Wednesday, November 01, 2006

Quando os Anjos Amam

Cássio Cavalcante
A cortina de prédios servia de moldura para o bairro. O lugar era banhado pela praia de Boa Viagem que dava-lhe o nome. Por ironia, lá sempre faltava água. No quarto de um dos muitos apartamentos, dois irmãos brigavam pela posse da televisão. Eram os meninos mais desunidos que já se conheceu. Um tinha quatorze anos e dez meses, o outro quatorze. Quando menores esperavam com muita ansiedade o mês do ano em que ficariam com a mesma idade. Mas essas coisas faziam parte do passado. Para eles uma época longínqua que se perdeu no tempo.
Os irmãos não se entendiam, mas não sabiam sair de casa sem estar juntos. Na volta de um show:
- Caim, vamô ligar pra casa. O pai ou a mãe vem buscar a gente.
- Que nada, mané. A gente vai de ônibus mesmo, e dizemos que voltamos de táxi, ficamos com o dinheiro. Levo setenta por cento já que a idéia foi minha. Tá ligado, Abel?
- Nada feito, metade.
- Metade o que? Doido...
- Caim, você viu uma loirinha? Uma com pincem no umbigo, que tava com aquela Heloisa que tu ficou uma vez. Véio, tudo de bom!
Não... Vi, não...
Dias depois caminhando de volta do colégio, no percurso tão conhecido até ao condomínio onde moravam, tinham como companheira, a fome. As energias do lanche foram todas embora depois da bolinha que bateram antes de votarem para casa. Estavam mal-humorados e impacientes. Entre uma discussão e outra:
- Eu num disse veio. Tô ficando com a menina que te falei, é boa toda.
Semanas se passaram.. Ambos sob a nuvem negra da discórdia. Caim displicentemente deixou cair uma fita de game do irmão, e com mais falta de atenção ainda, pisou na mesma. Era o que faltava, a tal da gota d’água. O dono ta fita lançou um olhar vermelho diante do acontecido. Seu desejo maior era fazer o distraído engolir todos os pedaços de sua fita. Só um pensamento vinha em sua cabeça, ferir o irmão. Marcar com sangue aquele invejoso. Que sempre queria tudo o que era seu:
- Porra, Caim. Sacanagem véio, nada haver você tá ficando com ela. Tu sabia que eu tava. Que sacanagem é essa?
- Sacanagem porra nenhuma. Ela deu mole, fiquei mesmo.
- Você vai ver...
- Jaime, corre aqui. Vem ver os teus filhos. Estão rolando no chão, brigando como dois marginais.
- Porra, Helena. Tudo tem que ser eu.
- Eu nunca gostei da idéia dos nomes desses meninos, foi coisa sua.
- Aí. Parou agora mesmo, seus galinhos de briga. Eu mandei parar.
- Foi ele, tá ficando com a menina que eu vi primeiro.
- Viu primeiro mais não é dono. Se ela gostasse de você otário, não tinha ficado comigo.
- Parou. Cala a boca Caim. Lembre-se que um dia é da caça o outro do caçador. E você Abel, não briga por causa de mulher com seu irmão. Ele tem razão.
- Nada disso Jaime, não e por aí.
- Não venha se meter, Helena. Sempre é assim, me chama e depois que tô resolvendo fica se metendo.
Passaram-se os dias, e a rotina dos irmãos era mesma, briga e mais briga. Agora com motivo real, disputavam a mesma mulher. As confusões eram tantas que Zefa, a empregada que ajudou a criá-los, estava a beira da loucura:
- Agüento não, Dra Helena. É o dia todo feito dois cachorros. Estão me deixando doidinha. Quara-feira, até sobrou um chute pra mim. Eu acho que vou querer sair daqui.
- Está louca, Zefa? O que vai ser de mim sem você?
Meio dia, o sol de Boa Viagem, estava quente. Com seus raios de claridade e calor, dourava as ruas. Deixando todos que estavam sob o seu aquecimento, suados e evidentemente de cabeça quente. Na saída do colégio os ânimos dos irmãos se comparavam aos do astro rei. Quando uma menina gordinha, fartas bochechas rosadas pintada de sardas, os cabelos arrumados com maria chiquinha. Formando assim um conjunto visual que causava o repudio de todas as outras meninas tidas como as populares. Ao ver os meninos, com um sorriso repleto de esperança, maldade e rancor. Disparou:
- Vi a Esterzinha agora mesmo. No maior amasso com o Matheus, no estacionamento. Tão lá, o pobre do Siena tá já virando, e ficando com as rodas para cima. Ela tá se achando, disse que fica com ele, mais na hora que quiser um de vocês dois e só estalar os dedos.
Calados os irmãos foram no lugar indicado. Se sentindo observada, o motivo maior da disputa deles, que tinha o pescoço sendo beijado, abriu os olhos, sorriu, e os fechou novamente.
Os dois irmãos trocaram olhares. Puxaram a respiração com firmeza, e soltaram lentamente. Uma certeza única a partir daquele momento passou a povoar suas mentes. Nunca foram tão unidos em um ideal.

***

- Onde está Clarisse?
- Apagada.
- Mais já faz dois dias!
- Não queira agora que ela seja uma mulher Maravilha. Desde o sumiço de Esterzinha até o corpo ser encontrado, ela não dormiu um dia. Com a separação de vocês ela tem levado tudo muito só. A casa, dinheiro, a filha...
- Eu não sei o que fazer de minha vida, Jorge. Você que foi meu cunhado sabe de tudo. O peso, o arrependimento. Não sei se vou suportar essa carga.
- Cleber, agora é tarde...


Recife, 16 de agosto de 2006
3c1m@uol.com.br

3 Comments:

Blogger Luciana Amâncio said...

...tua narrativa segue leve (e gostosa!) até o momento de nos deixar ansiosos e, depois, surpresos...!
Bom demais! :) Um abraço!

4/11/06 06:14  
Anonymous Rita Maynart said...

Um dos melhores contos que já li.Bem escrito, coerente, transparente e, sobretudo, atual; podemos facilmente identificar a realidade diária contida nesta narrativa: o triângulo amoroso,a animosidade entre irmãos e,apesar de tudo,a afinidade e cumplicidade entre ambos,e por fim, o desfecho da tragédia.O Linha Direta delata e relata essa realidade toda semana,mas não a descreve com essa competência e riqueza literária que o seu texto enuncia.É a ficção fotografando a realidade e vice-versa... É uma leitura gostosa e cativante pelo bom-gosto,pelo tom apurado,romântico e estético da sua arte de escrever.
Parabéns,Cássio! Você é um excelente e talentoso escritor.

5/11/06 11:53  
Anonymous Cássio Romero said...

Meu amigo,

Como já tinha dito antes, gostei muito de ler seus contos. Mais uma vez, parabéns por resgatar e mostrar um pouco da nossa cultura para as pessoas que ainda não tem o prazer de conhecê-la. Parabéns, continue escrevendo sempre para que possamos apreciar a boa leitura.
Um grande abraço,

Cássio Romero

8/11/06 14:09  

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