Tuesday, October 31, 2006

Os Cabelos de Sofia

Cássio Cavalcante

Caio, estava dentro de seu carro, aguardava o sinal abrir. Olhava sempre os carros em sua volta. Em um, uma mulher passava batom, em outro um jovem escutava uma música que parecia animada, em um carro mais na frente um homem acendia um cigarro. Caio, era o que se podia chamar de realizado, tinha muitos amigos, muitas mulheres, um bom carro. Mas a impaciência e o vazio, sentimentos esses que se tornaram seus velhos conhecidos, e não o deixavam nunca. Mas nem sempre foi assim, ele não teve no início uma vida das melhores. Filho de pais separados, deveria ter dois ou três anos quando aconteceu a separação de seus pais, e desde então não passou a ter mais contato com seu pai. Vindo de colégios públicos, mas sempre sendo o primeiro em suas turmas, foi fácil conseguir o seu “lugar ao sol”. Passando por uma universidade com perseverança, depois um concurso e mais um primeiro lugar, e um excelente emprego.
Sinal verde, Caio dá a partida, mas se assusta com um barulho e para em seguida. Não acredita, na frente de seu carro uma mulher caída. Perplexo, sai do carro imediatamente. Ao se aproximar da mulher ainda caída, ele admira os cabelos de sua vítima. Uns cabelos de um louro que somado aos reflexos de um sol escaldante, resultavam nos mais belos cabelos de uma mulher que ele já havia visto em toda a sua vida. Aqueles cabelos molduravam o rosto belo e atraente da jovem Sofia. Que por sorte, não sofreu nada mais grave, somente algumas escoriações. Caio sentiu-se invadido pelo frio que inunda o nosso interior, que mais parece água gelada a molhar o nosso íntimo. Aquele que só sentimos quando a atração pela outra pessoa é das mais fortes e arrebatadoras. Ele pergunta entre a adoração e a preocupação:
- Você está bem?
Sofia responde meio atordoada:
- Acho que sim.
Ele então sorrio, o mais tranqüilo dos sorrisos.
Cinco anos se passaram, Caio encontra-se no mesmo sinal fechado. Ele agora não olha mais os carros em sua volta. Dentro de seu carro ele contempla Sofia, que sentada a seu lado, é sua mulher. No banco detrás duas crianças brincam, seus filhos. Caio não procura mais, agora ele tem. O sinal abriu, Caio se vai não mais acompanhado pela impaciência e o vazio, mas sim pelos cabelos de Sofia.


29/01/2004
3c1m@uol.com.br

1 Comments:

Anonymous Milu said...

Cassio, adorei as coisas que você escreve.A gente já se conhece há tempos e só agora estou tendo a chance de ler e me maravilhei.Parabéns, sucesso pra você!
beijos
Milu

18/1/08 19:19  

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