Cilada do Destino
Cássio Cavalcante
Augusto era bem nascido, bem relacionado e estava bem financeiramente. Depois do trabalho nunca ia para casa. Sempre passava no clube, ou em algum bar da moda. Entre amigos, gostava muito de fazer discursos:
- Pra mim, esses tais de cheira cola tinham era de morrer. Fazia-se um grande buraco, colocava todos dentro e queimava-os com óleo diesel. São incorrigíveis. Um verdadeiro câncer social.
- Para com isso, eu heim!
- Para com isso o que? Vou te dizer uma verdade Leonardo, manter essas coisas e criar cobra pra nos matar. São os futuros ladrões que vão entrar nas nossas casas e nos saquear. Se já não entraram.
- Muitos tem a idade do teu filho.
- Você tá louco? Comparar meu filhão com essa sub-raça. Já me basta à orientadora do colégio que eu pago uma fortuna, me disse que meu filho estava se tornando um problema. Só porque o garoto brigou, deu uns morros no colega que tava mexendo com ele. Foi descoberto matando aula. Quem nunca fez isso? Eu mesmo fiz muito, e hoje não sou nenhuma ameaça para a sociedade. Até maconha eu fumei, coisa de adolescente, depois passa.
- Você é quem sabe...
- Se eu pegar um sacana desses cheira cola na minha frente meto bala, e não nem olho pra trás.
- Teu filho já andou com esse negócio de droga?
- Sim, mas já passou. Coisa da idade mesmo, já passou.
- Deixa eu ir, minha sogra vai jantar hoje lá em casa, se eu me atrasar a mulher me mata.
- Já vou também. Da um beijinho na sogrinha.
- Daquela eu quero é distância, só aturo por que gosto muito da Silvia...
Era uma noite quente, típica noite recifense. Dentro do carro, o clima era bem mais ameno. Augusto escutava um cd de jazz. O congestionamento era menor devido ao horário, os carros ainda passavam lentos pela avenida mal iluminada. O sinal fecha e todos param impacientemente. Ele escuta um barulho. Assusta-se ao ver um vulto bater no vidro da janela do carro pedindo sua carteira. Faz um sinal que vai pegar. Baixa o vidro e da três tiros a queima roupa. O elemento cai em seguida a se debater. Em pouco tempo não passa de mais um corpo em uma avenida de uma grande cidade. A confusão se forma, todos saem dos carros. Uma senhora chora com a mão na boca. Um homem gordo, muito suado começa a gritar:
- Muito bem. Esses merdas têm que morrer mesmo.
Augusto olha a arma que ainda fumaça, guarda debaixo do banco, e sai. Os olhares que o cercam são os mais diversos. Ele vê o corpo de bruços:
- Todos devem fazer assim como eu. Ainda queriam me tirar o meu direito de cidadão de me defender. Menos um para colocar nossas famílias em perigo.
Chuta a arma do elemento para longe, vira o corpo. Olha com desdém, logo volta o olhar dessa vez mais atencioso. Seu semblante vai se transtornando, A curiosidade e admiração é comum a todos que o observam.
Uma voz na multidão pergunta:
- O que foi tá arrependido?
- ...
- Amarelô, foi?
- ...
- Tá com remorso?
- Meu deus! Meu Deus! Meu Deus...
- O que foi homem?
- Matei meu filho. Matei meu filho. Meu Deus. Matei meu filho...
09 de novembro de 2005
3c1m@uol.com.br
- Pra mim, esses tais de cheira cola tinham era de morrer. Fazia-se um grande buraco, colocava todos dentro e queimava-os com óleo diesel. São incorrigíveis. Um verdadeiro câncer social.
- Para com isso, eu heim!
- Para com isso o que? Vou te dizer uma verdade Leonardo, manter essas coisas e criar cobra pra nos matar. São os futuros ladrões que vão entrar nas nossas casas e nos saquear. Se já não entraram.
- Muitos tem a idade do teu filho.
- Você tá louco? Comparar meu filhão com essa sub-raça. Já me basta à orientadora do colégio que eu pago uma fortuna, me disse que meu filho estava se tornando um problema. Só porque o garoto brigou, deu uns morros no colega que tava mexendo com ele. Foi descoberto matando aula. Quem nunca fez isso? Eu mesmo fiz muito, e hoje não sou nenhuma ameaça para a sociedade. Até maconha eu fumei, coisa de adolescente, depois passa.
- Você é quem sabe...
- Se eu pegar um sacana desses cheira cola na minha frente meto bala, e não nem olho pra trás.
- Teu filho já andou com esse negócio de droga?
- Sim, mas já passou. Coisa da idade mesmo, já passou.
- Deixa eu ir, minha sogra vai jantar hoje lá em casa, se eu me atrasar a mulher me mata.
- Já vou também. Da um beijinho na sogrinha.
- Daquela eu quero é distância, só aturo por que gosto muito da Silvia...
Era uma noite quente, típica noite recifense. Dentro do carro, o clima era bem mais ameno. Augusto escutava um cd de jazz. O congestionamento era menor devido ao horário, os carros ainda passavam lentos pela avenida mal iluminada. O sinal fecha e todos param impacientemente. Ele escuta um barulho. Assusta-se ao ver um vulto bater no vidro da janela do carro pedindo sua carteira. Faz um sinal que vai pegar. Baixa o vidro e da três tiros a queima roupa. O elemento cai em seguida a se debater. Em pouco tempo não passa de mais um corpo em uma avenida de uma grande cidade. A confusão se forma, todos saem dos carros. Uma senhora chora com a mão na boca. Um homem gordo, muito suado começa a gritar:
- Muito bem. Esses merdas têm que morrer mesmo.
Augusto olha a arma que ainda fumaça, guarda debaixo do banco, e sai. Os olhares que o cercam são os mais diversos. Ele vê o corpo de bruços:
- Todos devem fazer assim como eu. Ainda queriam me tirar o meu direito de cidadão de me defender. Menos um para colocar nossas famílias em perigo.
Chuta a arma do elemento para longe, vira o corpo. Olha com desdém, logo volta o olhar dessa vez mais atencioso. Seu semblante vai se transtornando, A curiosidade e admiração é comum a todos que o observam.
Uma voz na multidão pergunta:
- O que foi tá arrependido?
- ...
- Amarelô, foi?
- ...
- Tá com remorso?
- Meu deus! Meu Deus! Meu Deus...
- O que foi homem?
- Matei meu filho. Matei meu filho. Meu Deus. Matei meu filho...
09 de novembro de 2005
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