Tuesday, October 31, 2006

$$$ Meu Primeiro Milhão $$$

Cássio Cavalcante
A historia que vou começar a contar, começou em um lugar muito distante do que estou agora. Para ser mais preciso, no bairro da caixa d,água no subúrbio de Salvador. O ponto de partida para tudo foi a morte de meus país. Morreram afogados na Praia de Itapuã. Era um dia no meio da semana com a praia deserta, só tiveram como testemunha de seus tristes fins, o farol. Isso mesmo, a mesma praia da música de Vinicius de Morais. Quando aconteceu estava eu com 14 anos. Ao saber só me passou a idéia de me matar, e devo admitir que desde então essa idéia vem sempre como solução do menor ao maior problema. Posso dizer que acho que superei tudo isso, mas que ficou marcas profundas em minha alma, e que nunca me livrei dessas marcas, posso garantir. Não chega a ser uma fobia, mas passei a não gostar e ter uma grande antipatia por grande quantidades de água. Como mar, lagos e rios.
Filho único e sem avós maternos e paternos, tive que ir para o Recife, morar com o irmão de meu pai. Gregor Maranhão, meu tio era um importante político naquela cidade. A lembrança da minha chegada, até hoje ainda é muito nítida para mim:
- Carlos essas são sua primas Grete e Greta – Disse meu tio, querendo ser gentil. As duas meninas embora com nomes de gêmeas, não eram gêmeas. A primeira tinha 13 anos, e a segunda 10. Ambas me receberam com carinho, mas greta a mais gordinha, sempre me olhava com cara feia, quando estávamos a sós.
- Esta é sua tia Leonor. – Continuou meu tio procurando sempre se mostrar o mais caloroso possível. Leonor, uma mulher corpulenta mais de muito educação. Arriscaria a dizer que era a pessoa que conheci mais preparada para receber. E nada mais bem vindo sendo ela a esposa de um político.
Passamos naquela residência ainda uns poucos anos. Logo depois nos mudamos para uma cobertura na avenida Beira Mar de Boa Viagem. Não tive muitos problemas, meu tio me saiu um verdadeiro pai. Talvez isso tenha acontecido por eu ser filho de seu único irmão, ele não tinha um filho. Acho que o tal destino, se ele existe, me encravou nessa lacuna da vida de meu tio. No passar do tempo não tive grandes dificuldades, talvez por uma defesa me sentisse superior a todos. Devo afirmar que isso me ajudou. Me destaquei nos estudos, nos esportes, eu era o que se podia chamar de popular. Logo estava me formando, escolhi direito, talvez por saber que era isso que me tio queria para mim. Mas na hora da colação, lembrei das palavras de meu pai:
- Advogado foi a única profissão criada pelo Diabo.
Depois de voltar do exterior, onde eu fui fazer um doutorado, presente de meu tio, ele e eu tivemos a conversa que mudaria minha vida para sempre:
- Chegou a hora Carlos.
- Hora de que?
- Você será candidato a deputado nas próximas eleições. E tenha certeza, será a primeira de muitas que irá ganhar.
- O senhor falando assim, tenho certeza. Mas o dinheiro para isso? Ontem mesmo o senhor queixava-se de dinheiro. – O chamava de senhor por que foi umas das poucas exigências que ele me fez. – Este negocio de eleição sempre me falou que custa caro.
- Já está tudo arrumado. O ministro Clovis Aranha e o deputado Cláudio Pimentel vão bancar tudo. A coisa já é garantida.
Sendo assim o resultado foi o que se esperava. Acredito que Tio Gregor com certeza era o mais feliz de todos, quando gritava:
- 14860 votos. O segundo, o segundo! Eu sabia que seria batata. Batata...
Sua esposa, sempre contida e serena, repetia sem parar:
- Parabéns meu filho, parabéns meu filho...
Como por encanto logo me transformei em um político de grande respaldo, não sei como, logo me livrei da sombra de meu tio. Eu era Carlos Maranhão. O presidente da Assembléia, o político mais influente daquela casa. Acho que perdia só para o Governador, mas numa segunda tentativa seria capaz, com a artimanha certa, passar até por cima dele.
Em um belo dia entre uma e outra assinatura olhava para o teto, quando a secretária me avisou da próxima reunião. Era com um executivo, de uma dessas multinacionais. A porta se abriu, e o homem me saudou com um caloroso sorriso:
- Hello, Mr. Maranhão. – Mr. Hudson, era uma figura agradável, bem vestido, os cabelos bem penteados e um sorriso com dentes muitos brancos, que logo me lembraram um comercial de creme dental. Hudson era um desses executivos internacionais que fatiam o terceiro mundo, e o entrega ao dito primeiro, para esse devora-las. Nossa entrevista, claro, foi em inglês. Sentia as vezes que ele queria me testar, mas não o levei a mal. Eu gosto de falar outros idiomas fluentemente.
Passando as primeiras palavras de meras formalidades, ele logo me passou um relatório que me deixou intrigado. Era sobre Porção. No relatório podia-se ler que a cidade ficava no interior, no Vale do Ipojuca. Com uma área de 212,1 Km , uma população de 9.579 habitantes. Em destaque lia-se que na cidade estava a nascente do Rio Capibaribe. Depois de ler perguntei:
- Em que posso ajuda-lo?
- Nossa empresa deseja instalar uma de nossas fábricas, nesta cidade. – Disse ele apontando de uma maneira cordial para o relatório que ainda se encontrava em minhas mãos.
- Ótimo. Melhor impossível. – disse eu sorrindo. – Mas porque me procuraram?
- O Sr. É o deputado mais influente de seu estado. Precisamos de seu apóio, nossa fábrica de detergentes, tem como resultado final, resíduos com altas taxas de poluentes dos mais nocivos...
- Você está louco... O Capibaribe já esta agonizando, mas ainda é um dos maiores símbolos desta terra. Faça a fábrica em seu país. – Procurei demonstrar ao máximo uma indignação, que para ser sincero, sofri um pouco por não senti-la. Ele sorriu de uma maneira paciente, e não tardou em continuar:
- Nossa empresa atua em vários seguimentos internacionais. Pertence ao nosso grupo a empresa que transformou o rio que corta a Coréia do Sul. Que era um dos mais poluídos do mundo, e hoje famílias inteiras pescam nele. Em suas águas cristalinas. Nosso grupo não receberá o seu apóio de uma forma ingrata. Trago aqui, em caráter de última oferta, um milhão. Falo em dólar, não em reais. Ficarei na cidade ainda por três dias, no último tornarei a procura-lo afim de obter sua resposta. – Depois que me entregou seu cartão, apertou-me a mão como se tivesse me proposto o mais dignos de todos os negócios. Demonstrei o máximo de decepção que me foi possível. Chegando em casa, tratei de ligar logo ao meu tio, e marcar uma reunião para aquela mesma noite em meu apartamento, pois já há algum tempo não morava mais em sua casa. Logo meu tio estava comigo:
- O que houve? No telefone me pareceu agoniado.
- Hoje recebi uma... – Depois de escutar todo o meu relato, em todo os seus detalhes. Não tardou, com seu jeito paternal, em me aconselhar:
- Bata o martelo. Feche com eles e trate de todos os detalhes. Não pense duas vezes. Não pense nessas tolices de nascente. Pense no trabalho que isso vai gerar, na moradia, nos estudos dos filhos dos funcionários. Você deve saber que esses empreendimentos vem acompanhados de tudo isso. Isso é reeleição na certa. Tenha certeza, tenha certeza. – Me afirmou já com o rosto vermelho, o que acontecia sempre que se empolgava. – Sem falar de seu bolso, que é importante. Muito importante.
Não formei nenhuma opinião sobre os conselhos de meu tio. Era como se eu estivesse só, naquele momento. Por mais que ele vibrasse com toda aquela negociata. Naquela noite não dormi bem. Acho mesmo que nem cheguei a dormi. Não sei porque toda aquela questão tinha me deixado tão indeciso. Afinal seria sim ou não. Estava perturbado, e a velha idéia de suicídio, mais uma vez me veio como a solução de tudo.
Passados os três dias, Mr. Hudson...
Devo informar de onde conto toda essa historia. Estou no Dilido Hotel, inaugurado em dezembro de 2003. Depois de inúmeros atrasos e milhões de dólares gastos em obras. O prédio é uma jóia arquitetônica dos anos 50. Achei a sua aparência de um transatlântico, um pouco cafona, sua piscina não vale o caríssimo preço de sua diária. O melhor mesmo é seu bar a beira de South Beach, uma das praias de Miami. Aqui é o lugar do momento, os shows sensuais que acontecem à beira da piscina são sem iguais. As festas são disputadíssimas, com modelos com o corpo todo pintado, e outras com asas que chegam a três metros de larguras. Famosos e ricos por toda a parte. Esta praia fica naquele trecho famoso pelos predinhos Art Déco em tons pasteis que ficam os melhores hotéis, bares, restaurantes e boates de toda a Miami. Aqui tem celebridades por todos os lados. Já passaram por mim, Britney Spears, Matt Damon e Jennifer Lopez. Esta última dizem que até mora aqui. Miami por uma década saiu do circuito das grandes cidades mundiais. Mas agora voltou, e vive um de seus grandes momentos. As mulheres, maravilhosas. A hora certa de chegar as boates é por volta das onze. Nas mais famosas, Mynt e Privé. Nem todos podem entrar, a grande maioria são barrados. Para entrar dão preferência a famosos ou habitués. Privé as sextas, Mynt aos sábados, Nikki Beath e Pearl aos domingos.
Quanto à Mr. Hudson... Não resisti e o apoiei em seu projeto. Serei eu, o inimigo do povo? Não, se não fosse eu seria outro. Acreditem que o milhão que ganhei, foi o primeiro de muitos outros que o seguiram. Portanto...

primeiros dias de novembro de 2004
3c1m@uol.com.br

Brasília Formosa o Tempo Não Pára

Cássio Cavalcante
12:15h

- Aí meu irmão, agora a gente tem praia, gostei do pedaço.
- É. Eu também gostei. Aqui tá legal, pra o que era tá bom. O que você tem feito carteirinha?
- Tô numa boa, Daniel. O negócio agora é parceria com os homens. Você agora tá de responsa, trabalhando no shopping. E as minas.
- Faço faxina. Hoje é minha folga.Ontem tava na maior limpeza, veio um mauricinho e cuspiu no chão, só pra eu limpar de novo.
- Aí, moleque. Esses pra mim, eu meto bala, só vai assim. Tu tem que entrar na minha veio. Dona Zefa tua mãe, tá boazinha Daniel?
- Naquele aperto.
- Teu pai sumiu mesmo. A Dona Zefa teve de dá conta de tudo, não foi?
- A ultima noticia do velho foi em 89, ele tava em Macapá. Um irmão dele falou.
- É seu Dan, o veio foi longe, e pode ta vivo ou morto, ta sabendo?
- Tô.

13:15h

- Carteirinha, não vai dá pra eu pagar nenhuma dessas bramas. Tô na maior merda.
- Fica frio Daniel. Tu tá comigo, não tá sozinho. Hoje vou descolar, é jogo rápido vem comigo. Tu vai se dar bem, e sair dessa merda.
- Não dá pra mim não. Tô fora.
- Jogo rápido... Vai por mim. Eu tenho cobertura. Tu vai só pra esse, se tu se de bem, aí é tu quem sabe. Confia no Teu amigão, a gente se conhece não é de hoje.
- Sei não, sei não.
- Se tu tiver afim, me encontra no bar da pracinha aqui mesmo na Brasília. Te espero até nove.
- Não sei, não sei. O sol ta quente, vou lá.
- Tô só na espera.

14:15h

- Meu Deus. Meu Deus... Será que eu entro nessa, e se de merda. Mas essa lisera, eu não agüento mais. Meu Deus. Meu Deus...

15:15h

- Não vou pra casa agora. Vou pensar na proposta do Carteirinha...

16:15h

- Tô quase indo, tô quase indo. O carteirinha é bandido. O cara que cuspiu no chão pra eu limpar de novo. Era bom se fosse ele... Meu deus. Tô quase indo. Meu Deus...

17:15h

- Oi, mãe. Tem o que pra comer?
- Tem uns pedacinhos de galinha, com macaxeira. Macaxeira boa; bem molinha.
- A senhora tá boa?
- Tô meu fio. Ta preocupado com a mãe? Tá?
- Eu não agüento mais, tudo isso.
- Calma fio. O pouco com Deus é muito.
- Deus, Deus, Deus...

18:15h

- Droga, mãe. Televisão quebrada, o rádio também.
- Tá agoniado fio? Tá?

19:15h

- É. Eu vou...

20:15h

- Olha aí o cara, chegou cedo. Tava esperando as nove. Senti firmeza.
- Sei não. Sei não.
Fica frio seu Dam. Bebe uma brama já por conta. Que já, já. Tu vai tá pagando brama é pra todo mundo.
- Tô na maior duvida.
- Fica frio seu Dam. Olha eu aqui. Só na moral.

21:15h

- Que hora a gente vai?
- Fica frio...

22:15h

- Agora eu vou dá um tapinha no bagulho. Sabe como é. Tem que ficar na maior calma, mais também ligado. Vai querer?
- Não.Não.

23:15h

- Esse é teu, também por conta.
- Que revolver. Deve ser caro pra caramba. Mas não quero não.
- Tem de querer. Se o cara dá o bote, é tu ou ele.
- É. Tá bom.

00:15h

- Esse sinal aqui tá bom. Vai ser assim, eu vou no lado do motorista, e tu no do passageiro. Deixa que eu falo. Tu só fica de cara feia, apontando o revolver.
- Certo.

01:15h
- É esse aí. Agora vamo.
- Certo.
- Aí, passa a carteira e os celular. O dela também. Vai porra.
- Posso ficar com os documentos e...
- Cala a boca porra. Aqui quem diz sou eu. Vamo. Também os colar e os anel.

02:15h

- Aí, teve sorte. Quinhentinho na carteira do babaca. Vou te dar a metade, só pra encentivar. Vou passar os celular e as jóia, e depois te dou mais algum. A gente se vê moleque, depois na praça.
- Tudo isso! É o meu salário! A gente não passou nem meia hora.
- Isso é só o começo. Mas tu fica esperto, boca calada, não fala nem pra veia.
- Tá doido. Deus me livre que ela saiba.

03:15h

- Este carro é uma droga, Gaspar.
- Já viu a gente da policia com carro bom. Depois querem que a gente pegue o ladrão. Estas corroças é tudo igual, Almeida.
- Mas a gente tem que pegar, pra pegar o que é nosso também.
- A vítima tava com raiva, ele quer o cara hoje ainda.
- Tem idéia de quem foi?
- Nessa área e pela discrição. Só pode ser o Carteirinha.

04:15h

- Olha ele ali.
- Parado ai. Mão na cabeça e perna aberta.
- Tá pegando o cara errado. Eu não fiz nada.
- Assim mesmo vamos dá uma voltinha carteirinha.

05:15h

- Ai, não... Ai, não... Ai, ai...

06:15h

- Ai. Ai. Eu falo. Eu falo. Tá tudo com um mané novo. Ficou tudo com ele. O nome dele é Daniel. A gente combinou de se encontrar agora de manhã na praça, lá na Brasília, pra ele me da o meu.

07:15h

- Vamo lá agora. O homem já ligou de novo, Gaspar.
- Não. Primeiro vamos tomar um café. Ele que espere.

08:15h

- Quem é Daniel aqui?
- Ali. Ta fugindo. Mete bala Gaspar...

09:15h

- O que aconteceu aqui?
- A policia matou mais um.
- Quem era?
- Daniel, filho de Zefinha.
- Mas um menino Tão bom. Nilo, traz ai um jornal pra cobrir a cara dele.

10:15h

- Meu Deus. Meu Deus. Eu quero meu filho Nena. Eu quero meu filho.
- Calma comade Zefa. Calma.
- Meu filho. Eu nunca mais vou ver meu filho. Eu quero meu filho...

11:15h

- Soubesse que mataram o filho de Zefinha, Preta?
- Soube. Aquele menino nunca me enganou. Me disseram que já fazia um tempão que tava roubando, visse Dona Estrela.
- A policia quando pega, mata. Vô cuidar, Preta.


12:15h

- Aí meu irmão, agora a gente tem praia, gostei do pedaço.
- Tem cada cachorra boa, eu também to gostando.
- Aí, Zezinho. Teu pai morreu de que?
- De cana. Cirrose.
- O teu velho era chegado numa caninha. E aí?
- Tô saindo do colégio, nunca gostei mesmo. E agora que o veio empacoto, lá em casa a coisa ta preta.
- A gente tem que fazer e como eu. Tirar dinheiro desses merdas riquinhos. Olha eu aqui. Na maior moral. Tô cheio de dinheiro pra gastar com as cachorras. Se tu quiser eu te dou uma mão.
- Eu quero Carteirinha. Eu quero...


Dinheiro na mão é vendaval, é vendaval
Na vida de um sonhador, de um sonhador
Quanta gente aí se engana e cai da cama com toda
Ilusão que sonhou
E a grandeza se desfez quando a solidão é mais alguém
Já falou

Mas é preciso viver e viver é brincadeira não
Quando o jeito é se virar
Cada um trata de si irmão desconhece irmão

E aí dinheiro na mão é vendaval, dinheiro na mão é
Solidão
Que solidão

E aí dinheiro na mão é vendaval, dinheiro na mão é
Solidão

PECADO CAPITAL de Paulinho da Viola.



outubro de 2004
3c1m@uol.com.br

Aquele Beijo...

Cássio Cavalcante

Vinha do bairro da Boa Vista, estava na casa de amigos que iguais a ele, gostavam de varar as madrugadas em saraus cantando as modas daqueles tempos, ou mesmo vendo quem recitava a mais bela poesia. Acreditava está bêbado. Passando pela Ponte Velha, olhou para o rio, os reflexos dos sobrados da rua da Aurora, mal iluminados pelos lampiões, pareciam uma pintura sombria:
“O silencio reina, não escuta-se um galope de cavalo perdido.”
Aquela madrugada não estava muito fria, mas de vez em quando uma brisa soprava, tornando a sua jornada que seria longa até a rua da Praia mais agradável. Passando em frente a grande estação, espantou-se quando viu uma formosa cabocla, com uma rosa vermelha nos cabelos:
“O que uma mulher faz aqui uma hora desta? Naturalmente ela não há de querer que eu vá corteja-la. Só pode ser mulher dama.”
- O que tão bela figura faz aqui? O que procura?
- Bela... Já fui. Hoje...
- Foi, não é mais, porque?
- Isso só quem pode dizer depois é o senhor.
- Sou Mauricio Coelho ao seu dispor, qual é a sua graça?
- Pode me chamar pelo nome que preferir.
O casal seguiu até a rua Santa Rita velha. Chegando naquela rua de velhos sobrados pararam:
- Este pertence a uma senhora de má reputação, que em troca de uma generosa gorjeta, casais entre as quatro paredes de sua alcova, se entregavam aos prazeres mundanos. Minha conhecida de outros tempos.
“Hum! Trata-se de uma pequena decidida e com contatos preciosos.”
Depois do acontecido, um dos melhores de sua vida, o rapaz virou-se e contemplou a mulher. Para sua surpresa não encontrou o menor vestígio. A cama só estava desfeita no seu lado, do outro encontrou apenas uma rosa vermelha. Era como se tivesse dormido sozinho. Ao sair do antigo sobrado não encontrou ninguém, menos mal, assim não pagaria nada.
Na pensão da Rua da Praia, que tinha como maioria de seus hospedes estudantes da faculdade de Direito do Recife, todos tomam o café da manhã. Numa das mesas um jovem não parava de tossir:
- Pois foi isso que aconteceu amigo Geraldo.
- Os sarais estão te deixando maluco, é isso que penso.
- Antes meus saraus que o Rendez-vous que tu freqüentas, ainda vão te deixar tísico.
- Que nada, isso não me pega. – Recomeçou uma nova crise de tosse.
Por pura curiosidade, ao cair da tarde o jovem voltou à rua que esteve com a tal mulher. Uma surpresa, o sobrado que pensava ter estado na ultima madrugada não passava de um prédio velho em ruínas. Com as portas lacradas por tabuas. Em uma placa mal pintada, ali pendurada podia-se ler: VENDE-SE.
- Interessado? - Perguntou o vizinho, em uma cadeira de balanço na calçada.
- Não...
- Já faz alguns anos que se encontra neste estado. O ultimo que dormiu aí, já faz algum tempo, acordou no meio da noite com os olhos cheios de areia.Dizem que o desgraçado está correndo até hoje.
O jovem estudante sorriu e saiu em passos largos:
“Vejam só, devia estar muito embriagado para imaginar tamanho disparate.”
O tempo se passou, e com ele as lembranças daquele estranho acontecimento. Chegando na pensão Mauricio recebeu a má noticia. O amigo que realmente estava tísico, fazia um bom tempo, estava internado no sanatório. Havia falecido logo cedo, naquela manhã. A tarde no velório no Cemitério de Santo Amaro, muitos jovens, os pais do falecido, tristes, não saiam de perto do caixão.
Durante o sepultamento, um pássaro preto fez um vôo rasante na cabeça do estudante, em seguida pousando num tumulo perto dali. Aquilo chamou sua atenção, embora não soubesse de que pássaro se tratava, pois não entendia nada do assunto. Aproximou-se de onde a ave estava, e para seu espanto na lápide pintada em louça estava a foto da mulher com a flor no cabelo que conhecera em frente a estação. Avistou um velho com as roupas surradas pela lida, e com um cabo de enxada bem seguro em uma das mãos:
- Por favor... O senhor aí, pode vim até aqui? Este túmulo e de seu tempo?
- Então... Foi o maior confusão no tempo que eu ainda estava por aqui. Lindalva foi a maior meretriz de seu tempo. Foi morta pelo seu cafetão quando queria sair da vida.
“Lápides com retratos pintados em peça de louça, são um privilegio dos mais ricos e importantes.”
- Ela fez ricos e pobres muito feliz, não faltou quem lhe patrocinasse um bom funeral, com tudo que ela teve direito. É meu jovem, quem tem boas amizades tem tudo. Fique sabendo.
- O senhor parece que leu meu pensamento! Faz tempo que está por aqui?
- Eu? Já faz tempo que me fui.
- Onde se encontra agora?
- Ah... Isso eu posso dizer não senhor.
“Meu Deus. Me distanciei de todos, e nem me dei conta que o tempo passou. Já escureceu e estou aqui a falar sozinho...”


11.03.2004
3c1m@uol.com.br

O Sorriso de Ligia

Cássio Cavalcante
Na varanda de um prédio de luxo, na beira-mar de Boa Viagem. Amigos nem todos abastados, se confraternizam em seu carnaval. Na avenida o Bloco da Parceria uma massa humana e colorida. A multidão de foliões sob o sol escaldante se entrega de corpo e alma ao reinado de Momo, como uma onda, seguem os trios. Roberto em seu ambiente, com cadeiras confortáveis, um cardápio regional ao seu dispor e para seus convidados. Ainda cansado do Baile Municipal, no dia anterior aquele Domingo. Ele olha para multidão abaixo e pensa:
Onde encontram tanta felicidade? Muitos não tem onde morar, nem o que comer! Vivem em um sub-mundo que o sistema criou e os aprisionou. Não sabem como será o amanhã, mas mesmo assim fazem o passo do frevo demonstrando uma alegria sem igual. Como conseguem!
- Doutor está chegando mais um carnaval, parece não está muito animado. Está com uma cara feia.
- Não é nada, e só mal humor da ressaca. Estou perplexo da felicidade desse povo. Uma alegria sem igual.
- São dois mundos separados e definidos, no asfalto um, aqui o outro. E te digo mais, é mais fácil um de nós descer para o mundo deles, do que um deles chegar ao nosso.
- Mas que idéia Pedro! Porque foi embora tão cedo ontem?
- Você quer dizer hoje, saí depois do show de Elba. Ontem me dei bem.
- O show de Elba foi bom, mas ela podia ter cantado mais.
- Vou beber alguma coisa, estou com a garganta seca.
Ele torna a prestar atenção no bloco. O rapaz é surpreendido com uma bela visão. Para ele uma morena se destaca na multidão. Fazendo do corpo um espetáculo à parte, dona de um belo par de pernas, que são apenas o começo do arrebatador conjunto que é a sua figura. Os seus olhos negros fazem par com o sorriso. O que o deixa desorientado.
Um gordinho de bermuda amarela e camisa estampada bate no ombro do anfitrião e dispara:
- Nosso carnaval não tem igual. Não tem carnaval no Rio de Janeiro ou na Bahia que se compare a Pernambuco. O nosso tem para todos os gostos, bailes, blocos, carnaval de rua. Olinda é um verdadeiro salão de baile a céu aberto. E o Recife Antigo agora já está firmado, sendo um dos melhores carnavais.
Notando que não estava sendo escutado, o falante se distanciou sorrindo como se tivesse escutado uma boa piada. Mas Roberto, ficou desesperado pois em meio ao grande bloco, perdera o sorriso que tanto o impressionara. Mas o sorriso agora estava no rosto que a pouco estava aflito, tornara a achar o que perdera. O bloco passou, deixando para traz uma avenida vazia e imunda. Hora daqueles que fazem de catar latas de alumínio a sua sobrevivência. No outro mundo hora da feijoada, nos primórdios era comida de escravo, agora a iguaria é servida nas mais finas mesas. Ninguém encontrava Roberto, todos perguntavam: Onde está Roberto? O procurado, se encontrava entregando-se as prazeres da carne, com a morena que pertencia ao outro mundo.
No Hospital o jovem médico fazia plantão, mas seus pensamentos só o levavam a lembrança do domingo passado. No dia seguinte faria sete dias que ele esteve com aquela mulher tão misteriosa, mas que o deixara muito perturbado e ansioso por um novo encontro. Nenhuma ligação, nenhum contato. E nem mesmo ele sabia o nome da dona de seus pensamentos:
- Quando a vejo de novo?
- Acho que não vai dar.
- Por que?
- Nossa realidade é diferente.
- Diferente nada. Nossa realidade é o que acabou de acontecer. Quero seu telefone.
- Não tenho.
- Nem para contato... E o seu endereço?
- Me deixe no terminal de Boa Viagem, e eu ficarei bem.
- Fique pelo menos com o meu telefone.
- É, pode ser.
Nesse momento levantou-se bruscamente, o que a deixou envergonhada, mesmo também estando como ele por baixo dos lençóis. Pegou sua carteira e tirou um cartão. Riscou as letra d e r que antecediam seu nome e a entregou.
- Doutor... Doutor...
- Pode falar.
- A paciente do 301 insiste que não lhe deram seu analgésico. Quer lhe falar com urgência – a enfermeira sorriu – imediatamente.
- Vamos até lá, talvez eu resolva.
A pequena mulher com sua roupa branca, foi na frente. O médico a seguiu logo depois.
A grande sala, que no sábado passado estava cheia e com muita alegria. Estava sombria, sem nenhum movimento. Cansado o médico passou, e foi direto para seu quarto. Mesmo muito cansado não conseguiu dormir logo. A fixação pouco a pouco estava tomando por completo os seus sentidos. Tão logo adormeceu, sonhou com o objeto de sua obsessão. No sonho entre sussurros e gemidos, ele inundava aquela inexplicável mulher com toda a sua paixão. Depois permaneciam abraçados, formando quase que um só corpo. O silencio do quarto foi perturbado pelo telefone que não parava de tocar:
- Alô...
- Roberto? É o Pedro.
- Pode falar...
- São nove horas, as dez o galo vai cantar. Todos já estão indo para o camarote.
- Onde é mesmo o camarote?
- Na praça Sérgio Loreto. Acorda.
- Certo. Daqui a pouco nos encontramos.
- A Paula vai.
- Que Paula?
- A Paulinha, a dentista, ela está na sua, é só chegar.
- Ah... Sei quem é.
- Acorda brother, acorda. O galo vai cantar.
No camarote, os amigos se encontram. Roberto olha para a multidão em sua volta, seria impossível encontra-la ali, só um milagre. Viu passar um casal fantasiado de bombeiro. O que chamou mais a sua atenção foi o Bin Laden segurando um pequeno avião inflável, acompanhado do presidente George Bush que trazia Saddan Hussein preso em uma coleira. Só uma visão surreal como aquela, o fez sorri, na sua angustiante busca. Carlos com sempre chega e vai logo falando:
- O carnaval é a única festa que une o rico e o pobre nessa concórdia que Momo proporciona.
- Quem?
- O Rei Momo
- Ah... O Rei...
Junto com os trios do Galo da madrugada o tempo também passou:
- A Paulinha já foi, saiu chateada.
- Acho que eu também vou Pedro, já está na minha hora.
- Você deve saber o que faz. Amanhã tem Papangu, e você vai.
- Certo. Amanhã a gente se encontra em Bezerros.
O belo dia de sol que fez em Bezerros, tornou ainda mais reluzentes as máscaras nos postes de todo o centro da pequena cidade, e também os mascarados que correm em todas as direções:
- Aí, isso aqui a cada ano fica melhor.
- É Pedro, isso aqui me lembra os nossos tempos de Olinda, quando a gente alugava sempre aquela mesma casa. A farra era boa, lembra?
- Claro, tempos bons, e melhores virão.
- Olha lá Roberto. Lá vem o chato do Carlos.
- Deixa ele.
- Vocês sabem como tudo isso começou?
- Eu não. E você Roberto, sabe?
- Não, mas diga Carlos, você que te todos nos é o único que sabe essas coisas.
- No inicio as turmas de mascarados invadiam as casas de conhecidos, familiares e amigos, eram recebidos e lhe ofereciam angu de milho. Logo ficaram conhecidos como papa-angus, surgindo assim os Papangus.
- A conversa está boa, mas já vou indo.
- Não são nem quatro da tarde. Já reservei duas mesas no Arsenal, aquele bar na esquina da rua Bom Jesus. Amanhã o QG e no Recife Antigo.
- Certo Pedro, amanhã a gente se fala lá. E quanto a você , professor da historia do carnaval, também vá até lá.
- Irei, mas não sei muito da história do carnaval do Recife Antigo!
Vendo que Felipe já ia. Paula se aproxima:
- Você me dá uma carona? Vim com a Sonia, mas ela sumiu.
- Claro. Então Vamos.
Chegando ao apartamento da dentista, aconteceu o inevitável. O médico não foi muito honesto com ela. Foi apenas o seu corpo que ela possuiu, pois na sua cabeça, só havia um sorriso que não saia das suas lembranças.
No Recife Antigo:
- Você sabe do Jairo?
- Brother, ele disse que ainda não chegou a hora de trocar Olinda por isso aqui.
- Estou querendo falar com ele.
- Mas me conta, o que aconteceu ontem?
- Aconteceu o que ela queria.
- E você não?
- Eu também tenho que querer, se não fica ruim de acontecer.
- Ela não deve ter gostado muito do que você fez, ainda não apareceu por aqui hoje.
O amigo sorri. Mas nesse momento surge Paula, que chega ate Roberto e o beija:
- Do que vocês dois estavam falando?
- Dos blocos. Respondeu o curioso.
Surgem dois, saindo da rua Bom Jesus e seguindo para a praça do Arsenal. O primeiro foi o Bloco das Flores:
- Esse aí foi fundado em 1920. – Gritou Carlos.
O segundo foi o Bloco da Saudade, que cantava junto com a multidão que o cercava e o seguia:

E se aqui estamos, cantando esta canção
Viemos defender a nossa tradição
E dizer bem alto que a injustiça dói
Nos somos madeira de lei que cupim não rói.

Nas mesas alguns levantavam e seguiam os blocos. Os que ficavam dançavam de acordo com a cadencia das melodias cantadas. E ainda tinha os que se beijavam apaixonadamente.
O celular de Paula toca:
- Vou ter que ir, depois que inventaram esse plantão lá na clinica, só sobra pra mim. E você rapaz, vê se liga, estou esperando.
- Vou ligar.
Quarta-feira de cinzas. Roberto chega em casa depois de mais um plantão, vai para o escritório. Sempre se sente bem sentando naquele lugar que foi de seu pai. Na televisão o Jornal Nacional dá as ultimas notícias de um carnaval que já passou. Mas ele não presta atenção, a fixação que lhe acompanhou por todo o carnaval, já o está irritando.
Cordulina, uma mulher de meia idade, mais ainda forte e robusta, fazia pouco tempo que servia aquela família. Uma tia avó de Roberto havia falecido, e ela havia ficado sem patroa e sem emprego. As dificuldades de empregados nos dias de hoje a levaram para aquele apartamento. Vendo a luz que saia da porta entreaberta, ela bate na porta:
- Pode entrar.
- O doutor quer alguma coisa?
- Sim, um café bem forte.
- O doutor se importa se a minha filha lhe servi. Ela veio me vê, e tá me ajudando.
- Faça como achar melhor.
- Aproveito e vou vê se a mãe do doutor quer alguma coisa.
A empregada se retira, e ele liga para o amigo Psiquiatra:
- Jairo?
- Grande Roberto, abandonou Olinda de vez?
- Sabe como o Pedro é, acaba levando todo mundo para onde ele quer. Mas me conte como foi.
- Tenho que dá uma brecada no ano que vem, a loucura foi tão grande que não me lembro de quase nada.
- Eu não ando nada bem, passei o carnaval todo pensando em uma mulher que não sei nem o nome. Estou sentindo que isso já esta me fazendo mal. É um fato que está tirando a minha concentração e já está atrapalhando minha vida.
- Passa no meu consultório amanhã no final do expediente e a gente conversa.
Batem na porta:
- Um momento, Jairo. Pode entrar.
A porta se abre e Roberto não acredita no que vê. A razão de suas angustias, que lhe tiraram a empolgação de todo o carnaval. Estava em pé à sua frente segurando uma bandeja:
- Oi. Lembra de mim? Eu sou a Ligia, filha da Cordulina.
Perplexo Roberto, não sabia o que dizer.
- Alô... Roberto, alô...

Quarta-feira de Cinzas de 2004.
Cassiocavalcante21@uol.com.br

O Desejo de Camila

Cássio Cavalcante

Deitada na cama Camila relaxa, mais um dia que passou. O fio de voz de Nara Leão cantando a musica Insensatez, torna o ambiente daquele quarto ainda mais tranqüilo e acolhedor. Todo essa paz é interrompida por uma súbita sede. Ela passa pelo corredor, chegando até a sala. A escuridão não é completa, existe a meia luz de um abajur. Na parede, ela nota um quadro meio torto, aproxima-se para corrigir o erro que achou. Nesse momento lembra a conversa que teve com uma amiga pela manhã:
- Você é muito certinha.
- Não sou certinha, gosto de tudo no seu devido lugar.
- Mas é chato tudo arrumado.
- Não é chato, é prático, facilita a vida.
- E quando você sai daquela casa?
- Você sabe que não gosto de apartamentos.
- Mas apartamentos não são práticos?
- A visão que eu tenho de um prédio de apartamento, é de várias pessoas desconhecidas morando em uma mesma casa, separadas apenas por paredes. Me sinto muito bem e segura em minha casa, nunca me aconteceu nada de mal em todos esses anos.
Depois de certifica-se que o quadro está em harmonia com os outros, segue para cozinha, um pouco iluminada pelos vestígios de luz que chegam da sala, ela abre a geladeira. Parece vê um vulto, olha novamente para certificar-se, e se depara com um homem.
- Quem é você? O que quer aqui? Vá embora.
O intruso leva o dedo a boca, fazendo um sinal para ela calar. Na escuridão, a luz da geladeira aberta reflete na camisola transparente, deixando a mostra sutilmente as curvas do belo corpo daquela mulher. Que estranhamente não se encontra com medo diante daquela situação. Uma estranha troca de olhares acontece entre a dona da casa e o invasor. Foi como se selassem um pacto de desejo mútuo e cumplicidade. Deitados no chão não se despiram, fizeram amor ali mesmo. O homem que sentira uma atração imediata pelo que lhe pareceu ser a mais perfeita e tão próxima mulher que já encontrara. Sem palavras fez dela umas das fêmeas mais realizadas. Tudo foi muito rápido, mas para ambos cada segundo que se passou foram pedaços de uma eternidade sem igual. Será uma forte lembrança de suas vidas que jamais esquecerão.
De repente ele levanta-se oscilando entre a realização e a vergonha. Toda a sua vida passou em sua cabeça, como um filme rápido. Todas as mulheres que já teve em sua vida de marginal. Não sabia por que tinha agido daquele jeito com aquela. Não era seu costume tratar tão bem uma mulher. Então saiu rápido daquela casa como entrou, e sumiu na escuridão. A razão dos conflitos que perturbaram a cabeça daquele ser excluído que sumiu no escuro, encontrava-se ainda deitada no chão de sua cozinha sem acreditar no que lhe havia acontecido.
Mais um dia se passou. A mulher que teve sua casa invadida, nada fez nesse sentido. Encontrava-se deitada em sua confortável cama, coberta de lembranças, que não sabia se queria esquecer, ou guarda-las em sua mente como um bem precioso. No outro lado da cidade o desejo de Camila, em uma rua escura abordava um pedestre batendo com o seu revólver no ombro:
- Aí veio, passar a carteira e o celular.
- Que, que, que é isso rapaz?


04.02.2004
3c1m@uol.com.br

Os Cabelos de Sofia

Cássio Cavalcante

Caio, estava dentro de seu carro, aguardava o sinal abrir. Olhava sempre os carros em sua volta. Em um, uma mulher passava batom, em outro um jovem escutava uma música que parecia animada, em um carro mais na frente um homem acendia um cigarro. Caio, era o que se podia chamar de realizado, tinha muitos amigos, muitas mulheres, um bom carro. Mas a impaciência e o vazio, sentimentos esses que se tornaram seus velhos conhecidos, e não o deixavam nunca. Mas nem sempre foi assim, ele não teve no início uma vida das melhores. Filho de pais separados, deveria ter dois ou três anos quando aconteceu a separação de seus pais, e desde então não passou a ter mais contato com seu pai. Vindo de colégios públicos, mas sempre sendo o primeiro em suas turmas, foi fácil conseguir o seu “lugar ao sol”. Passando por uma universidade com perseverança, depois um concurso e mais um primeiro lugar, e um excelente emprego.
Sinal verde, Caio dá a partida, mas se assusta com um barulho e para em seguida. Não acredita, na frente de seu carro uma mulher caída. Perplexo, sai do carro imediatamente. Ao se aproximar da mulher ainda caída, ele admira os cabelos de sua vítima. Uns cabelos de um louro que somado aos reflexos de um sol escaldante, resultavam nos mais belos cabelos de uma mulher que ele já havia visto em toda a sua vida. Aqueles cabelos molduravam o rosto belo e atraente da jovem Sofia. Que por sorte, não sofreu nada mais grave, somente algumas escoriações. Caio sentiu-se invadido pelo frio que inunda o nosso interior, que mais parece água gelada a molhar o nosso íntimo. Aquele que só sentimos quando a atração pela outra pessoa é das mais fortes e arrebatadoras. Ele pergunta entre a adoração e a preocupação:
- Você está bem?
Sofia responde meio atordoada:
- Acho que sim.
Ele então sorrio, o mais tranqüilo dos sorrisos.
Cinco anos se passaram, Caio encontra-se no mesmo sinal fechado. Ele agora não olha mais os carros em sua volta. Dentro de seu carro ele contempla Sofia, que sentada a seu lado, é sua mulher. No banco detrás duas crianças brincam, seus filhos. Caio não procura mais, agora ele tem. O sinal abriu, Caio se vai não mais acompanhado pela impaciência e o vazio, mas sim pelos cabelos de Sofia.


29/01/2004
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