...”
11.03.2004
3c1m@uol.com.br
Vinha do bairro da Boa Vista, estava na casa de amigos que iguais a ele, gostavam de varar as madrugadas em saraus cantando as modas daqueles tempos, ou mesmo vendo quem recitava a mais bela poesia. Acreditava está bêbado. Passando pela Ponte Velha, olhou para o rio, os reflexos dos sobrados da rua da Aurora, mal iluminados pelos lampiões, pareciam uma pintura sombria:
“O silencio reina, não escuta-se um galope de cavalo perdido.”
Aquela madrugada não estava muito fria, mas de vez em quando uma brisa soprava, tornando a sua jornada que seria longa até a rua da Praia mais agradável. Passando em frente a grande estação, espantou-se quando viu uma formosa cabocla, com uma rosa vermelha nos cabelos:
“O que uma mulher faz aqui uma hora desta? Naturalmente ela não há de querer que eu vá corteja-la. Só pode ser mulher dama.”
- O que tão bela figura faz aqui? O que procura?
- Bela... Já fui. Hoje...
- Foi, não é mais, porque?
- Isso só quem pode dizer depois é o senhor.
- Sou Mauricio Coelho ao seu dispor, qual é a sua graça?
- Pode me chamar pelo nome que preferir.
O casal seguiu até a rua Santa Rita velha. Chegando naquela rua de velhos sobrados pararam:
- Este pertence a uma senhora de má reputação, que em troca de uma generosa gorjeta, casais entre as quatro paredes de sua alcova, se entregavam aos prazeres mundanos. Minha conhecida de outros tempos.
“Hum! Trata-se de uma pequena decidida e com contatos preciosos.”
Depois do acontecido, um dos melhores de sua vida, o rapaz virou-se e contemplou a mulher. Para sua surpresa não encontrou o menor vestígio. A cama só estava desfeita no seu lado, do outro encontrou apenas uma rosa vermelha. Era como se tivesse dormido sozinho. Ao sair do antigo sobrado não encontrou ninguém, menos mal, assim não pagaria nada.
Na pensão da Rua da Praia, que tinha como maioria de seus hospedes estudantes da faculdade de Direito do Recife, todos tomam o café da manhã. Numa das mesas um jovem não parava de tossir:
- Pois foi isso que aconteceu amigo Geraldo.
- Os sarais estão te deixando maluco, é isso que penso.
- Antes meus saraus que o Rendez-vous que tu freqüentas, ainda vão te deixar tísico.
- Que nada, isso não me pega. – Recomeçou uma nova crise de tosse.
Por pura curiosidade, ao cair da tarde o jovem voltou à rua que esteve com a tal mulher. Uma surpresa, o sobrado que pensava ter estado na ultima madrugada não passava de um prédio velho em ruínas. Com as portas lacradas por tabuas. Em uma placa mal pintada, ali pendurada podia-se ler: VENDE-SE.
- Interessado? - Perguntou o vizinho, em uma cadeira de balanço na calçada.
- Não...
- Já faz alguns anos que se encontra neste estado. O ultimo que dormiu aí, já faz algum tempo, acordou no meio da noite com os olhos cheios de areia.Dizem que o desgraçado está correndo até hoje.
O jovem estudante sorriu e saiu em passos largos:
“Vejam só, devia estar muito embriagado para imaginar tamanho disparate.”
O tempo se passou, e com ele as lembranças daquele estranho acontecimento. Chegando na pensão Mauricio recebeu a má noticia. O amigo que realmente estava tísico, fazia um bom tempo, estava internado no sanatório. Havia falecido logo cedo, naquela manhã. A tarde no velório no Cemitério de Santo Amaro, muitos jovens, os pais do falecido, tristes, não saiam de perto do caixão.
Durante o sepultamento, um pássaro preto fez um vôo rasante na cabeça do estudante, em seguida pousando num tumulo perto dali. Aquilo chamou sua atenção, embora não soubesse de que pássaro se tratava, pois não entendia nada do assunto. Aproximou-se de onde a ave estava, e para seu espanto na lápide pintada em louça estava a foto da mulher com a flor no cabelo que conhecera em frente a estação. Avistou um velho com as roupas surradas pela lida, e com um cabo de enxada bem seguro em uma das mãos:
- Por favor... O senhor aí, pode vim até aqui? Este túmulo e de seu tempo?
- Então... Foi o maior confusão no tempo que eu ainda estava por aqui. Lindalva foi a maior meretriz de seu tempo. Foi morta pelo seu cafetão quando queria sair da vida.
“Lápides com retratos pintados em peça de louça, são um privilegio dos mais ricos e importantes.”
- Ela fez ricos e pobres muito feliz, não faltou quem lhe patrocinasse um bom funeral, com tudo que ela teve direito. É meu jovem, quem tem boas amizades tem tudo. Fique sabendo.
- O senhor parece que leu meu pensamento! Faz tempo que está por aqui?
- Eu? Já faz tempo que me fui.
- Onde se encontra agora?
- Ah... Isso eu posso dizer não senhor.
“Meu Deus. Me distanciei de todos, e nem me dei conta que o tempo passou. Já escureceu e estou aqui a falar sozinho...”
11.03.2004
3c1m@uol.com.br


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