Wednesday, November 01, 2006

A Gente Se Vê

Cássio Cavalcante
Sempre detestei esses negócios de velório, enterro e missa de sétimo dia. Não sei por que estou aqui. Acho que deve ter sido a insistência de algum amigo para não vim só. Sei que não estarei presente quando esses eventos se derem por minha causa. Nos dois primeiros estarei apenas com o corpo e no ultimo, na lembrança de alguns já que nem todos os presentes estão sendo sinceros.
Detesto este cheiro de parafina e o aroma adocicado das flores, acho que não vou agüentar ficar aqui por muito tempo. Sei que o normal é não gostar de estar nesses acontecimentos, mas eu tenho uma verdadeira fobia. Não tenho coragem de ir vê o pobre coitado.
Sou o tipo de cara que se pode dizer que está de bem com a vida. Tenho vinte e nove anos. Namoro Lorena, uma mulher linda, inteligente e decidida. Mas só caso quando fizer trinta anos. Quero aproveitar minha situação de solteiro até o ultimo minuto. Sou um jovem advogado, mesma profissão de meu pai. Como ficou feliz quando lhe disse que tinha escolhido ser advogado como ele. Tenho um irmão mais velho, o Paulo, que foi fazer doutorado em historia na Europa e ficou por lá, vem aqui quando a saudade aperta. Minha irmã mais nova, Claudia, é casada com um sujeito que só pensa em dinheiro. E olha que já tem muito, acho que ele vai acabar corno, que é para aprender a viver. Minha mãe, Dona Aída, esta sim é uma maravilha de pessoa. Do tempo que ser dona de casa era a mais sublime das missões. Sempre acho que estou magro e faz as comidas que mais gosto. Muitos amigos perguntam por que não moro só. Não vejo necessidade, tenho tudo de que preciso. Quanto a minha liberdade, esta é total. Não me perguntam a que horas cheguei ou vou chegar. Também nunca dei motivos para ser o contrario. Como se diz, sempre fui um bom moço.
Caramba! Quanta gente. Acho que o cidadão era querido. Está um entra e sai que nunca vi igual. Hoje um dos sócios do escritório ficou estressado com a demora de um empregado. Quando ele chegou levou a maior bronca, foi humilhado mesmo. Para que tudo isso? Depois o meu sócio tem um infarto. De que adiantou? Outra vez foi no super mercado uma senhora destratou a menina que estava no caixa, só não a chamou de santa. A moça nada fez. Depois quando essa mesma senhora que a desrespeitou for assaltada por um desempregado vai se achar a mais injustiçada das criaturas. Não é que eu queira ser o bonzinho, mas tem muita coisa errada neste mundo. A grande pergunta é: Onde tudo isso vai parar?
Uma coisa que aprendi com minha pouca experiência em que ganhei com a existência, foi que se deve fugir dos excessos. Essas carolas que vivem dentro da igreja são as que mais pecam. Os que mais cobram são os que mais erram e por ai vai.
Do que terá sido a causa da morte do cidadão? Estou me sentindo tão mal neste clima funesto que não estou nem mesmo reconhecendo ninguém por aqui. Acho que vou perguntar para este sujeito que vem aí de terno preto. Terno preto aqui no Recife é o fim:
- É lamentável o que aconteceu a ele, o senhor sabe o que foi? De que ele morreu?
-
Acho que este deve ser um parente próximo, ou um amigo. Deve estar desolado, ele nem me respondeu. Sabe de uma coisa? Já estou saindo. Não vejo ninguém conhecido mesmo, sendo assim, fica ate mais fácil eu me mandar.

***

Sempre no final do dia eu passo aqui nesta locadora para locar um filme. Essas televisões a cabo não estão com nada. Pelo menos a minha é assim, não sei as outras. No final do expediente uma geladinha com uns amigos, colocar a conversar em dia. Nesses tempos de CPI temos muitas opiniões para falar e ouvir. Antes de ir pra casa é bom passar na namorada, para dar aquele beijo e dependendo das conveniências ate alguma coisa a mais. Ai chegamos no final da jornada diária, depois de um banho, deitado vendo um bom filme. Pode acreditar não tem coisa melhor:
- Ouvi dizer que este filme A Lenda do Tesouro Perdido é uma aventura de tirar o fôlego. Esse Nicolas Cage só faz filme bom.
-
Eu heim! Que mal educado, não custava nada responder o meu comentário. Ele tem cara daqueles que só vê filme erótico.
Sempre gostei de cinema. Mas nunca tive coragem de me aventurar no campo das artes. Pois se a consagração não acontecer, o que em mil um consegue, geralmente se vive muito mal. Neste mundo, não só no Brasil, é muito difícil ser artista. Seja qual for à área. Aqui devido a nossa cultura ainda é muito mais, mas não é só aqui, pode acreditar.Uma vez ainda tentei com o meu velho:
- Pai o que você acha se eu fizer cinema?
- Com o meu dinheiro você faz qualquer coisa a sua escolha. Desde que seja uma profissão de verdade. Mais tarde com o seu, você faz o que quiser.
A minha vocação não era tão grande a ponto de me fazer continuar a conversa. Ele tinha mesmo razão, não me arrependo de ter me tornado um advogado, gosto de ser. Não vou locar nada, não vejo graça em nenhum filme. Hoje vou pular todas as etapas e ficar na ultima, depois de um bom banho cair na cama. Estou meio chateado, deve ser por causa do programa forçado que fiz hoje.

***

A casa está silenciosa! É tão cedo, geralmente minha mãe gosta de assistir a novela aqui na sala. Meu pai sempre a acompanha, mas não vê a novela, fica lendo o jornal. Assim mesmo ela não dispensa a sua companhia. Mais tarde passo lá no quarto deles, não há de ser nada grave. Às vezes eles ficam no quarto, não é sempre, vendo televisão.
A minha cama não está feita! Isso nunca acontece. Não estou vendo os meus cd´s, nem o porta retrato com minha foto e de Lorena... Aqui no banheiro não tem toalhas, assim também já é demais. Olha, vou ter que ver o que esta acontecendo. A gente se vê...




15 de agosto de 2005
cassiocavalcante21@uol.com.br

0 Comments:

Post a Comment

<< Home