Tuesday, October 31, 2006

Brasília Formosa o Tempo Não Pára

Cássio Cavalcante
12:15h

- Aí meu irmão, agora a gente tem praia, gostei do pedaço.
- É. Eu também gostei. Aqui tá legal, pra o que era tá bom. O que você tem feito carteirinha?
- Tô numa boa, Daniel. O negócio agora é parceria com os homens. Você agora tá de responsa, trabalhando no shopping. E as minas.
- Faço faxina. Hoje é minha folga.Ontem tava na maior limpeza, veio um mauricinho e cuspiu no chão, só pra eu limpar de novo.
- Aí, moleque. Esses pra mim, eu meto bala, só vai assim. Tu tem que entrar na minha veio. Dona Zefa tua mãe, tá boazinha Daniel?
- Naquele aperto.
- Teu pai sumiu mesmo. A Dona Zefa teve de dá conta de tudo, não foi?
- A ultima noticia do velho foi em 89, ele tava em Macapá. Um irmão dele falou.
- É seu Dan, o veio foi longe, e pode ta vivo ou morto, ta sabendo?
- Tô.

13:15h

- Carteirinha, não vai dá pra eu pagar nenhuma dessas bramas. Tô na maior merda.
- Fica frio Daniel. Tu tá comigo, não tá sozinho. Hoje vou descolar, é jogo rápido vem comigo. Tu vai se dar bem, e sair dessa merda.
- Não dá pra mim não. Tô fora.
- Jogo rápido... Vai por mim. Eu tenho cobertura. Tu vai só pra esse, se tu se de bem, aí é tu quem sabe. Confia no Teu amigão, a gente se conhece não é de hoje.
- Sei não, sei não.
- Se tu tiver afim, me encontra no bar da pracinha aqui mesmo na Brasília. Te espero até nove.
- Não sei, não sei. O sol ta quente, vou lá.
- Tô só na espera.

14:15h

- Meu Deus. Meu Deus... Será que eu entro nessa, e se de merda. Mas essa lisera, eu não agüento mais. Meu Deus. Meu Deus...

15:15h

- Não vou pra casa agora. Vou pensar na proposta do Carteirinha...

16:15h

- Tô quase indo, tô quase indo. O carteirinha é bandido. O cara que cuspiu no chão pra eu limpar de novo. Era bom se fosse ele... Meu deus. Tô quase indo. Meu Deus...

17:15h

- Oi, mãe. Tem o que pra comer?
- Tem uns pedacinhos de galinha, com macaxeira. Macaxeira boa; bem molinha.
- A senhora tá boa?
- Tô meu fio. Ta preocupado com a mãe? Tá?
- Eu não agüento mais, tudo isso.
- Calma fio. O pouco com Deus é muito.
- Deus, Deus, Deus...

18:15h

- Droga, mãe. Televisão quebrada, o rádio também.
- Tá agoniado fio? Tá?

19:15h

- É. Eu vou...

20:15h

- Olha aí o cara, chegou cedo. Tava esperando as nove. Senti firmeza.
- Sei não. Sei não.
Fica frio seu Dam. Bebe uma brama já por conta. Que já, já. Tu vai tá pagando brama é pra todo mundo.
- Tô na maior duvida.
- Fica frio seu Dam. Olha eu aqui. Só na moral.

21:15h

- Que hora a gente vai?
- Fica frio...

22:15h

- Agora eu vou dá um tapinha no bagulho. Sabe como é. Tem que ficar na maior calma, mais também ligado. Vai querer?
- Não.Não.

23:15h

- Esse é teu, também por conta.
- Que revolver. Deve ser caro pra caramba. Mas não quero não.
- Tem de querer. Se o cara dá o bote, é tu ou ele.
- É. Tá bom.

00:15h

- Esse sinal aqui tá bom. Vai ser assim, eu vou no lado do motorista, e tu no do passageiro. Deixa que eu falo. Tu só fica de cara feia, apontando o revolver.
- Certo.

01:15h
- É esse aí. Agora vamo.
- Certo.
- Aí, passa a carteira e os celular. O dela também. Vai porra.
- Posso ficar com os documentos e...
- Cala a boca porra. Aqui quem diz sou eu. Vamo. Também os colar e os anel.

02:15h

- Aí, teve sorte. Quinhentinho na carteira do babaca. Vou te dar a metade, só pra encentivar. Vou passar os celular e as jóia, e depois te dou mais algum. A gente se vê moleque, depois na praça.
- Tudo isso! É o meu salário! A gente não passou nem meia hora.
- Isso é só o começo. Mas tu fica esperto, boca calada, não fala nem pra veia.
- Tá doido. Deus me livre que ela saiba.

03:15h

- Este carro é uma droga, Gaspar.
- Já viu a gente da policia com carro bom. Depois querem que a gente pegue o ladrão. Estas corroças é tudo igual, Almeida.
- Mas a gente tem que pegar, pra pegar o que é nosso também.
- A vítima tava com raiva, ele quer o cara hoje ainda.
- Tem idéia de quem foi?
- Nessa área e pela discrição. Só pode ser o Carteirinha.

04:15h

- Olha ele ali.
- Parado ai. Mão na cabeça e perna aberta.
- Tá pegando o cara errado. Eu não fiz nada.
- Assim mesmo vamos dá uma voltinha carteirinha.

05:15h

- Ai, não... Ai, não... Ai, ai...

06:15h

- Ai. Ai. Eu falo. Eu falo. Tá tudo com um mané novo. Ficou tudo com ele. O nome dele é Daniel. A gente combinou de se encontrar agora de manhã na praça, lá na Brasília, pra ele me da o meu.

07:15h

- Vamo lá agora. O homem já ligou de novo, Gaspar.
- Não. Primeiro vamos tomar um café. Ele que espere.

08:15h

- Quem é Daniel aqui?
- Ali. Ta fugindo. Mete bala Gaspar...

09:15h

- O que aconteceu aqui?
- A policia matou mais um.
- Quem era?
- Daniel, filho de Zefinha.
- Mas um menino Tão bom. Nilo, traz ai um jornal pra cobrir a cara dele.

10:15h

- Meu Deus. Meu Deus. Eu quero meu filho Nena. Eu quero meu filho.
- Calma comade Zefa. Calma.
- Meu filho. Eu nunca mais vou ver meu filho. Eu quero meu filho...

11:15h

- Soubesse que mataram o filho de Zefinha, Preta?
- Soube. Aquele menino nunca me enganou. Me disseram que já fazia um tempão que tava roubando, visse Dona Estrela.
- A policia quando pega, mata. Vô cuidar, Preta.


12:15h

- Aí meu irmão, agora a gente tem praia, gostei do pedaço.
- Tem cada cachorra boa, eu também to gostando.
- Aí, Zezinho. Teu pai morreu de que?
- De cana. Cirrose.
- O teu velho era chegado numa caninha. E aí?
- Tô saindo do colégio, nunca gostei mesmo. E agora que o veio empacoto, lá em casa a coisa ta preta.
- A gente tem que fazer e como eu. Tirar dinheiro desses merdas riquinhos. Olha eu aqui. Na maior moral. Tô cheio de dinheiro pra gastar com as cachorras. Se tu quiser eu te dou uma mão.
- Eu quero Carteirinha. Eu quero...


Dinheiro na mão é vendaval, é vendaval
Na vida de um sonhador, de um sonhador
Quanta gente aí se engana e cai da cama com toda
Ilusão que sonhou
E a grandeza se desfez quando a solidão é mais alguém
Já falou

Mas é preciso viver e viver é brincadeira não
Quando o jeito é se virar
Cada um trata de si irmão desconhece irmão

E aí dinheiro na mão é vendaval, dinheiro na mão é
Solidão
Que solidão

E aí dinheiro na mão é vendaval, dinheiro na mão é
Solidão

PECADO CAPITAL de Paulinho da Viola.



outubro de 2004
3c1m@uol.com.br

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