Pérolas Esparsas
Cássio Cavalcante
Segundo domingo de maio de 2005
Era o dia das mães. O dia que Laura gostava mais, gostava mais ate do que do dia de seu aniversario. Se existia uma coisa que ela gostava era de ser mãe, ser dona de casa. Para ela essas funções era mais importante do que a sua própria vida. O seu eu não a importava muito, mas casa, o bom andamento do lar, isso sim era de importância maior. Estava no closet, arruma gavetas seu passa tempo predileto, mas não era muito simpática com aquele cômodo. Lembrava com saudades mesmo era de seu guarda-roupa de quatro portas. E que portas, senhoras portas. Tinha saudades de tudo que lhe lembrava a sua casa no bairro da Torre. Além de seu guarda-roupa, a casa tinha o quintal, e que quintal, as vezes ficava morta de cansada por ter que varrê-lo, mas o cansaço era prazeroso. Se tinha coisa que ela gostava era segurar o cabo de um vassoura com firmeza e varrer, mas varrer bem varrido. No apartamento, não se tinha muito o que fazer. Toda a família mudou-se para Boa Viagem, a casa foi assaltada duas vezes, não se podia mesmo continuar a morar ali. Mas mesmo dando a sua opinião de que não deveriam sair de lá, tinha certeza, nada adiantaria. Olhava em sua volta e via as nove portas do armário. Duas das portas eram dela e sete para Aderbal, o marido. Ele como bom advogado que era tinha que se vestir bem, como mandava o figurino. Tinha verdadeiras coleções de ternos, gravatas e tudo mais que necessitava para compor a sua elegância. Mas não se vestia bem só profissionalmente, tinha verdadeira mania por camisas pólo, bermudas. O Homem era chegado em roupas, gostava de se vestir bem em todas as situações que a vida lhe solicitava. Toda esta vestimenta era cuidada por ela, nunca ele chegou a querer usar uma roupa que esta estivesse faltando um botão ou coisa parecida, sempre encontrava tudo em ordem. Se acontecesse dele encontrar algo errado em suas roupas, com certeza seria pior para ela do que para ele. Ela teria falhado, e isso não admitiria de se mesma. Uma verdadeira dona de casa nunca falhava em suas funções. O que fazia parte deste cuidado eram as naftalinas, mesmo sobre os protesto de deboches do marido. Conhecera este artifício com a mãe, quando criança gostava muito de observá-la. E foi nessas observações que fazia de sua mãe que aprendeu muito do que sabia hoje. Mas nunca esquecia das palavras de sua genitora, quando uma vez sua mãe lhe flagrou cheirando as bolinhas brancas: “cuidado meu anjo, isso é veneno meu doce, você pode morrer e mamãe choraria muito.” Desde então passara a ter verdadeira obsessão por naftalinas. Enfim, suspirava enquanto pensava em sua vida. Mas tinha uma certeza. Toda aquela submissão não era resignação, mais sim revoltante.
Chegou a hora de se vestir, não teria que pensar muito, ia vestir o vestido bege de gola marrom. Era mesmo o seu predileto entre os poucos que possuía. Não ia tomar banho, nunca fora chegada a esta atividade, o uso de sua boa água de colônia, faria melhor efeito que um banho. Era o único luxo que possuía na vida, o gosto pelas aguas de colônias, tinha muitas de todos os tamanhos e marcas, era o único mimo que o marido a fazia. Nisto era um marido perfeito, nunca chegava de uma de suas viagens à trabalho, para não lhe trazer no mínimo dois vidros. Depois de vestida com a roupa que escolhera passou novamente água de colônia, mesmo já tendo feito isso antes de se vestir. Passou na cozinha para fazer uma ultima inspeção no almoço. Sabia e gostava muito de cozinhar. Não admitia uma dona de casa só fazer o trivial, tinha que ser boa em todos os quitutes. Uma mulher não saber cozinhar, nem pensar, era um crime, uma aberração. Era muito disciplinada em todo que fazia, quando fazia o almoço só abria a geladeira uma única vez, tirava tudo o que iria precisar. Uma geladeira aberta desnecessariamente em uma cozinha era um pecado, gastava muita luz. Depois de tudo certificado para o almoço especial daquele domingo, sentou-se na sala para esperar os filhos.
Logo chegaram Sérgio e Jorge, ambos beijaram a cabeça da mãe, Jorge perguntou:
- Onde está o velho?
- Não chame seu pai assim. Sei que está brincando mais ele já lhe disse que não gosta, e não quero saber de brigas no dia de hoje. Ele foi andar um pouco no calçadão. Aderbal ainda trabalha e tem que se exercitar, para manter a linha, já que não é mais uma criança.
- Isso pode ter certeza, criança ele deixou de ser já faz um tempão. – Disse Jorge em tom de brincadeira.
- Pare de provocar Jorge, você sabe que ela não gosta que brinque assim com o pai, e muito menos ele. – Protestou o irmão. – E quando ele chegar não o provoque, se não fizer isso por ele, faça por ela.
- Não me venha você também com sermões, não me venha defendê-lo. Já esqueceu tudo o que ele nos fez passar? – Jorge disse isso abrindo a boca e se espreguiçando, perguntou a mãe, soltando um beijo para ela. – O que temos pra comer hoje?
- Muita coisa boa, mas só vou servi depois que seu pai chegar e tomar o banho dele. Espere, garanto que não vai se arrepender.
- Fazer o que? – Protestou o brincalhão.
Cristina a segunda irmã chega, e com ar cansado e nervoso pede a benção da mãe. Laura depois de abençoá-la pergunta pelo o genro. A filha irritada com a pergunta dispara:
- Não quis vim. Disse que não deixaria a mãe dele por nada no dia dela. Eu sim, que não deixaria a minha por nada neste mundo. Ele é que vai perde o seu cozido fabuloso, que só você sabe fazer. Duvido a dele fazer igual.
- Minha filha, abra o olho, você está errada. Siga o seu marido, onde ele for, eu entenderia. Vai acabar o perdendo.
- A senhora sabe que eu não agüento nada de homem. Está para nascer o homem que vai mandar em mim.
- Você está errada menina, não fale assim. E pelo amor de Deus quando seu pai chegar não fale nessas coisas, não quero briga no meu dia.
- Mas a gente está sentindo tanto maninha, a falta do Flávio, logo ele que é tão agradável. Brincou Jorge, mesmo na mira do olhar reprovativo do irmão.
- Por falar em ausência onde está Silvia? Perguntou o filho que ela mais gostava. Ela gostava muito de sua seriedade que ao contrario do outro não ficava brincando com tudo e com todos a toda hora. Ela respondeu cheia de gentilezas ao seu predileto:
- Ela não está meu filho, foi à casa de uma amiga terminar um trabalho da faculdade. Sua irmã termina este ano os estudos, e esses trabalhos são de muita importância. Mas quem sabe ela não termina a tempo e chega para o almoço?
- Ela tinha era que está aqui, e não ta fazendo trabalho nenhum. – Protestou a outra filha.
- Quem é esta amiga, que ela foi fazer o tal trabalho.
- Jorge não comesse com suas brincadeiras sem graça com sua irmã.
- Já sei, pela resposta da senhora, a amiga só pode ser aquela Paula. Aquilo é um Paulão isso sim. É uma sapatão não sei como a senhora e o velho deixa a Silvia ter amizade com aquela sapatão...
- Pare. Eu acabei de dizer que não quero saber dessas brincadeiras com sua irmã...
- Brincadeira? Eu não estou brincando...
- Você desde pequeno nunca ligou pra nada, sempre foi o que mais me magoou. Sérgio meu filho, mande este seu irmão desnaturado parar.
- Pare Jorge. Isso tudo não leva a nada, olha só como você deixou a nossa mãe. Nós dois temos que cuidar dela e não deixá-la nervosa.
Em meio a toda a discussão, a porta se abre e um silêncio repentino toma conta da sala. Foi Aderbal que chegou. Sem muita conversa disse:
- Estou suado vou tomar banho, depois falo com todos.
Ele não teve resposta todos calaram-se, mas mesmo que houvesse alguma, ele não escutaria, pois não parou enquanto falou, e em segundos já não estava mais na sala.
O almoço acontecia sem nenhum comentário, todos comiam em silêncio, era o costume naquela casa. O pai nunca permitiu muita conversa na mesa, ou melhor, era proibído se falar enquanto se comia alí. Mas aquele gelo e silêncio foram quebrados:
- Oh pai onde esta à Silvia?
- Deve ta fazendo coisa melhor que você, seu Jorge.
- Será? Eu estou almoçando com minha mãe no dia dela...
- Cale a boca, eu sei todos os filhos que tenho. Você sabe o homem que eu sou. Você nem se compara a minha caçula. Onde ela estiver sempre estará melhor do que você...
- Bem... Se melhor do que eu for deixar não almoçar com a mãe em um dia como este. Deixar de fazer isso para está fazendo trabalhozinho com uma sapa...
- Cale-se seu patife, eu sou seu pai e não admito esta falta de respeito na minha mesa...
Não terminou de dizer o que queria, uma crise de torce lhe atacou, fazia um barulho estranho não se sabia se estava tossindo ou mesmo engasgado. Caiu sobre a mesa e ficou inerte:
- Meu Deus! O que houve com o pai de vocês meninos? – Mas com todo o seu desespero ao gritar, as lágrimas nos seus olhos tinham um brilho diferente. Visto somente nos olhos de quem já sentiu ou esta prestes a sentir a liberdade em sua mais pura essência...
***
- Aderbal, você se atrasou um pouco.
- Eu?
- Sim, combinamos de ir ao teatro...
- Teatro?
- Sim, o balé...
- Eu não disse que ia pra balé, coisa nenhuma, dona Laura.
- Eu disse...
- Mas, eu não disse nada. Você falou, e eu fiquei calado. Balé...
- Eu queria tanto ir...
- Ir porra nenhuma, balé é coisa de viado.
- Queria tanto conhecer o teatro Santa Isabel por dentro. Dizem que é tão lindo.
- Olha, eu to cansado. Já não quero nem mais jantar, para não agüentar este seu lenga-lenga no meu ouvido. Eu já comi alguma coisa quando sai do escritório, me deixa em paz que vou dormir. Estou cansado, merda, passei o dia trabalhando.
- Eu queria tanto ir. Ah meu Deus...
***
- Mãe, você está bem?
- Sim Sérgio, estou bem. O que vamos fazer?
- Estou confuso o que me diz Jorge?
- Eu?
- Sim, você.
- Comemoro?
- Pelo amor de deus meu filho não é hora para isso.
- O homem era um déspota, mãe. Por que justo eu, o Jorge renegado, vou chorar?...
***
- Que porra é esta que sua mãe me contou que você comprou uma casa no Campo Grande.
- Pega leve pai, eu agora sou um proprietário.
- Proprietário porra nenhuma. Você está doido, compra uma casa em um lugar ruim daqueles.
- A casa é boa, você precisa conhecer, para poder falar.
- Eu quero conhecer porra nenhuma.
- Você é quem vai perder, em não conhecer o meu palácio.
- Sempre com brincadeiras, com deboches. Você é o meu filho mais odioso. Cresce, leve a vida a sério.
- Para mim, velho, crescer é estar longe de você cada vez mais, nem que para isso tenho que comprar uma casa onde quer que seja.
- Eu não te agüento mais, é o filho que mais me faz vergonha.
- É o seguinte, papai, o que não tem remédio, remediado está...
***
- Acorda Jorge.
- Calma Maninha. Que me ver morrer também do coração?
- Ele está morto? Talvez eu não tenha sido a filha que ele esperava que eu fosse.
- Você vai se culpar agora, Isabel? – Protestou Jorge.
- Mais eu desde menina nunca tentei gostar dele...
***
- Que história é esta que sua mãe me contou?
- Não se trata de historia papai, tenho dezoito anos e me parece normal e justo um namorado.
- Saiba de uma coisa dona Isabel. Na minha casa mando eu. Não é por que a senhora está com essa idade que vai fazer o que quer. Me deve obediência sim, e não me enfrente.
- Mas papai...
- Mas papai nada, não quero homem aqui dentro da minha casa lhe beijando e fazendo mais não sei o que.
- Não sou nenhuma desmiolada, e o senhor sabe disso. Estamos em 1976.
- Não interessa o ano em que estamos, assunto acabado.
***
- Minha filha você não me diz nada? E você Sérgio, socorra sua mãe.
- Mais logo eu mãe. Eu não sou seu único filho. Sempre cobrou tudo de mim. E o Jorge sempre na vida boa. Eu estou confuso, não sei o que fazer...
***
- Sua mãe já me contou.
- Pai estou numa pior.
- O que? Você é corno Sérgio, e me diz que esta numa pior?
- Você quer que eu diga o que?
- Foi corno porque mereceu, casou com a mulher errada. E também não deve ter sido o homem que ela esperava. Tanto é, que ela foi procurar outro.
- Por que o senhor e tão cruel?
- Cruel é um cacete. Eu sou é homem. Sua mãe nunca me corneou. Por que eu sou macho e ela me respeita. Você está chorando?
- Não.
- Este seu choro só atesta o que você é, um fraco, o queridinho da mamãe. Agora vai, resolver a tua vida. Seja o macho que seu pai sempre foi.
***
A sala que foi arrumada com capricho, tantas vezes inspecionada. Parecia triste, e não em um dia de festa. Por mais que a luz nela penetrasse, algo sombrio estacionou ali, naquele ambiente. Uns olhavam para os outros, mas ninguém foi capaz de uma atitude. Não sabiam o que fazer, como agirem. O macabro silêncio foi quebrado, voltou o barulho de torce forte, e o mesmo som de alguém se engasgando. Aderbal com os olhos vermelhos, tornou de seu desmaio profundo. Todos ficaram ainda mais atordoados, embaraçados, envergonhados. O dia foi longo e cansativo, os que ali não moravam mais, retornaram ás suas casas, as suas vidas.
No quarto já totalmente recuperado, ainda pigarreava e torcia um pouco, mas já estava firme e forte. Mal humorado, comentou:
- Não sei o que houve comigo, mais que torce brava. Oh Laura vai até a cozinha e me traz um copo com água. Estou com á garganta seca.
- Só água mesmo? Não quer um leitinho morno?
- Eu lhe pedi água. Não falei hora nenhuma em porra de leite. Será possível, Laura.
- Certo, já estou indo...
- Vê se não demora muito, já disse que estou com a garganta seca.
Passado algum tempo:
Na cozinha a porta da geladeira estava aberta, não, para melhor contar, a porta estava escancarada. No chão, espalhadas por todos os lados bolinhas brancas de naftalina. Como pérolas esparsas, livres...
16 de maio de 2005
3mailto:3c1m@uol.com.br
Era o dia das mães. O dia que Laura gostava mais, gostava mais ate do que do dia de seu aniversario. Se existia uma coisa que ela gostava era de ser mãe, ser dona de casa. Para ela essas funções era mais importante do que a sua própria vida. O seu eu não a importava muito, mas casa, o bom andamento do lar, isso sim era de importância maior. Estava no closet, arruma gavetas seu passa tempo predileto, mas não era muito simpática com aquele cômodo. Lembrava com saudades mesmo era de seu guarda-roupa de quatro portas. E que portas, senhoras portas. Tinha saudades de tudo que lhe lembrava a sua casa no bairro da Torre. Além de seu guarda-roupa, a casa tinha o quintal, e que quintal, as vezes ficava morta de cansada por ter que varrê-lo, mas o cansaço era prazeroso. Se tinha coisa que ela gostava era segurar o cabo de um vassoura com firmeza e varrer, mas varrer bem varrido. No apartamento, não se tinha muito o que fazer. Toda a família mudou-se para Boa Viagem, a casa foi assaltada duas vezes, não se podia mesmo continuar a morar ali. Mas mesmo dando a sua opinião de que não deveriam sair de lá, tinha certeza, nada adiantaria. Olhava em sua volta e via as nove portas do armário. Duas das portas eram dela e sete para Aderbal, o marido. Ele como bom advogado que era tinha que se vestir bem, como mandava o figurino. Tinha verdadeiras coleções de ternos, gravatas e tudo mais que necessitava para compor a sua elegância. Mas não se vestia bem só profissionalmente, tinha verdadeira mania por camisas pólo, bermudas. O Homem era chegado em roupas, gostava de se vestir bem em todas as situações que a vida lhe solicitava. Toda esta vestimenta era cuidada por ela, nunca ele chegou a querer usar uma roupa que esta estivesse faltando um botão ou coisa parecida, sempre encontrava tudo em ordem. Se acontecesse dele encontrar algo errado em suas roupas, com certeza seria pior para ela do que para ele. Ela teria falhado, e isso não admitiria de se mesma. Uma verdadeira dona de casa nunca falhava em suas funções. O que fazia parte deste cuidado eram as naftalinas, mesmo sobre os protesto de deboches do marido. Conhecera este artifício com a mãe, quando criança gostava muito de observá-la. E foi nessas observações que fazia de sua mãe que aprendeu muito do que sabia hoje. Mas nunca esquecia das palavras de sua genitora, quando uma vez sua mãe lhe flagrou cheirando as bolinhas brancas: “cuidado meu anjo, isso é veneno meu doce, você pode morrer e mamãe choraria muito.” Desde então passara a ter verdadeira obsessão por naftalinas. Enfim, suspirava enquanto pensava em sua vida. Mas tinha uma certeza. Toda aquela submissão não era resignação, mais sim revoltante.
Chegou a hora de se vestir, não teria que pensar muito, ia vestir o vestido bege de gola marrom. Era mesmo o seu predileto entre os poucos que possuía. Não ia tomar banho, nunca fora chegada a esta atividade, o uso de sua boa água de colônia, faria melhor efeito que um banho. Era o único luxo que possuía na vida, o gosto pelas aguas de colônias, tinha muitas de todos os tamanhos e marcas, era o único mimo que o marido a fazia. Nisto era um marido perfeito, nunca chegava de uma de suas viagens à trabalho, para não lhe trazer no mínimo dois vidros. Depois de vestida com a roupa que escolhera passou novamente água de colônia, mesmo já tendo feito isso antes de se vestir. Passou na cozinha para fazer uma ultima inspeção no almoço. Sabia e gostava muito de cozinhar. Não admitia uma dona de casa só fazer o trivial, tinha que ser boa em todos os quitutes. Uma mulher não saber cozinhar, nem pensar, era um crime, uma aberração. Era muito disciplinada em todo que fazia, quando fazia o almoço só abria a geladeira uma única vez, tirava tudo o que iria precisar. Uma geladeira aberta desnecessariamente em uma cozinha era um pecado, gastava muita luz. Depois de tudo certificado para o almoço especial daquele domingo, sentou-se na sala para esperar os filhos.
Logo chegaram Sérgio e Jorge, ambos beijaram a cabeça da mãe, Jorge perguntou:
- Onde está o velho?
- Não chame seu pai assim. Sei que está brincando mais ele já lhe disse que não gosta, e não quero saber de brigas no dia de hoje. Ele foi andar um pouco no calçadão. Aderbal ainda trabalha e tem que se exercitar, para manter a linha, já que não é mais uma criança.
- Isso pode ter certeza, criança ele deixou de ser já faz um tempão. – Disse Jorge em tom de brincadeira.
- Pare de provocar Jorge, você sabe que ela não gosta que brinque assim com o pai, e muito menos ele. – Protestou o irmão. – E quando ele chegar não o provoque, se não fizer isso por ele, faça por ela.
- Não me venha você também com sermões, não me venha defendê-lo. Já esqueceu tudo o que ele nos fez passar? – Jorge disse isso abrindo a boca e se espreguiçando, perguntou a mãe, soltando um beijo para ela. – O que temos pra comer hoje?
- Muita coisa boa, mas só vou servi depois que seu pai chegar e tomar o banho dele. Espere, garanto que não vai se arrepender.
- Fazer o que? – Protestou o brincalhão.
Cristina a segunda irmã chega, e com ar cansado e nervoso pede a benção da mãe. Laura depois de abençoá-la pergunta pelo o genro. A filha irritada com a pergunta dispara:
- Não quis vim. Disse que não deixaria a mãe dele por nada no dia dela. Eu sim, que não deixaria a minha por nada neste mundo. Ele é que vai perde o seu cozido fabuloso, que só você sabe fazer. Duvido a dele fazer igual.
- Minha filha, abra o olho, você está errada. Siga o seu marido, onde ele for, eu entenderia. Vai acabar o perdendo.
- A senhora sabe que eu não agüento nada de homem. Está para nascer o homem que vai mandar em mim.
- Você está errada menina, não fale assim. E pelo amor de Deus quando seu pai chegar não fale nessas coisas, não quero briga no meu dia.
- Mas a gente está sentindo tanto maninha, a falta do Flávio, logo ele que é tão agradável. Brincou Jorge, mesmo na mira do olhar reprovativo do irmão.
- Por falar em ausência onde está Silvia? Perguntou o filho que ela mais gostava. Ela gostava muito de sua seriedade que ao contrario do outro não ficava brincando com tudo e com todos a toda hora. Ela respondeu cheia de gentilezas ao seu predileto:
- Ela não está meu filho, foi à casa de uma amiga terminar um trabalho da faculdade. Sua irmã termina este ano os estudos, e esses trabalhos são de muita importância. Mas quem sabe ela não termina a tempo e chega para o almoço?
- Ela tinha era que está aqui, e não ta fazendo trabalho nenhum. – Protestou a outra filha.
- Quem é esta amiga, que ela foi fazer o tal trabalho.
- Jorge não comesse com suas brincadeiras sem graça com sua irmã.
- Já sei, pela resposta da senhora, a amiga só pode ser aquela Paula. Aquilo é um Paulão isso sim. É uma sapatão não sei como a senhora e o velho deixa a Silvia ter amizade com aquela sapatão...
- Pare. Eu acabei de dizer que não quero saber dessas brincadeiras com sua irmã...
- Brincadeira? Eu não estou brincando...
- Você desde pequeno nunca ligou pra nada, sempre foi o que mais me magoou. Sérgio meu filho, mande este seu irmão desnaturado parar.
- Pare Jorge. Isso tudo não leva a nada, olha só como você deixou a nossa mãe. Nós dois temos que cuidar dela e não deixá-la nervosa.
Em meio a toda a discussão, a porta se abre e um silêncio repentino toma conta da sala. Foi Aderbal que chegou. Sem muita conversa disse:
- Estou suado vou tomar banho, depois falo com todos.
Ele não teve resposta todos calaram-se, mas mesmo que houvesse alguma, ele não escutaria, pois não parou enquanto falou, e em segundos já não estava mais na sala.
O almoço acontecia sem nenhum comentário, todos comiam em silêncio, era o costume naquela casa. O pai nunca permitiu muita conversa na mesa, ou melhor, era proibído se falar enquanto se comia alí. Mas aquele gelo e silêncio foram quebrados:
- Oh pai onde esta à Silvia?
- Deve ta fazendo coisa melhor que você, seu Jorge.
- Será? Eu estou almoçando com minha mãe no dia dela...
- Cale a boca, eu sei todos os filhos que tenho. Você sabe o homem que eu sou. Você nem se compara a minha caçula. Onde ela estiver sempre estará melhor do que você...
- Bem... Se melhor do que eu for deixar não almoçar com a mãe em um dia como este. Deixar de fazer isso para está fazendo trabalhozinho com uma sapa...
- Cale-se seu patife, eu sou seu pai e não admito esta falta de respeito na minha mesa...
Não terminou de dizer o que queria, uma crise de torce lhe atacou, fazia um barulho estranho não se sabia se estava tossindo ou mesmo engasgado. Caiu sobre a mesa e ficou inerte:
- Meu Deus! O que houve com o pai de vocês meninos? – Mas com todo o seu desespero ao gritar, as lágrimas nos seus olhos tinham um brilho diferente. Visto somente nos olhos de quem já sentiu ou esta prestes a sentir a liberdade em sua mais pura essência...
***
- Aderbal, você se atrasou um pouco.
- Eu?
- Sim, combinamos de ir ao teatro...
- Teatro?
- Sim, o balé...
- Eu não disse que ia pra balé, coisa nenhuma, dona Laura.
- Eu disse...
- Mas, eu não disse nada. Você falou, e eu fiquei calado. Balé...
- Eu queria tanto ir...
- Ir porra nenhuma, balé é coisa de viado.
- Queria tanto conhecer o teatro Santa Isabel por dentro. Dizem que é tão lindo.
- Olha, eu to cansado. Já não quero nem mais jantar, para não agüentar este seu lenga-lenga no meu ouvido. Eu já comi alguma coisa quando sai do escritório, me deixa em paz que vou dormir. Estou cansado, merda, passei o dia trabalhando.
- Eu queria tanto ir. Ah meu Deus...
***
- Mãe, você está bem?
- Sim Sérgio, estou bem. O que vamos fazer?
- Estou confuso o que me diz Jorge?
- Eu?
- Sim, você.
- Comemoro?
- Pelo amor de deus meu filho não é hora para isso.
- O homem era um déspota, mãe. Por que justo eu, o Jorge renegado, vou chorar?...
***
- Que porra é esta que sua mãe me contou que você comprou uma casa no Campo Grande.
- Pega leve pai, eu agora sou um proprietário.
- Proprietário porra nenhuma. Você está doido, compra uma casa em um lugar ruim daqueles.
- A casa é boa, você precisa conhecer, para poder falar.
- Eu quero conhecer porra nenhuma.
- Você é quem vai perder, em não conhecer o meu palácio.
- Sempre com brincadeiras, com deboches. Você é o meu filho mais odioso. Cresce, leve a vida a sério.
- Para mim, velho, crescer é estar longe de você cada vez mais, nem que para isso tenho que comprar uma casa onde quer que seja.
- Eu não te agüento mais, é o filho que mais me faz vergonha.
- É o seguinte, papai, o que não tem remédio, remediado está...
***
- Acorda Jorge.
- Calma Maninha. Que me ver morrer também do coração?
- Ele está morto? Talvez eu não tenha sido a filha que ele esperava que eu fosse.
- Você vai se culpar agora, Isabel? – Protestou Jorge.
- Mais eu desde menina nunca tentei gostar dele...
***
- Que história é esta que sua mãe me contou?
- Não se trata de historia papai, tenho dezoito anos e me parece normal e justo um namorado.
- Saiba de uma coisa dona Isabel. Na minha casa mando eu. Não é por que a senhora está com essa idade que vai fazer o que quer. Me deve obediência sim, e não me enfrente.
- Mas papai...
- Mas papai nada, não quero homem aqui dentro da minha casa lhe beijando e fazendo mais não sei o que.
- Não sou nenhuma desmiolada, e o senhor sabe disso. Estamos em 1976.
- Não interessa o ano em que estamos, assunto acabado.
***
- Minha filha você não me diz nada? E você Sérgio, socorra sua mãe.
- Mais logo eu mãe. Eu não sou seu único filho. Sempre cobrou tudo de mim. E o Jorge sempre na vida boa. Eu estou confuso, não sei o que fazer...
***
- Sua mãe já me contou.
- Pai estou numa pior.
- O que? Você é corno Sérgio, e me diz que esta numa pior?
- Você quer que eu diga o que?
- Foi corno porque mereceu, casou com a mulher errada. E também não deve ter sido o homem que ela esperava. Tanto é, que ela foi procurar outro.
- Por que o senhor e tão cruel?
- Cruel é um cacete. Eu sou é homem. Sua mãe nunca me corneou. Por que eu sou macho e ela me respeita. Você está chorando?
- Não.
- Este seu choro só atesta o que você é, um fraco, o queridinho da mamãe. Agora vai, resolver a tua vida. Seja o macho que seu pai sempre foi.
***
A sala que foi arrumada com capricho, tantas vezes inspecionada. Parecia triste, e não em um dia de festa. Por mais que a luz nela penetrasse, algo sombrio estacionou ali, naquele ambiente. Uns olhavam para os outros, mas ninguém foi capaz de uma atitude. Não sabiam o que fazer, como agirem. O macabro silêncio foi quebrado, voltou o barulho de torce forte, e o mesmo som de alguém se engasgando. Aderbal com os olhos vermelhos, tornou de seu desmaio profundo. Todos ficaram ainda mais atordoados, embaraçados, envergonhados. O dia foi longo e cansativo, os que ali não moravam mais, retornaram ás suas casas, as suas vidas.
No quarto já totalmente recuperado, ainda pigarreava e torcia um pouco, mas já estava firme e forte. Mal humorado, comentou:
- Não sei o que houve comigo, mais que torce brava. Oh Laura vai até a cozinha e me traz um copo com água. Estou com á garganta seca.
- Só água mesmo? Não quer um leitinho morno?
- Eu lhe pedi água. Não falei hora nenhuma em porra de leite. Será possível, Laura.
- Certo, já estou indo...
- Vê se não demora muito, já disse que estou com a garganta seca.
Passado algum tempo:
Na cozinha a porta da geladeira estava aberta, não, para melhor contar, a porta estava escancarada. No chão, espalhadas por todos os lados bolinhas brancas de naftalina. Como pérolas esparsas, livres...
16 de maio de 2005
3mailto:3c1m@uol.com.br


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